'Chute', de Maria Ignez Barbosa, traz poética que se elabora como inspiração para a vida
'Chute', de Maria Ignez Barbosa, traz poética que se elabora como inspiração para a vida
Autora é poeta cerebral pela lógica do viver e do existir
Em "Chute", novo livro de Maria Ignez Barbosa, logo no poema de abertura, a poeta carioca já começa dizendo que é hora "de chutar o bisavô parnasiano". O tal bisavô a que ela se refere, simplesmente, é ninguém menos que o poeta Raimundo Corrêa (1859-1911), aquele que, no passado, compôs a tríada parnasiana brasileira, ao lado de Olavo Bilac e Alberto de Oliveira.
O livro todo é uma sublimação, um chamado à vida. Dividido em cinco partes –"Coronaversos", "Em busca do poema", "Buscando ser", "Entretantos" e "Aos Meus Olhos"—, "Chute" traz uma certa pegada nostálgica e sentimental, estruturado pelos "ribombos e ribombos", ao tempo da pandemia de Covid-19, perpassando, sob a evocação de Maiakosvski, pela lógica do viver e do existir.
Mas é também um livro de poesia cerebral. Ou seja, a poesia em Maria Ignez parece ser algo atado ao prazer de compartilhar sentido duplo à existência –é catarse e ruído. Sua mensagem é plural. Sustentam-na os sentidos e os afetos, mas "com cheiro e gosto", de modo a enredar "as estranhas entranhas" da poeta.
Há também em "Chute" um comunicado por códigos, símbolos e sinestesias –proposições de diálogos. Isso se dá quando lemos poemas como "Mão Boba", que nos permite, por meio de sugestões, "transver o mundo" ou no "Palavras à Deriva", onde "a flor de sal que não adoça/ mas que torna interessante o chocolate".
Maria Ignez Barbosa se alimenta do sentido dado às suas próprias palavras escritas, que são chaves de abrir horizontes. É pomba alada que voa – e jamais volta. E, certamente, pelo tempo que ficou confinada durante a pandemia – quando começou a "rabiscar" este livro, agora publicado pela editora 7Letras -, ela tenha se esmerado a ouvir "os objetos que de seu silêncio saíram/ pois tinham coisas a dizer", ao mesmo tempo que aprendeu a brocar, como seres fitófagos, a "poesia do breve instante", como esta obra sinaliza.
Cada parte de "Chute" pode ser vista como uma maneira de expulsar de si "tantas vozes numa só". É a forma encontrada por ela, uma poeta com vasta visão de mundo, como esposa de embaixador, com experiências e intimidades com a poesia e a palavra, com a arte e o que borda e transborda, do corpo e do olhar.
Por exemplo, no poema "Ainda uma Infanta", dedicado ao pai, o acadêmico Sérgio Corrêa da Costa e pertencente à terceira parte do seu livro –"Buscando Ser"—, Maria Ignez aprofunda sua busca interior, o olhar para dentro, para sua infância, e se acaricia, não dando conta de imaginar "o que entre si conversavam os passarinhos".
Valores pessoais, e outras iluminuras, podem ser medidos como a calibração de "Chute" nessa imersão entrópica entre texturas e fissuras. A poeta aqui se mede e, com a máxima verdade, passa a enxergar que é possível se perder "dentro de uma pessoa". Ou dentro dela mesma, tal qual em "Libélula", que ressurge e desaparece, com seu inteiriço dorso negro.
"Encontrei-a morta num canto do chão branco/ perto da porta do banheiro/ tirei foto/ me foi dito ser uma libélula/ gostei de como o nome soava/ pouco depois fui atrás dela/ tinha desaparecido/ não sabia que libélulas ressuscitassem."
Maria Ignez Barbosa é excelente poeta. Suas poesias têm compasso e são parte da própria sutileza que buscam. Pela sua estatura poética, dou o meu "de concordo" a Carlito Azevedo, quando diz que há aqui "uma poeta craque, de chutes certeiros" e cita "Ao Sussurrar das Pequenas Coisas", que penso ser o poema-síntese de todo o livro.
O "Chute" é um livro inteiro, bem inspirado e coeso, que acalenta a alma e nos desafia através do seu sentir, com seus pontos altos que são voos. Ao mesmo tempo é uma viagem através da "vida humana ainda possível". Como poeta, Maria Ignez partilha seu aprendizado e se despudora, "entre um mundo que morre/ e outro/ que demora a nascer."
Para quem nunca teve contato com seu texto poético –ela, uma tarimbada jornalista, autora também de "Gentíssima", coletânea de reportagens e entrevistas, onde ouve Pixinguinha, João Cabral de Melo Neto, Guimarães Rosa, Lygia Clark e Salvador Dalí, entre outros -, vai se surpreender com o seu jeito de se emaranhar e desmaranhar em meio à poesia. Uma poesia que é busca, que é fonte, apego, que é inspiração para toda uma vida.
Fonte: Matéria na Folha de S. Paulo


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