SEM LIMITE PARA O LUXO (11 de março de 2007)

Maria Antonieta, um retrato
de Mme. Vigier Lebrun

Petit Trianon, visto a partir dos jardins




O quarto da rainha no Petit Trianon

Gabinete do Trianon,
projeto de Ange-Jacques Gabriel



Vista parcial do bucólico Hameau,
a fazendinha da rainha, que tinha
moinho, estábulo e tudo o que se
podia imaginar para a fazenda ideal

Cômoda cofre em madeira
e bronze, de Georges Jacob

          


Para fugir da monotonia, Maria Antonieta incentivou com gastos fabulosos o trabalho de artesãos.

Tendo sido despachada ainda muito criança da corte austríaca para se casar em Versailles, aos quinze anos, com o delfim de França e futuro Luis XVI, pode ter faltado a Maria Antonieta uma educação que lhe doutasse de mais disciplina e noção de realidade.
A futura Rainha da França, a quem mais tarde, em 1793 caberia a tragédia de morrer na guilhotina, nasceu em Viena em 1755, filha da Imperatriz Maria Teresa de Habsburgo. Na familiar corte austríaca, em Schonbrunn, a vida era confortável e alegre. Ali ela dançava, ouvia musica e atuava em pequenas peças teatrais com o irmão e as irmãs. Conheceu Mozart que viu escorregar e cair no chão encerado do Palácio e se deleitava, garota, comendo guloseimas.
Recém chegada a corte de Luis XV, teve a sorte de encantar o sogro que lhe encheu de jóias. Menos entusiasmado parecia o futuro marido, o neto e herdeiro do trono, que, com dezesseis anos só pensava em caçar. Consta que no dia do casamento foi o que fez e que, nesse dia em seu diário, apenas escreveu “Nada.” Viriam a ser mais bons amigos do que marido e mulher e, talvez por culpa ou inconsciência, nada ele lhe negaria. Pois foi recusando a se submeter a qualquer forma de condicionamento, ritual ou etiqueta, que Maria Antonieta se iniciou na vida pública. Era comum, em seus primeiros tempos em Versailles, encontrá-la na ala dos empregados brincando com seus filhos.
Pode-se imaginar o desconforto dessa rainha adolescente, ao se ver recostada numa cama super-dimensionada, folheada a ouro, aspecto de trono, munida de dossel e cortinados drapejados. Pois foi neste leito tão emblemático do poder, que Maria Antonieta deu a luz aos quatro filhos e tinha de receber a corte e visitantes oficias.
Não foi de surpreender portanto que, decidida a fugir da monotonia e da falta de privacidade, Maria Antonieta, conseguiu, por quase duas décadas, se distrair construindo refúgios, encomendando moveis, criando jardins, e se cercando do que de mais belo e luxuoso poderia ser pensado naqueles tempos de inconsciência e frivolidades.
Primeiro re-decorou e ocupou os “petits appartements” no próprio Palácio.Em quatro pequenos aposentos concebidos pelo arquiteto Mique, podia circular e escapar dos constantes olhares dos empregados e espiões da corte. Pelas duas bibliotecas, uma verde maça e a outra azul, era fácil passar despercebida pelas portas escondidas atrás de falsos livros. No Salon Doré podia ouvir musica com amigos e no enorme banheiro com paredes com relevos de conchas, tridentes,lagostas e cascatas, tinha sua cama de massagem. Até hoje, estas peças, ainda influenciadas pelo estilo Luis XV são admiradas por suas proporções e pelo exímio trabalho dos artesãos envolvidos. Em 1782, logo apos o nascimento do esperado herdeiro, ganhou do marido a Meridienne, um quarto para descansar. Chamou novamente Mique e as paredes ganharam painéis de madeira pintados de branco com frisos, laços, águias austríacas,delfins e símbolos do amor folheados a ouro, num estilo mais rococó. A cama seria de alcova com paredes em espelho. O tecido em seda texturizada exigiu uma fiação longa e complexa, assim como as franjas e as passamanarias também em seda.
