NOVA IDÉIA DO SIMPLES (22 de abril de 2007)
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| Potes para café demonstram a infinidade de cores obtidas com a oxidação do metal |
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| Vaso usado por Goethe para provar uma de suas teorias sobre a cor |
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| Pintura na porcelana imita a ametista |
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| Sofá com ar de divã turco |
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| Cadeira de forma quase orgânica, o verniz dá a madeira aspecto de laca |
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| Papel de parede mistura o floral ao grafismo, ambiente doméstico com papel colorido, tom agradável e típico da época |
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| Mesa auxiliar em linha geométricas e camadas, exemplo do reducionismo da forma bem ao gosto Biedermeier |
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| Mesa auxiliar em linha geométricas e camadas, exemplo do reducionismo da forma bem ao gosto Biedermeier |
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| Escrivaninha vienense (1810) |
Exposição “Biedermeier, a Invenção da Simplicidade” passa a limpo o conceito de moderno em decoração.
O conceito de modernidade que consideramos tão de nossos dias não é tão novo assim. Vem de mais longe do que poderíamos supor. Não nasceu, como bem se poderia pensar, de Le Corbusier , Frank Lloyd Wrigth ou dos modernistas do começo do século, mas mais atrás, de um estilo que hoje chamaríamos de passado, posto que antigo de quase dois séculos .Uma exposição inaugurada em Milwaukee nos Estados Unidos em setembro passado, atualmente no Museu Albertina em Viena e escalada para dali seguir para Berlim e depois para o Louvre em Paris e que tem como titulo “Biedermeier, a Invenção da Simplicidade” põe o assunto a limpo e em dia. Ali nos confrontamos com uma estética reducionista e de renovação em relação aos excessos de até então, mas onde há muito lugar também para a fantasia e a inventividade. Com pinturas, moveis, objetos decorativos e trabalhos em papel que podem ter origem alemã, austríaca, tcheca e mesmo dinamarquesa , foca um período na Europa Central que vai de 1815 a 1830 e que, sem duvidas, situa o estilo Biedermeier como de fato o principal precursor do modernismo. Mostra não só o estilo mas toda uma atitude cultural.
Surgiu na Alemanha após a queda de Napoleão em 1815. Depois da turbulência da guerra as pessoas pareciam desejar paz, sossego e móveis radicalmente diferentes daqueles do grandioso estilo império, tão simbólico do poder absolutista. Embora se associe o estilo `a Alemanha, também Viena, Berlim e Copenhague emergiam como centros culturais com academias de arte que atraiam artesãos e artistas de toda a Europa. Biedermeier, termo que batizou o novo estilo, era o nome de um personagem fictício de uma revista satírica de Berlim e que se caracterizava por só estar interessado em uma vida confortável e descompromissada de qualquer ativismo político. O termo, inicialmente depreciativo e que começou como critica intelectual acabou por simbolizar uma nova maneira de viver, mais intimista, mais moderna e adequada ao pós guerra nessa região da Europa e a um período de maior bonança econômica.
A tendência era reduzir as formas `a sua essência, fundindo o útil e o belo. Os dourados e fricotes do século XVIII foram retirados em favor da beleza natural das matérias e das formas. O período em questão, pós Congresso de Viena até as revoluções perdidas de 1848, corresponde `a primeira era consumista do império austríaco. Apesar de que muitos associam o Biedermeier a valores burgueses, foi na verdade a nobreza do inicio do século XIX, então no auge de seu poder e fortuna e gastando sem parar, o que de fato alimentou a produção desses artesãos e artistas. E havia o prazer de ter o belo mais próximo a si, em aposentos de proporções mais humanas e com moveis de apoio e maior funcionalidade como secretarias, mesas dobráveis e gaveteiros nos ambientes privados dentro dos palácios onde era possível manter-se mais distancia do assedio dos empregados e da corte. Era também um tempo em que se lia Jean Jaques Rousseau exaltando a natureza e a simplicidade.
As cadeiras tinham formas dramáticas e originais e eram construídas com a preocupação do uso individualizado. A prata, a porcelana esmaltada e pintada e o vidro não eram adornados com os relevos de antes e chegou-se a considera-los inexpressivos. Na verdade a ousada justaposição de cores e de padrões e o contraste entre tons claros e escuros dos objetos decorativos, marca registrada Biedermeier, pediam moveis de formas simples e que ao mesmo tempo fossem originais, excêntricos e com um que de lúdico. Havia mesmo a obsessão de brincar com o material. A porcelana podia vir pintada como madeira ou pedra, o papier-maché como gesso ou o ferro como bronze.
Goethe era então vivo e pregava a sua teoria das cores. Típicos dessa época são os papeis de parede em cores radiosas e com padrões dando a impressão de relevo e profundidade. De tão “modernos” parecem datar dos anos 40 e 50 e foi neles que Josef Hoffman se baseou no começo do século para criar os seus, de inspiração decididamente Biedermeier, e que colocou em sua própria casa de campo como mostrou recentemente esta coluna.
Eram tempos de Schubert na música e apesar de alguns outros mal entendidos que queriam situar o novo estilo como um interlúdio entre o neo-classicismo e o romantismo, fato é que no início do século XX os lideres da Vienna Secession e da Wiener Werkstrate se apossaram do estilo Biedermeir como um precedente para suas criações sem nenhum ornamento e linhas retas, estas sim voltadas para o uso da burguesia emergente. Foi muito aos poucos que o estilo Biedermeier foi ganhando interesse e respeito ao longo dos anos mas sua reabilitação só viria a acontecer mesmo nos anos 70.
O estilo, ao enfatizar o belo e o intimo, pretende o prazer do olhar e é isso o que a exposição nos induz a sentir. Vem confirmar o movimento como também arauto de muitas outras tendências modernas como o Art Nouveau, o Art Deco, a Bauhaus, o Artes e Ofícios e o design moderno pós segunda guerra. Mais próximo do nosso presente temos as criações de Ettore Sottsass e os moveis retilíneos de Donald Judd que, como no Biedermeier, brincam conscientemente com a forma e a cor. Pode-se dizer também que a atitude Biedermeier, apesar de adotada primeiramente pela aristocracia, trouxe junto o sentido de domesticidade. A sala de estar em oposição ao salão de recepção das grandes casas foi uma inovação Biedermeier. Também, com a introdução de formas limpas e graciosas, impulsionou o desenvolvimento de técnicas novas como a goma laca e o vergado na madeira. Na exposição está uma das primeiras cadeiras com madeira torneada de Michel Thonet. Era o inicio da eficiência econômica e das futuras e engenhosas estratégias de marketing.









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