VALOR AO QUE É DA TERRA (29 de abril de 2007)

A sofisticação do desenho da cestaria
indígena ganhou escala industrial
nas criações da Arte Nativa Aplicada
Caderno com capa forrada em tecido
Azurini, da designer Raffaella Perucchi


Maria Henriqueta Gomes
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Maria Henriqueta Gomes, da ANA, teve história pioneira na produção do design moderno e 100% brasileiro.

Por obra e graça de uma sofisticada gaúcha radicada em São Paulo, Maria Henriqueta Marsiaj Gomes, foi que surgiu em 1976 no universo decô no Brasil, a primeira empresa preocupada em produzir um design industrial moderno e com traçado realmente brasileiro. Buscando inspiração nos desenhos corporais e nas estampas da cestaria, da cerâmica e da tecelagem feitas pelos índios das diversas tribos brasileiras, a Arte Nativa Aplicada ou ANA, conseguiu, muito rapidamente, com enorme sucesso e em linguagem contemporânea criar um produto que nos identificasse, onde podíamos nos reconhecer e ser também reconhecidos.
Era um tempo de início de abertura política, de valorização da nossa Amazônia, de nacionalismo na política e importar não era fácil. Em São Paulo, na loja O Bode da inglesa Maureen e do francês Jaques Bisilliat, o artesanato brasileiro que garimpavam com olho clínico Brasil a fora era tratado e vendido em ambiente cenográfico e como preciosidade. Era um olhar estrangeiro nos devolvendo de forma sofisticada o que é nosso, feito arte. Pode-se até dizer que foi a partir de então que começaram a surgir nos grandes centros urbanos do Brasil mais lojas vendendo artesanato brasileiro ou seja, começávamos, sob um novo olhar, a valorizar o que é nosso.
Maria Henriqueta vivia então entre São Paulo e Brasília onde seu marido era o Ministro de Estado Severo Fagundes Gomes. Havia trabalhado durante quatro anos na Tecelagem da família do marido, a Parayba, fazendo seleção de padronagens. Ali já procurava associar o bom design `a industria e definir com sensibilidade o que viria a agradar ao grande publico. Foi quando começou a pensar e a descobrir que um desenho industrial de raízes locais poderia fazer frente a tendência de padronização da industria mundial. Foi também quando pode concluir que o vermelho, mais que outras, é cor que vende e faz sucesso. Viajada, experiente e antenada, soube aterrissar com sua ANA na hora e momento certos.
No início foram as cangas de algodão, os lenços de seda pura e os xales de lã.As fibras tinham de ser puras e as cores terrosas como as dos pigmentos naturais. A seguir vieram os tecidos para decoração e mais tarde os acessórios para a casa e o corpo como almofadas, jogos americanos, toalhas de mesa, praia e camisetas.
Tendo morado em Brasília nessa época e dona então, com duas sócias, de uma loja de decoração, a Múltipla Ambientação de Móveis Ltda, que representava na capital os tecidos de Maria Henriqueta, posso ser testemunha do sucesso que fazia com nossos clientes locais e estrangeiros qualquer produto da ANA. Passaram a ser a lembrança ideal quando se queria algo brasileiro e sofisticado para levar para amigos no exterior. Consta da biografia da empresa que ao Imperador do Japão, Tony Blair, Pina Bauch e a Hillary Clinton, entre outros, foram oferecidas criações da ANA como presente de autoridades brasileiras em viagens oficiais ao exterior
Em maio de 78 a ANA participou da exposição Design no Brasil a convite do Núcleo de Desenho Industrial da CIESP/FIESP em São Paulo e em julho seus produtos foram mostrados na quinzena brasileira promovida pela Neiman Marcus em Dallas, Texas. Além de frequentemente participar de eventos em diferentes estados do Brasil, a Arte Nativa Aplicada, com orgulho de ser nacional, fez circular com sucesso os traçados batizados de Kadiweu, Waura, Xingu e Ipurina por Portugal, Dinamarca, Nova Iorque, Chicago, Milão e outras paragens. Em 86 e 89 ganhou menções honrosas em premio instituído pelo Museu da Casa Brasileira ao design nacional.
Com um grupo de desenhistas debruçados na elaboração dos desenhos e dos produtos ANA, Maria Henriqueta trabalhava com a consciência de que num mundo globalizado a valorização do regional pode vir a produzir um estilo internacional. Não era de estranhar, portanto, o sucesso lá fora de suas estampas e produtos. Lembrava, nas palestras que proferia, a bem sucedida chegada dos costureiros japoneses `a França no final dos sessenta e começo dos anos setenta. Designers como Kenzo, Ysey Myiake e outros contribuíam com um estilo próprio e novo mas que surgia das raízes da cultura japonesa. Citava o Japão como um bom exemplo de país que sabe planejar a longo prazo. Dizia também que deveríamos seguir o exemplo da França na década de 80 quando tanto foi valorizada a cultura. Jaques Lang, então Ministro da Cultura, insistia em promover a integração da cultura tradicional ao design moderno e o Presidente François Mitterand, por sua vez, fez um memorável discurso na Sorbonne afirmando que inovar era um dever e a criação um fator de desenvolvimento. Para ele, investir em cultura era investir na economia do pais.
Maria Henriqueta gostava também de citar o sucesso dos produtos que vinham da Índia e de outros paises asiáticos impregnados de marca local e sofisticação. Entendia a globalização como uma oportunidade que tínhamos para nos abrir para o mundo sem no entanto nos perdermos nele. Seria como uma via de mão dupla onde trafegam bens, capitais, tecnologias e recursos humanos. E, justamente por estarmos diante de um tão novo contexto de trocas, ser tão importante para cada pais a valorização do que lhe é próprio e do que lhe preserva a identidade. Sabia e levava em conta na elaboração dos produtos ANA que em nosso pais, para além da cultura indígena, também a cultura européia através dos portugueses, a negra através dos escravos e posteriormente a dos imigrantes fazem parte da formação do colorido e da riqueza de nossa memória cultural.
Para os anos 90, que ela não chegou a viver pois faleceu tragicamente em 1991 num desastre aéreo ao regressar da Bahia para São Paulo, ao lado do marido e do casal Ulisses Guimarães, previa, em contraponto `a massificação das redes de grandes lojas, a volta das butiques e de produtos diferenciados. Já falava no acessório como arte, criação do artista-designer, compondo com os básicos padronizados, tanto para a casa como para o corpo. E para provar que no Brasil se começava então a valorizar o que é nosso, ela dava como exemplo o Carnaval de 1990 onde, menos político, foi escolhido como tema de escola de samba a viagem de Langsdorf ao Brasil junto com nossa fauna, flora e minerais.
Foi logo a seguir que Elisa Gomes, a segunda filha do casal assumiu a empresa que continuaria pesquisando e desenvolvendo produtos como robes, necessaires e outros acessórios de moda e casa ainda por muitos anos. Um ponto de vendas na ECO 92 no Rio de Janeiro foi sucesso absoluto. Em hotéis, restaurantes, cenários teatrais e de shows era comum encontrar os tecidos da ANA em cortinas, estofados e paredes. Mesmo que sob outras matrizes e em outras lojas como a linda Jacaré do Brasil, o que é nosso esta ai, por aí, apesar de ainda pouco presente no mundo globalizado como teria desejado Maria Henriqueta. E a quem ainda tem criações originais da ANA aconselho guarda-las com muito carinho e cuidado pois já virou “vintage” e peça de coleção.

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