O BELO ALÉM DA TELA (21 de maio de 2006)
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| Hostess chair, criada para as mesas de jogo do casal Jack e Anne Warner, em Beverly Hills |
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| Bill e sua famosa chaise-longue |
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| Famosa chaise-longue de Bill |
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| Painéis chineses e cadeira Chippendale na vitrine da loja de Haines em Sunset Boulevard |
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| Haines, no seu antiquário |
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| Amazonas, gazelas, esfinges gregas e centauros povoam os murais de Paul Feher como neste exemplo da casa decorada por William Haines |
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| William Haines, sempre bem humorado, mantinha-se elegante, bem-sucedido e respeitado pelo enfoque inovador com que encarava a profissão de decorador |
Nos anos 20 e 30, Billy Haines faria sucesso como ator se não fosse gay. A fama? Veio como decorador.
Belo, charmoso e fotogênico, o ator do ainda cinema mudo Billy Haines seria o par perfeito para as estrelas de Hollywood, não fosse a sua opção pelo namorado Jimmie Shields. Diante da recusa em romper com aquele com quem viveria por cinquenta anos e de casar-se com alguma atriz famosa, foi demitido em 1930 pelo magnata Louis B Mayer perdendo assim um polpudo contrato com a Metro Goldwyn Mayer.
Segundo rumores de então, nos anos 20, a ainda estreante atriz Joan Crawford, teria com ele querido casar-se, um recém vencedor do concurso “New faces of 1922”. Mais tarde seria ela a primeira dizer que Billy e Jimmie formavam o mais bem casado casal de Hollywood. Amiga de toda a vida - ele a chamava carinhosamente de Cranberry - foi Joan, quando famosa e casada com Douglas Fairbanks Jr, a primeira cliente de Haines em sua nova carreira como decorador. Dai em diante, sensível ao imaginário hollywoodiano e acreditando que se deveria viver de acordo com a imagem que queremos projetar, Billy partiria para transformar em cinematográficas as casas palacianas dos famosos, extravagantes e endinheirados expoentes desse mundo estrelado.
Nao se tivesse mantido fiel ao namorado, as lembranças de sua vida de ator teriam certamente se desvanecido com sua beleza. Como decorador bem sucedido por quarenta anos, até hoje é citado, copiado e colecionado. Num belo livro tipo mesa de frente de sofa, recém lançado nos Estados Unidos, Class Act, William Haines acaba de ter a sua vida e memória resgatadas.
Glamour e sofisticação eram com ele. Nada de “cottages” aconchegantes. – Isso é coisa para fazendeiros e camponeses, não para “ladies” e “gentlemans”, dizia ele.
Ainda na MGM, mas já apreciador do belo e do luxuoso, Billy abrira um antiquario e em sua casa de Los Angeles impecavelmente decorada recebia os amigos para jantar a luz de velas, celebridades, orquideas, bom vinho e musica classica. O seu bom gosto, classe e estilo já chamavam a atenção. Com a ajuda de um arquiteto ele havia conseguido transformar uma casa de dois andares, comum como muitas na região, de um estilo pseudo barroco espanhol em uma pequena e classuda mansão inglesa com lambris forrando paredes, pedimentos, lareiras “Adam”, chinoiseries, papel de parede Zuber e ainda um quê de art deco.
A ele – que fez a amiga Joan Crawford abdicar do seu mau gosto jogando fora 2.000 bonecas, uma coleção de retratos de bailarinas pintados sobre veludo e trocando um piano dourado por um branco Steinway, - é creditada a invenção do California Style ou do Hollywood Regency, um mix de antiguidades em perfeito estado, papéis de parede pintados a mão, carpetes felpudos, estofados bem recheados e material extravagante. O resultado seria sempre grandioso, meio século XVIII ingles, meio georgiano falso e “glossy”, mas esmerado e bem estudado, uma novidade nessa emergente cidade do cinema. Nos anos 50 uma sala por ele decorada poderia custar $50.000 dolares, um valor extraordinário para a época.
