UM DESIGN SEM LIMITES (30 de julho de 2006)
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| Coffee table, de 1944 |
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| Isamu Nogushi, nos anos 60, em meio às suas luminárias Akari, feitas de papel minogami |
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| Jardim com esculturas de pedras no estilo japonês |
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| Ambiente shop and coffee, no Museu Noguchi (foto de 1985) |
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| Free-Form Couch and Ottoman, móveis de Noguchi (1948)para o designer Herman Miller |
Isamu Noguchi dividiu seu trabalho entre a terra em que nasceu, os EUA e a dos antepassados, o Japão.
Se ainda fosse vivo, Isamu Noguchi, seria visto como um artista bem típico de nossos dias, em que as fronteiras entre as displinas culturais não são mais delimitadas e os designers se confundem com artistas, artezãos, tecnicos e vice versa.Pois foi assim, dessa forma um tanto radical para os padrões dos anos trinta, que viveu e produziu este artista nipo-americano (1904-1988) transpondo os limites da sua principal ou primeira expressão artistica, no caso a escultura, para atuar com sensibilidade na criação de luminárias, móveis, ceramicas, jardins e cenários de teatro.
A propria história do artista poderia explicar essa transiência. Filho de um poeta japones que foi para os Estados Unidos no inicio dos anos 1900, quando era moda os intelectuais japoneses alí morarem e de uma tradutora californiana descoberta através de um anuncio de jornal, Isamu Noguchi, cedo se viu confrontado com culturas diversas e desavenças entre os pais.
Nascido em Los Angeles, alí viveu com a mãe durante dois anos até que esta resolveu levá-lo para viverem com o pai no Japão. Antes um apaixonado pelo ocidente, Yone Noguchi passara a detestá-lo e não foi com simpatia que aguardou a chegada da namorada americana Leonnie Gilmour e do filho ilegitimo. Rapido o casal se separou e o pequeno Noguchi foi com a mãe viver em Omori, uma cidade de praia fora de Tóquio. Aos 14 anos foi mandado para uma escola em Indiana, nos Estados Unidos, onde graduou-se como Sam Gilmour e foi aceito na Universidade de Columbia para estudar medicina. Alí, logo percebeu que seu caminho seria outro, a escultura e auto nomeou-se Isamu Noguchi. Ganhou uma bolsa de estudos do Gughenheim para estudar em Paris e alí teve a oportunidade de se tornar, durante seis mêses, assistente do famoso escultor Constantin Brancusi. Foi quando se voltou para o modernismo, inspirado na obceção pela forma reduzida, o lirismo e a aura de mistério do artista mais velho.
Depois de retornar por pouco tempo a Nova Yorque em 1929, de novas viagens a Paris e a Pequim, voltou a Tóquio na esperança de reencontrar um pai mais acolhedor. Yone Noguchi, apesar de acirradamente nacionalista, pouco cortês e ainda ambivalente em relação ao filho meio americano, apresentou-o a escritores e artistas locais. Em Kioto, Isamu Noguchi encantou-se com a simplicidade dos antigos jardins de pedra budistas que passariam a ser a fonte de inspiração para os hoje famosos jardins de sua casa em Nova Yorque transformada em Museu Noguchi e outros muitos que criou ao longo da vida.
Apesar de suas frequentes viagens e temporadas no Japão, de se ter casado com uma japonesa, a artista de cinema Yamaguchi Yoshiko, Noguchi nunca se iludiu quanto ao fato de que jamais alí seria aceito como japones. Esse fato de “não pertencer” de forma clara e a nacionalidade dividida acabaram, no entanto, lhe sendo úteis. De volta a Nova Yorque ,em 1930, descobriu que fazia sucesso na sociedade com seu charme, cultura e exótismo nipo-americano. Sua esculturas eram encomendadas por ricos colecionadores e foi nesta altura que começou a desenhar os cenarios dos balés de Marta Graham, numa longa colaboração de trinta anos.
O ataque americano a Pearl Harbour, quandos os americanos entraram na II Guerra, e passaram a perseguir os americanos de origem japonesa nos Estados Unidos colocando-os em campos de concentração, teve um efeito dramatico sobre Noguchi. Tornou-se ativista, fez campanha em defesa de seus pares e iniciou uma mobilização de escritores e artistas nissei pela democracia, um grupo dedicado a conscientizar a sociedade do patriotismo dos japoneses-americanos. Pediu para ser posto num campo no Arizona onde viveu durante sete meses. Depois do fim da guerra, contribuiu para a reconstrução da industria japonesa aceitando um convite da cidade de Gifu para renovar sua produção de lanternas de papel, até então não eletrificadas. Foi quando, a partir de 1950, Isamu Noguchi e a mulher Yamaguchi moraram numa típica e tradicional casa de madeira japonesa e o escultor começou a desenvolver as até hoje tão famosas luminarias Akari, ainda alí produzidas a mão. Feitas de um papel chamado minogami proveniente da cerejeira, são verdadeiras esculturas que se dobram sobre si mesmas.
Ao longo dos anos 50 e 60 continuou a desenhar as Akari. Foi também nesse periodo que criou os hoje tão populares moveis organicos com madeira esculpida para empresas como a Knoll e a Herman Miller. Em 1968 o Whitney Museum de Nova Yorque fez uma exposição retrospectiva de sua obra e, nesse mesmo ano, foi publicada uma sua autobiografia, “O mundo de um escultor”.
Nunca deixou de ter tempo para o paisagismo. Depois de fazer um jardim em memoria de seu pai na Universidade de Keiõ em 1950, foi convidado pelo arquiteto Kenzo Tange para desenhar um memorial que infelizmente nunca foi construido, em homenagem as vitimas da bomba em Hiroshima. Em Nova Yorque criou na Lever House um jardim inspirado nos antigos budistas de pedra e em seguida outros na Unesco em Paris, no campus universitario de Yale e no Museu de Israel em Jerusalém. E com o famoso arquiteto Louis Kahn durante seis anos trabalhou no projeto de um grande parque de diversões
Para si mesmo, em Nova Yorque desenhou o jardim que circunda a casa e o estudio instalados num terreno industrial em desuso na cidade de Long Island em Queens e que em 1985 foi aberto ao publico como Jardim Museu Isamu Noguchi. Segundo ele mesmo, “A arte da pedra num jardim japones vai depender de como ela é colocada. Não deve diferir da natureza…Mas sou também um escultor ocidental. Ponho a minha marca e não me escondo”
Essa fusão de heranças culturais que influenciava o seu trabalho sutil e ousado, moderno e tradicional ao mesmo tempo e também a sua maneira de ser não eram uma questão, como disse o escritor Ian Buruma, de apenas similiridade com estilos conhecidos. Estava no espírito de seu proprio trabalho, artezanal e utilitário, mas sempre em busca da simplicidade”.
Dois anos antes de morrer, em 1986, representou os Estados Unidos na Bienal de Veneza. Recebeu medalhas, premios importantes e, no ano de sua morte, a condecoração japonesa da Ordem do Sagrado Tesouro. Tratava-se, finalmente, de um reconhecimento por parte do Japão de que Isamu Noguchi muito fez pela boa imagem da terra de seus antecessores e pelas boas relações entre os dois paises.





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