VERDE QUE TE QUERO VERDE (12 de dezembro de 2012)

Capa Anuário 2012

Patrick Blanc

Fachada da Caixa Forum, em Madri
Foto da fachada recentemente implantada em um Centro de Cultura e Pesquisa, no Bahrain

Desenho da fachada recentemente implantada
em um Centro de Cultura e Pesquisa, no Bahrain


Patrick Blanc estava de verde dos pés à cabeça. No cabelo uma tintura clorofila não toxica, daquelas usadas para manter as células vivas em experiências químicas. A camisa tinha estampa com motivo de floresta. Musgo escuro era a cor do couro do sapato e do nylon do abrigo. Já o cinto e o anel tinham tom de periquito. Em clima bem verde que te quero verde, esse botânico francês de 58 anos, formado na Academia Francesa de Ciências de Paris, conhecido como o inventor do jardim vertical, hoje verdadeira mania na arquitetura interior e exterior, conversou em São Paulo com exclusividade para a revista Bamboo.
Antes de mais nada, Patrick Blanc é um obcecado por plantas, por sua organicidade, por descobrir como se esgueiram umas entre as outras em busca da luz e da sobrevivência. Menino de doze anos brincando com seu aquário, atinou que as raízes das plantas absorviam as impurezas da agua, serviam de filtro, faziam bem aos peixes. E logo aprendeu que não necessitavam primordialmente da terra e que podiam sobreviver sob outros ângulos e superfícies, desde que alimentadas. Dentro ou fora de casa, inverno ou verão, sob chuva ou sob sol. Tudo de modo muito simples, o segredo estando apenas na adequada conjugação das plantas que, postas lado a lado, possam falar a mesma língua e bem coabitar.
O autor dos já famosos murais gigantescos ou colunas verdes, verdadeiras pinturas ou esculturas vivas como a parede de plantas do Musée du Quai Branly, da Fondation Cartier e do Palais de la Découverte em Paris, aquelas da Caixa Forum e da Torre de Cristal em Madri e de centenas de trabalhos desde a Austrália aos Estados Unidos passando pelo Oriente Médio e pela Ásia, não cessa de se deslocar mundo a fora. Fora os projetos de própria autoria, seguidamente é instado a trabalhar em parceria com famosos arquitetos como o francês Jean Nouvel, os suíços Herzog&Demeuron e a japonesa Kazuyo Sejima. Em Miami, está em fase final de construção o Museu de Arte Moderna da dupla suíça onde as oitenta colunas de sustentação do imóvel estão ganhando revestimento com a assinatura verde de Patrick. E no Bahrain, a convite da Ministra de Estado da Cultura, foi levado a passear pelo país para que escolhesse, ele mesmo, o melhor local para uma obra monumental que pudesse contribuir para amenizar o clima de deserto local.
Esclarece que suas paredes verticais que muitas vezes migram da área externa para a interna, tem ainda excelente efeito acústico e térmico. No inverno ajudam a aquecer e, no verão, a atenuar o calor. É contra, no entanto, ao seu uso exagerado: “Acho que devem servir apenas de chamamento, para fazer com que pensemos na necessidade de bem nos relacionarmos com a arquitetura. Não deve cobri-la, escondê-la mas sim somar-se a ela. A seu ver um jardim em parede interna é mais fácil de fazer “pois é possível manter uma mesma temperatura o ano inteiro. Já o externo exige que as plantas se ajustem aos diferentes climas.” Também é capaz de fazer murais com ervas aromáticas como aquele com 60 espécies diferentes que fez para uma amiga na Bretanha. E não raro faz também trabalhos em subsolos como estacionamentos: “Ai o problema é saber usar bem o recurso da iluminação.”
Em sua própria casa em Ivry sur Seine, bairro parisiense, o botânico não tem jardim, mas um grande aquário e um pátio interno onde há peixes e paredes cobertas de plantas. Uma delas avança para dentro de casa e decora o interior da sala ao lado da estante embutida cheia de livros e onde guarda também os que publicou sobre a sobrevivência das diferentes espécies vegetais. Faço a pergunta que qualquer teria na cabeça: -E a humidade? “Nenhuma”, é a resposta de Patrick que se levanta e aproxima-se de uma parede para explicar como, sem mistério ou complicação, entre as plantas e o concreto, com a ajuda de um quadro metálico, cria-se um colchão de ar que impede a infiltração.
Ao Brasil, Patrick Blanc já veio inúmeras vezes. Em 2004 participou com um grande corredor verde e curvo em exposição na FAAP organizada por Dominique Besse. Em outras viagens se dedicou às nossas variadas floras e matas e a cada ocasião faz curiosas descobertas como a que fez quando de sua última passagem por São Paulo, em novembro passado, de uma “espécie de iris” bem no meio da cidade. Não perde também a oportunidade de jantar ao lado da gigantesca Figueira no restaurante de mesmo nome nos jardins. –“Esta árvore é uma prova da força da natureza no Brasil”
No Japão, em suas florestas rochosas também muito aprendeu sobre espécies raras e os porquês de sua sobrevivência em solos aparentemente inóspitos. Só depois disso entendeu a razão do amor do japonês pelo Bonsai. Em Papua, na Nova Guiné encantou-se com os jardins suspensos que separam casas populares: “No encontro de estacas divisórias de madeira formando um X, os locais conseguem fazer brotar lindas plantas. É fascinante.”
Não espanta que Patrick Blanc seja considerado e tratado cada vez mais como um artista plástico. Em recente exposição de arte contemporânea em museu no Japão expôs ao lado do land-artist Jim Turell e do escultor Anish Kapoor, entre muitos outros nomes consagrados.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

UM ESTILO PAULISTANO — SIM OU NÃO (10 de junho de 2012)

"MAXIMALISM": A SOFISTICAÇÃO SELVAGEM DE SIG BERGAMIN (20/11/2018)

MAISON DE UMA ÉPOCA DE OURO (12 de dezembro de 2010)