UM DESIGNER DA ILUSÃO (02 de outubro de 2005)

Mongiardino em seu apartamento em Milão,
que mais parecia a casa de um cardeal

Sala da casa de Valentino, em que há o domínio das cores claras






Sala da residência do barão de Rothschild:
o ocre serve de pano de fundo
da coleção de cerâmicas do século 16

          

 

  Renzo Mongiardino foi exímio criador de efeitos-estilo que chamava de “arquitetura decorative”.

Embora soe contraditório, pode-se dizer que Renzo Mongiardino foi um dos mais modernos e tecnicamente avançados decoradores do século 20. Nascido em Genova, em 1916, num Palacio barroco, de pai milionario e mãe aristocrata, seu habitat inicial, que viria a formar o seu estilo e gosto, foi esse porto histórico, medieval, renascentista e que viveu uma grande prosperidade no século 19. Para estudar arquitetura, no entanto, optou por Milão, cidade que depois escolheu para morar e desenvolver o seu trabalho até 1998 quando morreu, aos 81 anos tendo ignorado deliberadamente a história estética de seu proprio século que começou com o art nouveau e terminou com o minimalismo.
Considerado o maior ilusionista italiano, o designer dos designers, um eximio criador de efeitos especiais rigorosamente fundamentados em grande conhecimento e estudo, seu trabalho atravessou fronteiras ampliando seus espaços de ação. Seguro de si mesmo, dizia fazer “arquitetura decorativa” e o livro “Roomscape” que escreveu, é um tratado sobre essa sua especialidade.
Mongiardino certamente não era um nome doméstico. Mais do que ambientar uma sala, seu trabalho visava a criação de uma atmosfera criada em cima de imagens de sonho, de uma visao decadentista e na projeção de efeitos ilusórios. A não autenticidade dessas suas criações parecia ser o segredo de seu grande sucesso, e para a obtenção desses efeitos fazia uso das tecnologia mais moderna possivel. Era basicamente um cenarista e são dele os famosos sets dos filmes de Franco Zefirelli como A Megera Domada, e as operas Tosca e Don Pasquale . E seriam justamente esses truques de palco o que ele traria para dentro da casa de um cliente, não importava fosse ele um aristocrata como o Barão Guy de Rothschild ou um mililionario novo rico de Nova Yorque. E os artezãos que recrutava para os trabalhos, pintores, marceneiros, douradores, também seriam aqueles especializados em cenarios de teatro e cinema. Mongiardino costumava dizer que um de seus maiores prazeres era justamente o contato com esses artistas da ilusão.
Um chão de mármore preto e branco podia na verdade não ter sido feito com mármore mas com resina. “Boiseries” podiam ser “pintadas” e papelão prensado e dourado podia forrar paredes como se fosse o autentico couro de Cordoba. Mandava pintar azulejos no Marrocos, tecer na Turquia tapetes com motivos por ele imaginados e fazia envelhecer veludos com desenhos feitos a base de canetinhas pentel. Lareiras , frisos e pedimentos podiam ser de plástico sem que ninguém notasse a diferença. Toda essa ilusão, essa estetica emocional muito propria, era parte do prazer que tinha com o proprio trabalho. E esse uso do “falso”, ao contrario do que poderia parecer, nao faria em nada um projeto mais barato. Um dos mais caros decoradores do século, o barbudo e bem nascido Renzo Mongiardino, que as vezes se mostrava perplexo com a preocupação que tinham alguns de seus admiradores com status e dinheiro, colecionou clientes de peso: Thyssens, Agnellis e Rothschilds. Gianni Versace foi tambem amigo e grande cliente. Para Valentino fez uma casa na Via Appia em Roma onde recriou “chinoiseries italianas” e frisos como os das varandas sicilianas do seculo 18. Na casa de campo perto de Londres, de propriedade de Lee Radswill, irma de Jaqueline Kennedy, Mongiardino forrou as paredes do quarto principal com lenços sicilianos que laqueou e enriqueceu com nova pintura sobre as estampas. Para Edmond Safra em sua legendaria propriedade La Leopolda no sul da França , Renzo Mongiardino, em parceria com Lili , restaurou os salões principais, inclusive a linda Orangerie toda com azulejos pintados de porcelana de Sevres e pratos encaixados nas paredes e um belissimo lustre de cristal branco e azul. Na concepção de Mongiardino a estampa podia ser muito mais útil e de efeito como pano de fundo do que a cor lisa.
Embora buscasse no passado a inspiração e revelasse em seu trabalho, como Madeleine Castaing, uma certa nostalgia proustiana e gostasse de citar Honore de Balzac que dizia que “o sábio sempre volta às origins”, Renzo Mongiardino, com sua imensa criatividade, talento e liberdade no uso da propria fantasia, o que lhe permitia fazer ambientes sempre diferentes uns dos outros, acabou por criar um “presente”muito proprio seu, um décor dramatico tipicamente seculo 20 que já permeou o inconsciente de tantos decoradores contemporaneos.

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