UMA CONVERSA ENTRE O CÉU E A TERRA
Em homenagem ao centenário de João Cabral de Melo Neto e com parabéns à turma de formandos no Rio Branco que o escolheu como paraninfo neste ano de 2020.
UMA CONVERSA ENTRE O CÉU E A TERRA
MI – Era 1968. Dia de sol e eu tinha ido te entrevistar para o Jornal do Brasil na cobertura em Ipanema do Rubem Braga. Você mesmo abriu a porta. E foi logo acordar o teu hospedeiro que dormia na rede vermelha na varanda e que depois bem que tentou atrapalhar nossa conversa. Você era Consul-Geral em Barcelona e tinha ido ao Rio lançar tuas Poesias Completas.
Vestia uma camisa de linho branco e as calças jeans do teu filho pois tua mulher não estava para te fazer a mala e as calças ficaram pra trás. Logo você que achava que vestir esporte era apenas tirar a gravata. Veja que não esqueci. E estamos em 2020. Vou te contar depois sobre esse horroroso ano pandêmico que estamos vivendo, mas antes disso quero te dar notícias do nosso hoje e ousar trocar umas ideias sobre poesia, ou melhor, te ouvir, aprender se é que poesia se aprende. Deus aí do teu lado que me perdoe esta ousadia. Mas é que eu entrei numa oficina de poesia via uma coisa chamada Zoom no computador. A aula rola no Rio e apesar do destino ter me trazido para SP eu consigo estar no Rio de mentirinha todas as quintas feiras as 18.30h. A aula é deliciosa. Não sei qual o fuso horário aí no céu mas seria legal se você pudesse espiar como falam maravilhas de você e também como pode ser a poesia hoje. Vale tudo ou quase tudo. Travessão, parênteses, interrogação de ponta cabeça, e comercial, reticências, texto cursivo, desordem na página, maiúsculas no meio da palavra, enfim, até mesmo foto pra ilustrar. O professor é um super poeta que dá aulas muito lindas e volta e meia trás para leitura poemas teus, te admira de verdade e o outro dia trouxe aquele onde você discute o ferro fundido e o forjado que me deixou, aliás, meio intrigada. Mas isso é papo para outro dia. Como você, vejo que ele implica com o soneto, com aquele saber meio que de antemão o que e onde se vai parar. Sei que incrivelmente você nunca escreveu um soneto, pois justamente refuta esse tipo de obstáculo, mas é sabido que ao mesmo tempo você cria os teus próprios obsessivos obstáculos. Não é assim?
JC – “Faço como um arquiteto, parto do esqueleto. Me submeto ao esqueleto que tracei. É o primeiro obstáculo pois o espírito funciona com tanto maior intensidade quanto mais obstáculos você tem a vencer. Escrevo com dificuldade. Tem gente que escreve de dentro para fora. Eu escrevo de fora para dentro. Antes faço o plano do livro, decido qual vai ser o número de poemas, o tamanho, os temas. Crio a forma, depois encho. Primeiro o blueprint, depois a casa. O que sai logo de primeira é ilegível. Trabalho como um louco frio.”
MI – Apesar de eu ser então apenas uma jovem repórter e do Braga pensar que eu te faria perguntas bobas, você gostou por eu não ter feito nenhuma daquelas fatais que fazem aos poetas como:
Qual sua cor preferida?
Qual sua ideia de felicidade?
Pois fiquei sabendo disso só quando li o prefácio que uns meses depois você escreveu para o meu livro de entrevistas no qual está a primeira que fiz com você. No bilhetinho que me enviou com o texto você escreveu: “Se achar que não presta pode rasgar que não ficarei chateado.”
Imagina João, rasgar qualquer coisa escrita por você, que ideia mais esdrúxula. Guardo esse bilhete dobradinho no coração. Estarei sendo melosa? Quando você escreve com pedras e o prosador passa cimento nas formas. Não foi isso o que disse Valery?
