SONHO EM PLENA GUERRA (18 de setembro de 2005)
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| Cafeteria do Museu Metropolitan, em NY, criação de Dorothy e que data de 1954 |
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| Corredor do Quitandinha, com piso xadrex preto e branco |
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| Biombo chamado de Fazenda Lilly, em um dos salões do hotel-cassino |
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| Dorothy Draper |
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| Enorme gaiola, que ocupa um salão, abrigava aves tropicais |
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| Piso da galeria é típico do gosto de Dorothy |
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| Fachada em estilo bávaro do Quitandinha |
O Quitandinha, famoso nos anos 40 em Petrópolis, deve seu esplendor a decoradora Dorothy Draper.
Numa manhã de janeiro, nos idos de 42, em plena guerra e em meio à grave crise econômica nos Estados Unidos, quando a frivolidade estava “out”, a austeridade era um sim e a decoradora Dorothy Draper não sabia por quando tempo ainda seria capaz de manter seu escritorio na Rua 57, a visita inesperada de uma brasileira viria a cair como milagre . Enviada por Joaquim Rolla, dono do casino da Urca , Elena Cavalcanti, uma carioca viajada e bem vestida tirou da pasta o projeto do maior hotel-cassino a ser construido na America do Sul, mais precisamente em Petropolis que, com suas torres , torretes e incriveis ares bávaros, rivalizaria com Monte Carlo e faria migrar para nossas bandas o turismo internacional endinheirado. Rolla, gaucho, fazendeiro e amigo de Getulio Vargas, então Presidente da Republica, havia estado em Hollywood para “aprender sobre o esplendor” e parecia ter certeza de que Draper era a pessoa ideal para a realização deste grande sonho seu . Para isso ofereceu-lhe $30.500,00 dollares, uma soma extraordinaria para a época.Nascida no meio do que se poderia chamar de aristocracia americana, em Tuxedo Park, um enclave de ricos e bem nascidos fundado por seu avô, a talentosa Dorothy Draper, educada nos melhores colégios e com boa dose de auto estima, não custara a se afirmar como profissional da decoração e a se tornar uma celebridade no sentido moderno da palavra, ou seja criando a imagem do decorador na mente popular . Embora influenciada pelos ares surrealistas e neo-barrocos que eram a tendência na Europa, seu estilo não poderia ser mais americano, hollywoodiano e cenografico. Nao lhe foi dificil seduzir a midia local que fez dela capa de Time&Life e deu-lhe o espaço, durante muitos anos, de uma coluna chamada “Ask Dorothy Draper” na revista Good Housekeeping”de onde orientava as mulheres americanas sobre decoração. Também um livro por ela escrito foi publicado em 1939, chamado “Decorating is Fun”. As portas de vidro para chuveiros, tão usadas até hoje são uma ideia dela ainda dos anos 20.
Numa longa vida profissional, entre o pré e o pós guerra , Dorothy desenhou interior de carro para a Packard, de trem para a C&O Rail Road e do jato Convair 880. Idealizou a Westinghouse Dream Home e desenhou tecidos para a Schumaker. Fez estampas para louças , embalagens de colonia para a Coty e até cartão de natal. Super avançada para a época ,foi a primeira decoradora a licenciar o seu nome para produtos de casa. Depois dela os lobbys de hotel, como o do Carlyle em Nova Yorque passaram a ter um aspecto mais alegre, iluminado e gracioso. Fez também o Arrowhead Springs na California, o Plaza em Nova Yorque, o Greenbier em West Virginia , o Fairmont em São Francisco e a famosa Cafeteria para o Museu Metropolitan em Nova Yorque, onde pintou as paredes cor de berinjela e que só recentemente sofreu alterações. Sem cerimonias, podia cortar pés de mesa para que se tornassem de frente de sofa e não raro pintava de azul os tetos das salas para trazer para dentro um ar fresco de lado de fora.
No seu dia a dia preferia projetos comerciais a residenciais. Nao tinha paciência para dondoquice. –“Ou um cliente ouve as minhas ideias e tem um ataque de apoplexia ou me dá carta branca”dizia ela. Segura de si também proclamava : “Se me parece certo é porque esta certo.”
