UM TALENTO POR ACASO (04 de junho de 2006)


Quarto que Rose dizia ser de sua mãe,
domínio de tons próximos das orquídeas
Rose Cummings

Cortinas de lamê prateado, papel de parede
metalizado e móveis dispostos como numcenário
Ambiente decorado por Rose. Que não se atrelava a regras, quando desenhava cortinas ou distribuía o mobiliário

          


Rose Cummings não pensava em ser decoradora mas marcou época nos EUA com o estilo eclético.

Excentrica e original até o final de uma longa vida, Rose Cummings, nascida num rancho na Australia em 1887, aportaria em Nova Yorque no começo do século seguinte atrás de uma carreira profissional. Ao amigo Frank Crownishield, editor da revista Vanity Fair, que lhe sugeriu virar decoradora, respondeu. –Talvez seja uma boa idéia mas me diga primeiro do que se trata.
Rapido entendeu e em pouco tempo estaria chamando a atenção por seu estilo eclético, cheio de personalidade e algo surrealista. Abriu uma loja de decoração e antiguidades em Manhattan onde imperou por quase meio século e onde foi redescoberta em 1962, já velhinha e perdida em meio a bric a bracs, pelo então decorador principiante, o jovem Mark Hampton que assim a descreveu: -“Percebí através da vitrine uma figura solitária com uma cabeleira azul elétrico tal qual um nimbus circundando a cabeça. Bati a porta com cautela e em seguida me vi iniciando uma longa conversa e uma ainda mais longa amizade com Rose Cummings, uma das pessoas mais fascinantes que conhecí em minha vida.”
Rose gostava de tudo desde o gótico, o veneziano, o barroco austriaco até o mobiliario oriental antigo. Tinha mania de pisos de madeira escuros e bem polidos e também de paredes recém e bem laqueadas. Assim, apesar dos moveis, objetos antigos e estofados elaborados, o look geral não pareceria decadente. Gostava e abusava de espelhos que podiam cobrir até paredes circundando escadas multiplicando imagens e confundindo o olhar. Franjas, passamanarias, drapeados, tecidos fluidos como a gaze, o cetim e chintzes cujas estampas ela mesma criava, eram elementos que manejava com desenvoltura e resultados audaciosos. Quase imprescindivel em seus salões eram os lustres com cristais reluzentes e coloridos. Tinha um fraco por gaiolas orientais, e colecionava sapos, ratos, macacos, cachorros, cavalos, gatos, frutas e vegetais, ornamentais evidentemente. Quando usasse tapetes seriam os mais finos possivel. A proveniência de tudo o que usava ou vendia era para ela importante por agregar pedigree ao ambiente e mais valor ao que vendia em seu antiquario.
“Uma não conformista”, assim a define Ronal Grimaldi, Presidente da Rose Cummings Inc. Tendo com ela trabalhado lado a lado durante longos anos, Grimaldi, conhecido decorador em NY, é o guardião de seu legado e quem ainda vende os famosos chintz estampados e coloridos criados pela decoradora. Nada convencional era a sua maneira de arrumar um ambiente. Rose punha todos os moveis no meio da sala e depois os ia empurrando para a frente e para traz até encontrar o lugar certo, onde aquela peça estaria adequada e devesse ficar para sempre. Para Grimaldi, nesses momentos ela mais parecia um grande chefe de cozinha combinando os ingredientes.
Sua extrema sensibilidade para cores ficou conhecida. Podia misturar um “chartreuse” com azul persa, cinza prateado com roxo, mauve e todos os tons das orquídeas.
Em sua propria casa, uma town house em NY, no salão principal Rose colocou nas paredes um papel de parede chines do seculo XVIII com fundo prateado brilhoso e pintado a mão, Os moveis eram Luis XV. Implicava com as lampadas convenciais e ao invés delas usava apenas velas pretas. – Não entendo a eletricidade”, costumava dizer. A sala do fundo, em sua própria casa, pintou de um verde escuro, entre esmeralda e grama molhada. Alí um sofa azul pavão e de cetim, mais um conjunto de cadeiras laqueadas de vermelho e tapetes chineses em azul e amarelo pareciam conviver em perfeita harmonia. Se alguém se impressionasse ela diria: - Papagaios podem ser ao mesmo tempo azuis e verdes. Porque não tecidos e paredes? Segundo Mark Hampton, suas cores nada tinham a ver com as cores ousadas de nossos dias, os shockings, os verdes envenenados ou os amarelos gema. –“Eram as cores das flores das telas de Winterhalter”. (pintor ingles do seculo XIX)
Nos anos 60 Rose, ela propria, viria a se parecer com um personagem desses quadros. Num jantar em casa da decoradora Sister Parish ela adentrou num longo de crepe verde acido, que de tão longo ela mesmo havia enrolado na cintura e amarrado com uma corda de passamanaria dourada. No cabelo enfiou pequenos galhos de folhas plasticas. Segundo os presentes seria dificil descrever a impressão causada por sua chegada em meio as novaiorquinas em seus “little black dresses” (pequenos vestidos pretos). O porteiro do predio teria se alarmado. Mrs Parish, no entanto, conhecia o valor daquela criatura de outro mundo e foi ela, junto com o decorador americano Albert Hadley, ambos recentemente falecidos, os principais responsaveis pelo revival de Rose Cummings.
No ultimos anos de sua vida Rose era seguidamente visitada em casa pelo ainda jovem Mark Hampton que gentilmente ajudava a amiga a limpar o pó dos belos moveis e objetos de sua casa. Então,com humor e “joie de vivre” degustavam juntos caviar regado a uisque sem gelo.
Em 1929, Miss Cummings (Rose nunca se casou embora tenha sido por toda a vida amante de um grande financista americano) já sentenciava: “ A decoração de interiores é a irmã frívola da arquitetura. Exige primeiramente que sejamos experts em cores, em estilos, periodos e na colocação de moveis. Um decorador tem ainda de ser abençoado com aquele sexto sentido que lhe capacita usar os elementos de um modo que tragam conforto e assim transformem as casas em residencias. Pouco adianta estudo ou treinamento. Ou voce tem ou não tem flair.”
Esse estilo glamuroso e excentrico de Rose Cummings nos remete aos sets de filmagem do tempo de Marlene Dietrich e Norma Shearer, ambas alias, clientes da decoradora. Um look suntuoso, bem sinonimo dos anos vinte, e como sóe acontecer em começos de século, instigante e atras de uma nova linguagem.

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