Depois de Crawford, para quem trinta anos depois Billy ainda faria um “pent-house” em Nova Yorque, cairam em suas mãos as casas das atrizes Carole Lombard e Constance Bennet. Veio a mansão em Beverly Hills de Anne e Jack Warner, outro magnata do cinema onde veio a acontecer uma festa legendaria inaugurando a decoração e o retrato de Anne pintado por Salvador Dali. Alí Haines colocou lambris antigos importados da Europa, lustres de cristal Waterford, parquets em couro preto e pergaminho e tecidos feitos sob encomenda. Nessa época um convite para os salões dos Warner podia ser tão cobiçado quanto para a Casa Branca. Outro trabalho importante foi a mansão de George Cukor, gay, solteiro e então o diretor mais bem pago de Hollywood, de apenas um quarto mas com sete salas onde Katherine Hepburn, Vivian Leigh, Cecil Beaton e Somerset Maughan seguidamente se aboletavam. Ali instalou um original aquário embutido na parede em cima da lareira e com moldura dourada rococo. Fez também o escritorio de Frank Sinatra que, encantado, telefonou agradecido dizendo tartar-se do mais belo escritorio em que já entrara em sua vida..
Eram de fazer inveja a qualquer decorador europeu os orçamentos de que dispunha. Podia tranquilamente imaginar e criar uma enorme canopla unindo duas camas de solteiro separadas como a que fez para os Warner. Num jardim criou um salão a céu aberto com estofados a prova d’agua, almofadas, lampadas, relogios, lareira e cascata. Podia cobrir paredes e tetos com veludo, embrulhar pernas de moveis e corrimãos com couro, fazer de cobre molduras que em geral são de gesso e prateleiras embutidas em coral. Teve ao seu lado durante 40 anos o artista europeu Paul Feher cujos guaches eram depois transpostos para as paredes em grandes murais cênicos como os que fez em sua propria casa. Era fascinado por passamarias, franjas e penduricalhos. Começou a desenhar moveis, mesas de jogar gamão, cadeiras em couro pespontado, criou as hoje colecionaveis cadeiras “hostess” e “elbow”, e a fazer luminarias a partir de esculturas e cúpulas de abajur nos mais diversos materiais e acabamentos.
Enquanto os profissionais europeus punham tecidos no chá para obter um look nostálgico, Haines escondia projetores atras de um painel de quadros impressionistas que era suspenso quando se desejasse ver um filme. O “Haines Look” já era reconhecivel. Em 1935 mudou seu estudio de La Brea para o Sunset Plaza em Sunset Boulevard . Nas vitrines os papeis chineses, cortinas drapejadas, espelhos, estatuetas black amours e a cadeira Chippendale toda enfeitada com franjas de bolinha. Em 49, sempre bem sucedido e a pleno vapor mudou seus escritorios para Beverly Hills.
No final dos anos 60 fez a Embaixada Americana em Londres para os amigos, milionarios e já clientes Walter e Lee Annemberg. Seus assistentes de toda a vida, Ted Graber e Jean Mathison, nos anos 80 ainda fizeram a ala intima para Nancy e Ronald Reagan na Casa Branca. Na verdade William Haines sempre trabalhou para um “inner circle”. Em sua época não conheceu a fama internacional obtida por decoradores americanos como Elsie de Wolfe e Billy Baldwin que circulavam e tinham clientes no “grand monde” europeu e novaiorquino. Seus salões não tinham o refinamento de um John Fowler ou a sofisticação moderna e contida de um David Hicks. Perfeito intérprete de um mundo de sonho e de uma estética muito particular americana, William Haines, com cancer na garganta em 1973 lamentava que a morte o levaria para longe das coisas belas. Num “The End” mais para tragédia grega do que para filme de Hollywood, o companheiro Jimmie Shields, arrasado, com uma overdose de pilulas para dormir suicidou-se tres meses depois.







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