UM STAR DO DESIGN (28 de janeiro de 2007)

Aplique concha na parede é da
Armazém, dos anos 80, e o pé do abajur
em gesso branco, descoberto em feira de antiguidades

Console de Serge Roche (1937)
prova que o gesso pode ser peça de mobiliário







Luminária folhagem de Serge Roche, em versão para mesa
Moldura de gesso para espelho, também de Serge Roche, desenho estilizado de folhagem , motivos anos 30

Urna luminária francesa,
de 1935 e outra de 1945, com detalhes em
vidro veneziano para passar a luz
Relevo de Arthur Luis Piza é
exemplo do gesso na arte contemporânea

          

O gesso sempre despertou a criatividade dos decoradores, mas é antes de tudo teatral. Hollywood que o diga.

Matéria branca, opaca e fria no toque, o gesso tem uma longa história de vida e de presença na decoração e no design. Estranhamente fascinante, este material de aspecto tão frágil e poroso já era usado no tempos dos egípcios para a decoração de paredes internas e depois, no tempo dos romanos foram cobertos por afrescos belamente pintados e que nos encantam até hoje. Atravessou a Renascença, foi lindamente usado na Inglaterra na segunda metade do século 18 por Robert Adam em molduras georgianas neoclássicas, embonecou palácios e mansões Europa a fora e chegou aos anos trinta tentando vida nova.
Devido a sua fragilidade e ao fato de ser poroso e quebradiço, até então não se ousara utiliza-lo como material independente, como por exemplo na feitura de moveis. No entanto, nestas primeiras décadas do século, vivia-se um clima de experimentação inclusive com tecidos sintéticos, com a baquelite e outras matérias pré-plásticas e com o alumínio sendo usado para fins comerciais. Havia também a idéia, com as técnicas modernas, de dar a materiais tradicionais novos usos e funções. Barato e fácil de trabalhar, o gesso engrenou firme e forte em molduras de espelhos, em apliques de luz para parede e teto, luminárias, pés de consoles, alem de continuar a enfeitar portas e janelas com molduras, frisos e pedimentos trabalhados em relevo.
Muito se deve ao decorador Jean Michel Frank que já no final dos anos 20 começou a utiliza-lo em objetos decorativos como vasos e luminárias que encomendava de amigos artistas como Diego e Alberto Giacometti, Emilio Terry e Serge Roche. Eram tema para bases de lâmpadas e molduras as exóticas folhagens estilizadas do século 18 que voltavam então `a moda. Frank, que conseguia ser minimalista sem abandonar a riqueza das texturas naturais como o pergaminho, o galuchat ou shagreen (pele de tubarão), as placas de gesso e a palha para forrar paredes e revestir moveis dava a seus interiores um toque de sensualidade e de humor com estas pequenas peças meio barrocas, meio surrealistas e que podiam ter forma de conchas, de mãos entrelaçadas, mascaras de arlequim e outras tantas. Chegou a fazer, para cortinas, sanefas de gesso esculpidas como se fossem drapeadas e fez para o Barão Roland de l’Epée um disco branco de gesso para esconder um vão que servia para a projeção de filmes.
Um dos designers que primeiro usou seriamente o gesso na feitura de moveis foi Serge Roche num console que consistia em um tampo em mármore preto da Bélgica apoiado sobre pernas de gesso entrelaçadas com motivo de folhagem. Foi na verdade um dos primeiros designers a se libertar dos ditames do modernismo no começo do século e a descobrir e se deleitar na exuberância do barroco, um movimento que parece ressurgir periodicamente como aconteceu não faz nem tanto tempo, nos anos 80 na Europa, sobretudo na França, com os designers “Barbare” e neo barrocos como Garrouste et Bonetti, Frank Avenu, Eric Schmit, Hubert le Gal e outros cuja produção é hoje vendida em galerias especializadas como a En Attendant les Barbares, a Neotu ou a Avant Scene em Paris, a David Gill em Londres e outras em Nova Yorque.
Na linha do branco, e do imaginário neo-rococó ,não se pode deixar de registrar a influencia de Syrie Maugham, precursora do branco na decoração nos anos vinte, tempos nada minimalistas, e que se divertia, alem de com paredes puramente brancas e do cetim branco forrando os estofados debruados com passamaria, frisos, apliques de parede, molduras e até mesmo murais de gesso como o que colocou em seu próprio salão em Londres, uma natureza morta em relevo do artista Oliver Messel.
Com tudo para ser teatral esse material tão propicio a distorções e, portanto,`a fantasia, não tardou em atravessar o oceano até Hollywood. Ali se vivia uma verdadeira obsessão pelo branco exuberante, simbolizada por Jean Harlow, a famosa atriz que mais parecia feita de neve, mármore e marshmallow. Nada melhor, então do que abusar do gesso branco como pano de fundo para os então estrelados do cinema.
Francis Elkins, a decoradora americana que fazia freqüentes viagens a Europa foi quem levou para os Estados Unidos os moveis e objetos de Jean Michel Frank que usava na maioria de seus muitos projetos. Passou também a usar o gesso na decoração e a produzir nos Estados Unidos os seus próprios desenhos.
Foi no entanto a decoradora e colunista Doroty Draper quem mais conseguiu difundir o gesso de forma exuberante, com seus pedimentos e acabamentos superdimensionados que fazia ressaltar ao contrasta-los com cores muito vivas nas paredes. Impossível não chamar a atenção, o que parece acontecer até hoje pelo numero de reportagens, exposições e livros que vem ultimamente relembrando seus trabalhos.
Depois de um período associado a pernas e braços quebrados, setor onde já nem é mais tão útil, ele parece estar sendo novamente usado com criatividade e formas novas por alguns decoradores como Phillipe Stark, Frederic Mechiche e outros nem tão neo barrocos, até porque o gesso se presta também a formas minimalistas. Já se ensaiou cortinas em tecido branco endurecidas ao serem mergulhadas no gesso e cadeiras onde o assento mais parece um enfaixado de gaze embebido em gesso. Apliques de parede em forma de concha nunca parecem envelhecer. A loja de moveis e decoração Armazém os vendia nos anos oitenta e a antiga e tradicional fabrica de gesso Gaston Martineau em Buenos Aires que detinha os direitos de vários desenhos encomendados por Jean Michel Frank que ali morou durante alguns anos, voltou a receber pedidos desses velhos modelos. É fascinante uma visita a fabrica portenha e descobrir que ainda é possível encomendar as luminárias de pé ou de mesa de Serge Roche em forma de palmeiras, os apliques em forma de mão segurando tochas e outros modelos de Jean Michel Frank e dos irmãos Giacometti e que já viraram ícones. Corre que ali Philip Stark teria encomendado todos os trabalhos de gesso que usou no Hotel Faena em Puerto Madero em Buenos Aires e em outros projetos na Europa.
Lamentei quando soube que foram fechadas as portas de uma pequena fabrica de gesso em Montevidéu onde costumava ir quando morei no Uruguai nos anos 80. Podia ficar horas me deleitando com a infinidade de modelos de apliques de teto e parede, vasos e pequenas esculturas, alem do prazer de conversar com o velho gesseiro, vestido e empoeirado de branco, neto dos antigos donos, e com quem aprendi sobre a técnica antiga do falso mármore, feito de uma mistura de gesso e pó de mármore e portanto muito mais duradouro do que aquele obtido com pintura.
Não é de hoje nem a toa que, assim como a neve que ao cair ganha as formas que a natureza lhe oferece, o gesso, matéria também efêmera mas que ,por sua vez, pode ganhar a forma que lhe impõe a mão e a fantasia do homem, tanto nos instiga e seduz.

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