Quando a decoração do Quitandinha, com seus 500 quartos, pista de patinação no gelo e salões com quase a dimensão de campos de futebol caiu nos braços de Dorothy, Joaquim Rolla já havia contratado 52 arquitetos e de cada um aproveitado o que mais lhe agradara num projeto que, estimado em 10 milhoes de dolares, acabou na verdade custando 15. Ao analisar esses planos a equipe de Dorothy teria ficado horrorizada, entre outras coisas, pelo fato de se estar usando vigas de concreto pintadas de marron na tentativa de imitar madeira , e pela ideia de algo tão tirolês num pais afinal tão tropical. Ela, no entanto, encantada com a possibilidade de um contrato milionário, o maior até então fechado por um americano com uma empresa da America do Sul, obrigou-os a esquecer o lado de fora, a piscina em forma de mapa do Brasil, a das crianças em formato de cara de cavalo e a se concentrar nos espaços interiores. O salão de jogos do Cassino que teria uma cúpula maior que a da Basilica de Sao Pedro em Roma, Dorothy resolveu que seria azul e estrelado de dourado (na verdade ela era contra o jogo). E sonhando tropical, idealizou uma gigantesca gaiola cheia de pássaros que veio a ocupar todo um salão. Na sala de leitura o carpete era rosa e as paredes verdes. Em outra as paredes ganharam tres tons também de rosa, uma de suas cores preferidas. Em muitos dos quartos as paredes eram amarelas e o carpete verde. Na boate cabia 400 pessoas e as paredes tinham fundo verde com “trompe l,oeil” de flores e folhagens baseados na vegetação local. A ordem de Rolla era que tudo fosse fabricado no Brasil; os móveis e sofas por ela imaginados, os tecidos com as estampas de flores e folhas de bananeiras por ela idealizados e os tapetes com seus desenhos. No contrato, exigia a presença constante ou dela ou a de um assistente. E assim aconteceu. Não sem muitos dramas, num periodo entre 42 e 44 quando o Brasil se decidia a participar da Guerra junto aos Aliados, época de demonstrações politicas e de muita dificuldade de transporte e de comunicação. Antes de sua primeira visita em julho de 42, quando Dorothy veio pelo primeira vez e se encantou com Petropolis , com sua historia imperial, e maravilhou-se com o que ela dizia ser o esplendor tropical e o barroco brasileiro, Ted Muller, seu assessor teve de, a contragosto, posto que recém casado, passar uns meses no Brasil e ainda por cima ser impedido de regressar enquanto os trabalhos não estivessem mais avançados ou fosse substituido. Para terminar o projeto que levou bem mais tempo do que o previsto, a decoradora teve de despachar outro assistente, John Wisner que se encantou com o Brasil e conseguiu estabelecer um melhor relacionamento com Rolla. Em 1944 o Quitandinha era finalmente inaugurado em grande estilo, com fantastica Imprensa internacional e atraindo para o jogo os milionários desalojados de Monte Carlo por causa da Guerra na Europa e também a realeza desocupada como o exilado Rei Carol da Romania e sua namorada Madame Lupescieu que pareciam ter ali sentado praça. Reuniões politicas organizadas pelo governo e pelo Itamaraty também trouxeram personalidades como Eva Peron. O que de melhor e mais luxuoso poderiamos oferecer ao mundo ? Lamentavelmente esse sucesso imediato e retumbante teria vida curta, sendo drasticamente interrompido dai a alguns anos pela entrada em vigor da lei do Governo Dutra que proibia o jogo no Brasil.
Apesar de hoje transformado num centro de convenções e condomínio de apartamentos, do ar decadente e tendo perdido o “glamour” da época , ainda se pode encontrar os traços fortes de Dorothy no que restou desse mega Hotel-Cassino: a escala superdimensionada, o contraste entre o preto e o branco nos metros e metros quadrados de chão de mármore, nos móveis que insistia em pintar de branco, nos enormes sofás com recortes barrocos que ainda ali estão, nas urnas que serviam para iluminar os salões e os gigantescos pedimentos de gesso. A enorme gaiola que toma conta de toda uma sala, infelizmente vazia, alí continua.Também o famoso estampado de rosas repolhudas que virou uma marca sua registrada ainda reveste uma das salas e, embora meio perdido e desambientado, o biombo com fundo preto e desenhos coloridos chamado “Fazenda Lilly”que compunha um ambiente tão fotografado pelas revistas de decoração americanas também sobrevive.
Uma visita ao Quitandinha vale, sem dúvida, a viagem. Ponha na mala uma certa dose de imaginação , vá até Petropolis, atravesse as portas desse templo meio deco tardio, barroco e surrealista, feche bem os olhos e sonhe com Ginger Rogers e Fred Astaire deslizando pelos seus salões.







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