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 Sobre o Livro CHUTE:


João Almino

"Boa noite, Maria Ignez. Aqui é João Almino.

Vão algumas palavras jogadas, logo encerrada minha leitura de seu “Chute”.

As referências pessoais, literárias, pictóricas no seu livro são tantas, que eu me perderia se ousasse começar a citá-las. 

Por isso fico sobretudo com Maiakovski invocado logo no começo nos “Lábios de Maiakovski” e depois ainda mais explicitamente: “__Vem, vem Vladimir / me ensinar a escrever versos sem enfeites”. E volta mais vezes, inclusive naqueles Vladimir I e II, que se encerram descrevendo-o como “aquele que enlouqueceu a anotomia/ e se fez inteiro coração”. E, noutro, “andou por Paris” e “amava Lyuda”, russa como ele (do poema “De calças na nuvem”). 

Sei, não é só nele que estão suas referências poéticas, disfarçadas ou expressas sem pomposidade. Li várias versões do Livro do Desassossego e fui aos papeizinhos soltos do baú. Manuseei os originais na Biblioteca Nacional de Portugal em Lisboa à cata de algum enredo para aqueles fragmentos que, na correspondência, Pessoa dizia que algum dia formariam um romance. Você também catou fundo naqueles  papéis: “Se o coração pudesse pensar / pararia”, suas palavras de desassossego no poema que cita apenas a voz de um Fernando escondida atrás de um tal  Bernardo, que o leitor desavisado talvez não saiba ser o heterônimo ajudante de guarda-livros.

Achei divertidas as “Memórias de quadrilha”, um “poème à clef», com conversas de telefone e cenas em elevador. 

“Entretantos” também traz belos versos, como aqueles do poema “Se pudesse”: “…na busca de um resgate/ do colo que não teve e que não deu…// fantasmas que teimosos/ sobrevivem”. 

Exercício nada fácil e bem sucedido extrair um poema da dor de um músculo (“Psoas”). 

Gostei dos poemas sobre a poesia, que trazem versos precisos: “a poesia é uma espécie de loucura / e busco fundo / no acaso do oceano / onde o barroco se expressa com detritos…” 

No seu livro o oceano é vasto e sem excessos. Loucura livre e contida. Diria, apenas insinuada, o que é uma qualidade do estilo. E não só na parte específica do livro sobre a poesia, pois lá no finalzinho vem aquela tomada de partido de “Faz escuro mas eu canto”: “se entende que seja o tema / da arte que grita sem medo”.

 O “Chute” também mostra seu olhar informado e atento sobre os olhares. Refiro-me à presença das artes visuais na sua poesia. Deveria dizer, à percepção do seu olhar que passeia por uma exposição múltipla e densa como Les Choses e dela extrai uma essência. Este li com Bia, assim como “Lygia” , sobre como surgiram os “bichos”, e “Vermeer, my love”.  Coincidimos em observar seu olhar perspicaz e sutil, eu diria, usando versos de outros poemas seus, “como se com os olhos/ enxergasse de ouvido” ou “como Proust tornando relevante a irrelevância”. Não sei se vimos a mesma exposição em Amsterdam (ou terá sido uma mais antiga em

Washington?). Mas segui você “pensando o que pensariam elas”, aquelas figuras femininas, “à esquerda sempre uma janela”, “impedida de saber o que nas missivas / está posto”. 

Cito outra bela passagem: 

“Me ponho a elucubrar/ quem sabe a intenção de uma visita / promessas de encontros furtivos / nos envelopes que a criada em sua gola de renda /entrega// …nesse misterioso olho no olho pelo pintor imposto.”

O livro é enxuto.  O “Chute” é certeiro. Sem enfeites. Maiakovski veio."


- mensagem recebida pelo João Almino (Membro da ABL)


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Laurentino Gomes

"Prezada Maria Ignez,

Aqui é o escritor Laurentino Gomes.

Tomo a liberdade de lhe enviar diretamente esta mensagem (pelo WhatsApp que me repassou nosso amigo em comum Sérgio Almeida) apenas para agradecer o envio de seu maravilhoso livro de poesias. Li com enorme prazer. Parabéns pelo excelente trabalho. E arrisco-me até em lhe dizer qual meu poema favorito. Escolha difícil. São todos muito bons, mas fico com “Se no princípio”, págs 44/45. Que venham logo outros livros. Cordial abraço deste seu novo leitor."

- mensagem recebida de Laurentino Gomes (Autor da trilogia: "Escravidão" e outros livros sobre a história do Brasil)

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Margareth Pretti Dalcolmo

"Cara Maria Ignez... 

Li o CHUTE com prazer e cumprimento pela sensibilidade e senso de humor com que registra seus versos e prosa. Continue ! Escrever, dói, como diz o Saramago, mas eh dor boa..