JC – “Quando escrevo procuro não ser muito retórico nem muito derramado. Prefiro a forma compacta, mais direta, que atingirá mais fundo o leitor. E como escrever me excita muito, prefiro escrever de manhã. De noite perco o sono.”
MI – Então a poesia é um esforço de dentro, de manter esse sol, que lhe mantem o incêndio?
JC- “Como eu já disse, minha preocupação é acordar e não dormir, é viver no extremo da minha lucidez. Quando chega sete horas da noite já me sinto cansado. Gostaria de viver com os fogos de dentro acesos 24 horas por dia.”
MI- Então o tempo poderia contra tudo, esse que ama o ímpar instável?
JC – “Sou da teoria de que a roda era um quadrado e que com o uso, com o tempo, virou redonda.”
MI – Não sei se lembra de uma outra entrevista que fiz com você, em Brasília, em 1976. Dei-me com ela o outro dia. O título era João, um poeta contra o Pelo. A chamada foi: Sua poesia é feita da casca para o fundo, é incisiva como o diamante, mas que ele quer industrial. Tensão e a palavra: pedreira foi a legenda de uma das fotos. Nela você está de terno e gravata, óculos redondos. Bem diplomata. Era Embaixador em Dakar, no Senegal e passava por Brasília. Em 75 tinha lançado O Museu de Tudo, premiado como a melhor poesia brasileira publicada naquele ano. Entendi que ali entrou tudo o que não teria se encaixado em outros livros mais temáticos. Aliás que nome lindo para um livro. São bem teus o rigor, a aspereza, um como que estar no mundo sob o susto. Magro, ossos muito visíveis. Tinha ficado bem longe o tempo em que fazia furo nas sacas de açúcar cristalizado que teu tio usineiro mandava para a casa de teus pais e você se regalava. Apesar de pernambucano, só se vê o açúcar entrando em tua poesia como assunto insólito e inesperado como são os teus temas. Pensando num animal, em lugar do cavalo ou do leão você preferia a cabra, animal barato, pobre, anti decorativo. Aqui na terra, inclusive no Brasil, fazem agora queijos de leite de cabra bem gostosos. Virou coisa sofisticada.
Percebe-se que a tua poesia é contra a grandiloquência. É metálica? Nela tem faca, níquel, alumínio, estanho, zinco. Seria a busca de um constante lapidar? Vinicius de Morais até te chamou de camarada diamante.
JC – “Já fui influenciado pelo surrealismo, tendo cultivado de certa maneira o aspecto mórbido, sombrio das coisas. Mais tarde li toda a obra de Le Corbusier e tive a revelação da beleza.
Percebi que o dia é mais bonito que a noite, o racional mais do que o irracional. Não creio que a poesia se dirija só à sensibilidade. Ela se dirige à inteligência através da sensibilidade mas para se dirigir à inteligência tem de ser pelo concreto. A vantagem é usar palavras concretas, literais.
Na palavra maçã, por exemplo, está implícita a noção de gosto, de cor, de forma. Podemos chegar até a Adão e Eva se quisermos. Já as palavras tristeza e angústia vão ter significados diferentes para todo mundo. Mesmo as ideias abstratas temos de transmitir através de palavras concretas. Drummond tem um verso lindo, Há um cão cheirando o futuro. Aí o futuro ganha uma concreção fantástica. O uso do cheirar faz o futuro virar concreto. Na medida em que tenho uma aversão visceral ao romantismo, sou fascinado pelos metafísicos.”
MI- E lembra quando você disse que o teu maior medo era se sentir morrer?
JC- “A pessoa deve ficar bem debilitada no final pois o normal é que ela gritasse, berrasse, mas isso nunca se vê acontecer. E ainda te disse que acreditava no inferno, mesmo que seja uma coisa irracional que me acontece, eu que não acredito nem em Deus nem em céu. É que em minha mocidade fiquei marcado demais pelos padres maristas. E o que acontece é que acredito em diabo com tridente e tudo o mais”.
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