UM ESCULTOR DE MÓVEIS (08 de janeiro de 2006)

Abajur criado pelos Giacomettis
para Jean-Michel Frank, em 1937
Mesa com folhas pássaro e lagartixa (1937)

Diego Giacometti
Vaso em gesso também dos irmãos para Frank (1933)

Mesa em ferro fundido, modelo Berço de 1970
Detalhe de garra em mesa de ferro fundido

Guéridon árvore com coruja (1955
Detalhe de mesa que são pequenas esculturas

          


Diego Giacometti conseguiu escapar da sombra do irmão e firmou-se como criador original e instintivo.


Há quem confunda Diego Giacometti com seu irmão Alberto, o famoso escultor e não sem alguma razão, até porque dividiram a vida quase inteira o mesmo ateliê e também porque muitos trabalhos fizeram de fato juntos numa simbiose que, no entanto, nunca alienou a autonomia de um ou de outro. Filhos de um pintor pós-impressionista cujos quadros mostravam a familia unida em torno de uma lampada, basta dizer que a primeira escultura de Alberto foi o busto de Diego, o irmão treze meses menor , e também um outro busto dele o primeiro trabalho que o escultor expôs publicamente, em 1925 no Salão das Tuilerias. Apesar de desde cedo ter mostrado ser bom de desenho e jeitoso com as mãos, não passava na cabeça de Diego se comparar ao pai ou ao irmão, Na verdade nunca tentou ser artista e foi sem nunca ter precisado discutir esse posicianamento que Diego acabou, mais tarde, se afirmando como um dos mais originais e instintivos criadores de móveis do século XX. Para o grande público, no entanto, a independência de Diego, o charme especial de seu trabalho e a sua individualidade só passaram a ser reconhecidos depois da morte de Alberto em 1965.
Quando jovem , deixou a cidade natal de Borgonovo situada na Suiça de fala italiana, partiu para outros estudos, inclusive comerciais, e para viagens pelo mundo. Foi a mãe que , preocupada com a boêmia do filho, o orientou a ir de encontro ao irmão Alberto em Paris e desde então passaram a trabalhar lado a lado com a exceção apenas de alguns anos durante a Guerra quando Alberto mudou-se para a Suiça e Diego ficou tomando conta do ateliê da Rua Hyppolyte-Maindron. Unidos desde a infancia por um extremo entendimento e pela polaridade de seus temperamentos complementares, Diego não parecia se incomodar de viver a sombra do irmão mais extrovertido e reconhecido. Este, por sua vez, tinha bem consciente o conceito de não ruptura entre as chamadas artes maiores e as menores, ou seja, as artes plasticas e as decorativas. Tenso durante a criação de suas esculturas, Alberto precisava da ajuda do irmão para a sua execução. Diego apesar do acidente que aleijou uma de suas mãos numa máquina agricola ainda na infancia, era exímio na confecção dos moldes de gesso, na patina das esculturas e na criação dos suportes e bases para o trabalho do irmão .
Parte de um circulo refinado e mundano de amadores das artes que viria a ser o núcleo de sua clientela, os irmãos Giacometti passaram a receber do bem sucedido decorador Jean Michel Frank encomendas de luminarias de teto e parede, vasos e outros elementos decorativos em gesso ou ferro fundido. Deve-se a Diego, inclusive, a existencia ainda desses moldes pois, durante a Guerra , uma vez que eram exclusividade de Frank e por isso considerados um bem judeu, teriam sido confiscados caso Diego nao os tivesse conseguido esconder. Em 1948 o já então famoso pintor Matisse também deles encomendou lampadas para a sua nova galeria em Nova Yorque e outras peças para a Vila em Cap Ferrat no sul da França.
Aos móveis quase que exclusivamente, esses hoje tão famosos e que alcançam preços estratosféricos nos leilões na Europa e nos Estados Unidos, foi por volta de 1950 que Diego passou a se dedicar. Para Marguerite Maegt, a colecionadora e dona da casa que é hoje a famosa Fondation Maeght perto de St Paul de Vance ele criou mesas, cadeiras, corrimãos e até uma escada para a piscina. Segundo o crítico Daniel Marchesseau o talento de Diego residia na correção das proporções: - “Diego ,que não costumava frequentar museus ou galerias encontrava a forma antiga e eterna por instinto e a ela conferia uma nova elegancia. Suas formas não eram reminiscencias do passado como muitos supunham; são criações originais e ao acaso.”
Modelar animais foi uma paixão desde a infancia e, tão mais tarde, em seus móveis passaram a ser quase uma constante e em si só verdadeiras esculturas. Em 1975 , para o colecionador Paul Berrés Diego produziu dois modelos de elefantes. E aos oitenta anos aceitou fazer o trabalho que mais e imediata notoriedade lhe trouxe, todos os móveis e detalhes decorativos do Museu Picasso em Paris, inaugurado em setembro de 1985. Poucos mêses antes, em 15 de julho, animado depois de uma bem sucedida operação de catarata no Hospital Americano em Neully, e preparando-se para o grande dia, uma embolia impediu-o de ver completado este pequeno templo onde sua obra permance, não mais a sombra, mas ao lado de Picasso.

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