Afetuoso abraço esperando rever vcs."

- mensagem recebida de Margareth Pretti Dalcolmo (médica, professora, escritora e pesquisadora brasileira)


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Sobre o livro "Gentíssima" 


Perfís de Maria Ignês Barbosa - por Jorge da Cunha Lima


A jovem reporter do Jornal do Brasil, com 23 anos, era bonita e tinha pedigrée. Filha de embaixador ilustre, Sérgio Correa da Costa, neta de Oswaldo Aranha, culta de nascença, o que facilita as coisas, tinha entrada onde quizesse. E entrava. Isso era fácil, entrar. Difícil era sair com o rasto luminoso das entrevistas que fez com algumas das mais interessantes personalidades deste país.

O livro é informativo, mas com sutilezas, agradável, mas sem render-se ao verbo agradar. As entrevistas desnudam, mas sempre deixando os personagens com seus melhores hábitos.

Sua entrevista com o mais belo e mais difícil de nossos poetas, o João Cabral de Melo Neto, é uma pequena obra prima. O poeta solta-se de todos os humores consolidados de um homem de 48 anos, com 9.400 versos arquitetados, conforme informação de Maria Ignez, para falar da vida, sua vida, e a arte de escrever, arte em que sua vida acabou se transformando.

É difícil defender só com palavras a vida? pergunta.
A palavra dá consciência, mas o que faz mesmo é a enxada. responde.

Agripino Grieco, para recebê-la, veste um terno, pois só andava de pijama na casa do Meyer. Debulha todo o seu sarcasmo e suas ironias. Mas é um doce homem. Um poeta imigrante. Sua sabedoria transpira dos 58 mil volumes de sua biblioteca espalhada até pelos banheiros. Agripino Grieco achou melhor não falar da morte: ³Não proferir esta palavra. Aguentá-la na hora adequada e não antecipar a emoção, de medo ou de falsa coragem².

Gentíssima prossegue. De Pixinguinha ao escultor Henry Moore. Sempre adorei mãos. Depois do rosto, são a parte do corpo mais apta a expressar emoções. Nara Leão, feliz mas não completamente.
A única entrevista que não gostei foi a de Wilma Guimarães Rosa. Não por culpa da jornalista, mas porque tudo o que a entrevistada dizia parecia falso. Inventava frases, como seu pai, mas sem qualquer sentido, porque ela não era seu pai.
Já o capítulo da morte do próprio Guimarães Rosa é um primor. Ser interessante é mais bonito do que ter beleza. Imortal é o que é sofrido e espírito; tudo, abaixo daí é póstumo.
Um livro necessário sobre essa gente incrível que transitava pelo Rio, como dádivas perdidas, no achado e glorioso ano: 1968.



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Julio Daio Borges


Digestivo nº 325 - Hoje, na imprensa-impressa, as entrevistas parecem todas iguais. Não têm nada do entrevistado, muito menos do entrevistador. Mas houve um tempo em que, nessa área, a imprensa-impressa dava das cartas. E publicava entrevistas de jovens de 23 anos como Maria Ignez Corrêa da Costa Barbosa. Gentíssima, o livro relançado pela Ateliê Editorial, quase quarenta anos depois, é a prova viva de que, tudo bem, o Rio de Janeiro era mais rico em personalidades, mas, também, o jornalismo era melhor porque arriscava mais. Maria Ignez entrevista praticamente o século XX, de Salvador Dalí a Juscelino Kubitschek, de Guimarães Rosa ao Barão de Itararé, de Nara Leão a Henry Moore. Admira que ela ainda esteja viva, para contar a história; e não admira que mereça a orelha dupla de Pedro Corrêa do Lago (seu primo mais novo) e Carlos Eduardo Lins da Silva. Da edição original de 1968, Gentíssima mantém o prefácio de João Cabral de Mello Neto e acrescenta, por exemplo, a entrevista com Érico Veríssimo. Maria Ignez continua escrevendo bem, depois de quase quatro décadas longe do jornal, e aborda a questão-chave, inescapável depois da leitura: se era tão brilhante, tão precoce e tão reconhecida, por que abandonou o ofício de todo? Maria Ignez, no auge da inteligência e dos 20 anos, dedicaria um exemplar a seu futuro marido na noite de autógrafos, e ele, diplomata como o pai dela, afastaria a intrépida entrevistadora do jornalismo e a levaria pelo mundo afora. Tão intrigantes quanto suas bem elaboradas perguntas é a indagação maior sobre o que Maria Ignez poderia ter sido e não foi. Gentíssima, felizmente, ressurge para inspirar toda uma nova geração digital. Que os vinte e poucos anos de Maria Ignez Corrêa da Costa Barbosa contaminem os vinte de bloggers e outros mais.
Gentíssima.



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