UM POEMA SOBRE LILLIAN, um filme de Andreas Horvath (07 de setembro de 2020)
Bela era até demais mas sequer em filme pornô um emprego. Visto vencido no passaporte soviético - 1927 - será que falava inglês? Joga no lixo de Manhattan as fotos de modelo junto também o passaporte e pra Rússia natal segue a pé via o gélido Alaska, que aos russos já pertencera e no saco de pano por mochila o mapa surrupiado quando a vendedora vira as costas. Altos edifícios ruas avenidas pontes túneis calçadas meios fios e a cidade borbulhante fica longe. Sem que se ouça sua voz: atravessar o gélido estreito de Bering a quase 5 mil milhas de onde estava? Numa casa no campo de porta sem chave
e alma viva nenhuma se abastece das salsichas que esquenta na lareira e até com molho se regala. Banho quente melenas lavadas pernas e axilas depiladas no banheiro bem suprido
pela última vez dorme em lençóis. Na manhã depois de no chão espraiada estudar caminho
e na mochila agregar escova, pasta de dentes e o grande pote de plástico com doritos, alimento dos próximos dias segue estrada. A fome não haveria de resistir às beiradas de massa sobrantes nas caixas de pizza no lixo e sem medo de vírus se agarra à garrafa plástica que lava e enche nas águas de um rio onde um urso aparece sem trazer susto nem pra ele nem pra ela e com uma vareta da floresta ou pluma de alguma ave prende no alto o cabelo e bonita muito continua. Como nos tempos pandêmicos sem conta e data de finitude dias semanas e meses se sucedem Norte acima por terra de índios que protestam ou de cowboys onde numa disputa de carros que se chocam ganha o mais desmantelado, coisa de adultos bobos e na arquibancada, enquanto distraídos, a facadas corta a melancia usurpada da quitanda que bem pouco mata a sede e a fome abissal. No ônibus abandonado passa a noite. E pelas estradas de terra desveste os espantalhos de assustar pássaros de suas roupas e delas se serve como a linda blusa branca bordada e era o sol manchando o rosto o buço crescendo, as pernas ganhando pelo e os cabelos sempre mais longos lavava na pia do toalete de cafés onde nada consumia, ou na chuva que do céu tombava forte ou sob os aspersores que regam campos agrícolas, xixi era no meio da mata num rio ou algum banheiro publico. De um container de roupas velhas ou nem tanto puxa um mini vestido lilás que fez com ela boa parte do trajeto. Também entrava em laundromats e bisbilhotava entre as roupas já secas à espera de seus donos. No deserto o calor aperta, sufoca e é com os pés machucados do tenis apertado que chega a uma cidade onde no desespero abraça um saco grande de cubos de gelo e com ele no peito segue andando fugindo de gente - de abrir boca - do sim ou não com a cabeça e da comiseração. No sofá velho de casa abandonada passa outra das muitas noites e antes de seguir viagem com a tesoura e sem espelho corta os próprios cabelos, brinca com a boneca ali nua esquecida e com durex cola nela o cabelo cortado. O que de útil encontra, como a panelinha amassada onde depois viria a derreter neve para tomar como água ou sopa põe na mochila mas a boneca inteira nela não caberia, arranca-lhe a cabeça agora com peruca. Sobre o Missouri passa a longa ponte. Dakota, Nebraska e o que mais no caminho até que um policial avisado da estranheza de alguém flanando na solidão das estradas a revista, tira foto e pelo celular – agora a história vem pro hoje - consegue saber que não é pessoa procurada ou perigosa. Não só a deixa seguir caminho como oferece carona até o seguinte vilarejo onde doa-lhe o casaco com insígnia de xerife. Sempre sua voz não sendo ouvida. Teve muito calor primeiro e muito frio depois, sóis inclementes, chuvas de granizo, tempestades de neve, falésias, montanhas, rochas ocidentais, noites em carros ferro velho até que numa balsa de carros sem carros é a única passageira em direção à outra margem do rio Yukon. No brechó trocou de botas, apropriou-se de um chapéu de frio e do casaco forrado de pele enquanto a vendedora falava alto ao telefone sem ver ou fazendo que não via e bem rápido elegante dá adeus às meias de nylon preto rasgadas. Já nos extremos do Alaska encontra o atônito do verde alucinante no céu pintado pela aurora boreal mas não tinha celular para a foto do instante raro e de fascinar turista pois aconteceu no ontem, não no hoje dos 3,4 e 5Gs e avistando seu país do outro lado do estreito com sorriso de se interpretar vê um bote vermelho emborcado que consegue aprumar e embarcar a mochila. Puxando pela corda tenta levar até o que pensasse fosse agua mas a vemos escorregando sem mais forças num chão tornado gelo. Diz a lenda que se casou com uma baleia que virou homem e teve filhos e netos. Anos e verões depois caçadores do mamífero encontram na areia a cabeça da boneca sem peruca. Em 1867 bem antes das frias guerras as terras frias do Alaska se fizeram americanas por 25.2 milhões de dólares.

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