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Poema: ERA 1989

Não é natural ter atravessado Paris  de salto alto Manolo Blanhik desde a Place de la Concorde depois de um dia inteiro  comemorando os 200 anos da Revolução Francesa tiramos da cama um casal amigo hospedado num flat nos Champs Elysées que tudo queria saber e depois já madrugada ponte atravessada ruas sem mendigos ao celular como sói hoje acontecer enfim chegamos à Rue du Cherche Midi onde na Poilâne comprei um pão eu roubando ideias da Cristina Peri Rossi que então com seus poemas me ensinava a amar Montevidéu

Poema: HEI NÃO

Abro o velho caderninho vermelho dos aniversários olho para quantos já se foram e em quantos já fizera uma cruzinha faço verso para libertar o fantasma escondido no útero da casa onde gritos na noite soam e braços batem furiosos no lençol desconhecida de ser quem seria senão a que enche a vida de metáforas e pensa colorido quando é sombra ao redor hei não de pôr enquanto  conversar com os mortos...

Poema: NÉVOA

Na dimensão de um não estar  quase perceptível que foge sem corpo traçado  se escondendo vapor poema evaporando adentrando mudo tênue instar sem estar pairando solo como nuvens em linha invisível se esgueirando naquele “entre” imperceptível  que se dirige delicado ao infinito deixando em meu corpo  a transparência das teias de uma aranha

Poema: CHARADA

Não sei se me sinto Shakespeare mas talvez por ele enganada  quando leio Hamlet traduzido por Millor querendo eu discutir: primeiro com o autor depois com o personagem cutucar tirar-lhe a venda dos olhos  braba se não pensam/sentem  como eu intrometida quero abrir lhe a alma descifra-la digo a de Hamlet necessitado do engano medroso da verdade e de Shakespeare saber o segredo estariam meus olhos fechados? meu coração ou aquele de Hamlet sobre quem de fato matou-lhe o pai ou a pena do autor  que a verdade nem saberia  

UMA CONVERSA ENTRE O CÉU E A TERRA

Em homenagem ao centenário de João Cabral de Melo Neto e com parabéns  à turma de formandos no Rio Branco que o escolheu como paraninfo neste ano de 2020. UMA CONVERSA ENTRE O CÉU E A TERRA                  MI – Era 1968. Dia de sol e eu tinha ido te entrevistar para o Jornal do Brasil na cobertura em Ipanema do Rubem Braga. Você mesmo abriu a porta. E foi logo acordar o teu hospedeiro que dormia na rede vermelha na varanda e que depois bem que tentou atrapalhar nossa conversa. Você era Consul-Geral em Barcelona e tinha ido ao Rio lançar tuas  Poesias Completas. Vestia uma camisa de linho branco e as calças jeans do teu filho pois tua mulher não estava para te fazer a mala e as calças ficaram pra trás. Logo você que achava que vestir esporte era apenas tirar a gravata. Veja que não esqueci. E estamos em 2020. Vou te contar depois sobre esse horroroso ano pandêmico que estamos vivendo, mas antes disso quero t...

UM POEMA SOBRE LILLIAN, um filme de Andreas Horvath (07 de setembro de 2020)

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  Bela era até demais mas sequer em filme pornô um emprego. Visto vencido no passaporte soviético - 1927 - será que falava inglês? Joga no lixo de Manhattan as fotos de modelo junto também o passaporte e pra Rússia natal segue a pé via o gélido Alaska, que aos russos já pertencera e no saco de pano por mochila o mapa surrupiado quando a vendedora vira as costas. Altos edifícios ruas avenidas pontes túneis calçadas meios fios e a cidade borbulhante fica longe. Sem que se ouça sua voz: atravessar o gélido estreito de Bering a quase 5 mil milhas de onde estava? Numa casa no campo de porta sem chave e alma viva nenhuma se abastece das salsichas que esquenta na lareira e até com molho se regala. Banho quente melenas lavadas pernas e axilas depiladas no banheiro bem suprido pela última vez dorme em lençóis. Na manhã depois de no chão espraiada estudar caminho e na mochila agregar escova, pasta de dentes e o grande pote de plástico com doritos, alimento dos próximos dias segue estrada. A ...

UM ESTILO PAULISTANO — SIM OU NÃO (10 de junho de 2012)

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Carioca que sou, mas destinada a um dia morar em São Paulo, dei de vir aqui mais seguido para acompanhar a obra da casa que havíamos comprado para nossa volta definitiva ao Brasil. Mais do que em Washington, onde morávamos, a cada vinda me sentia mais próxima daquela Londres com a qual ainda sonhava e onde tinha vivido encantada nos anos 60 e 90. A vibração de uma megalópole em franca expansão, mesmo que de forma muitas vezes caótica, com gentes de mil e uma tribos, origens e nacionalidades como São Paulo, é certamente contagiante. São Paulo logo me conquistou. Entre o mau gosto e bom gosto, o paulista, ou melhor o paulistano não teria uma especial fidelidade a estilos, seria mais um adepto do ecletismo. É o que pensa um dos maiores connaisseurs da história da arquitetura local, o jornalista Raul Lores: “Podemos ser Isay (Weinfeld) em um dia, neoclássicos em outro, sustentáveis ou esbanjadores. Somos loucos pela novidade, obcecados em modernidade...