Antes de completada a Meridienne, Maria Antonieta já ganhava o seu maior presente, o Petit Trianon, projetado por Ange-Jaques Gabriel como refúgio para Luis XV e suas amantes como Mme de Pompadour e Mme du Barry e considerado pelo Conde de Fels como a obra prima da arquitetura no século XVIII. Ali Maria Antonieta começou passando as tardes mas, em seguida ao nascimento da primeira filha, Madame Royal, teve a desculpa de uma epidemia de sarampo para também passar as noites. Seu fiel Mique seria chamado para comandar alterações. Fez lindas “boiseries” brancas e azuis e encomendou dos irmãos Rousseau pinturas para paredes desenhos pompeianos. Em lugar de uma cama de casal Maria Antonieta preferiu uma estreita, como as de sua infância. O Rei, nesse novo reino da mulher, só comparecia quando convidado e consta que ali jamais dormiu. Era nesse habitat tão somente seu que a Rainha jogava e recebia os amigos que não raro avançavam o relógio para induzir o Rei a se retirar mais cedo. Neste palacete que havia sido para Luis XV um refugio para o galanteio e o prazer, Maria Antonieta vivia um conforto burguês, como se estivesse eternamente numa casa de campo. Era ali que recebia o Conde Axel de Fersen, o homem pelo qual realmente teria se apaixonado, e também seus amigos íntimos como os Polignacs, o Conde d’Artois, os Esterhazy e os Vaudreuil – “o que havia de pior e de mais jovem em Paris” como dizia sua mãe Maria Tereza. A nobreza antiga, os Noailles, os Orleans e os Rohan, queria bem longe. E aos domingos recebia visitas de crianças e suas governantas, pouco se importando que não fosse isso condizente com o protocolo real.
Se mais impôs ou respeitou o gosto dos artesãos que para ela tanto criaram, não importa. Esses certamente sabiam agrada-la. Não somente se encantava com as fabulosas sedas e brocados que lhe eram oferecidos.Era também adepta do algodão, para vestir e na decoração. Adorava a “toile de jouy” com seus desenhos de cenas camprestes. Sabe-se também que a jovem rainha se deixava encantar por objetos de jaspe e madeira petrificada. Qualquer novidade parecia servir-lhe como distração a monotonia. A mãe, que tão bem conhecia o gosto da filha, apesar de critica de seus exageros, não raro lhe enviava objetos em laca chinesa e outros orientalismos.
Onde se pode realmente sentir a marca Maria Antonieta são nas pequenas “follies” que construiu, sempre ajudada por Mique, em meio aos jardins de Le Nôtre, como o Templo do Amor, a Torre Malborough e sobretudo o Belvedere. Neste, seis esfinges cercam o interior octogonal onde o teto foi pintado por Legrené e as paredes foram decoradas com esculturas imitando ferramentas de jardim e símbolos do amor. Cadeiras e pequenos sofás patinados de branco com detalhes folheados a ouro foram tapiçados em tecido “gros de Tours”. Foi um dos mais caros projetos. Também conseguiu fazer um teatro no lugar da Orangerie de LuisXV, onde organizava encenações que chocavam a corte mas agradavam ao Rei que sempre as assistia.
Em 1783, poucos anos depois de instalada no Petit Trianon , resolveu construir o o Hameau, uma dita fazendinha, com casa principal, moinho, estábulo, casas para guardas e jardineiros, torre, galinheiro e tudo o que se pode desejar numa fazenda de sonhos. Mique se esmerou nesse novo look pobreza humilde. Canalizou água para fazer um lago pois Maria Antonieta queria animais de verdade para divertir os filhos. Brunette e Blanchette é copmo se chamavam as vacas. Havia patos, ovelhas e uma cabra suíça. Para plantar as flores que tanto amava encomendou setecentos e trinta e dois potes em barro esmaltado e com as próprias insígnias na famosa fabrica Saint Clement.
Mesmo que tudo soasse a inocência e puerilidade, o que o mundo de fora sussurrava era que a “prostituta austríaca” ou “Madame Déficit” havia revestido seu quarto com brilhantes. Alertada pelo Embaixador da Áustria, respondeu. – Que deseja que eu faça? Vivo fugindo da monotonia.
Da corte austríaca trouxe o gosto setecentista; a pedra dura, os bronzes imponentes. Logo adotaria o estilo Luis XV e há quem acredite na sua contribuição para o desenvolvimento do estilo que veio a seguir, de linhas levemente mais austeras, o chamado Luis XVI. Em nenhum outro momento na história se teve noticia de artesãos mais virtuosos. A seu pedido e pela primeira vez foi usada a madrepérola para revestir moveis. Hoje, qualquer peça de Riesener, Jacób ou Sené não teria preço se fora dos museus. Uma patrona das artes, porque não?

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