MESTRE DOS LOUCOS ANOS 60 (07 de maio de 2006)
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| A casa do próprio Bennison, em Londres |
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| Salão de um apê em Paris. O tapete é um Ziegler |
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| Tow house de Bennison em Piccadilly (Londres). Ele criou um canto de jantar, unindo sofá e cadeiras dobráveis ao redor de uma mesa redonda |
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| Destaque para o quarto num apartamento londrino, nos anos 80, todo ele forrado de chintz estampado, inclusive o dossel |
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| Geoffrey Bennison em meio a preciosidades no antiquário de Pimlico Road, famosa rua de marchands, em Londres |
No tempo em que Londres reverenciava os Beatles, Geoffrey Bennison elevou o exótico ao clássico.
Na efervescencia dos anos 60 na Inglaterra, depois da prevalencia do estilo English Country tão bem definido por Fowler e Lancaster e ao lado da novidade que eram os
espaços coloridos e as estampas geometricas de David Hicks, surge em Londres a peculiar figura de Geoffrey Bennison, do meio do antiquariato e como os ingleses gostam, trazendo algo de exótico, original e suntuoso ao classico e tradicional décor das grandes casas locais.
Bennison, nascido no norte da Inglaterra em 1921, pretendia ser artista plástico. Estudou durante a segunda guerra na pretigiosa Slate School of Arts em Londres e dalí, por razões de segurança, com outros alunos, foi evacuado para a menos perigosa Oxford. Caiu então nas graças do excêntrico Lord Berners, escritor, musico e colecionador e foi em sua casa em Farringdon que Geoffrey teve um primeiro contato com a decoração grandiosa e pouco usual. Segundo um seu contemporaneo, John Richardson, famoso historiador de arte, Bennison era certamente o mais talentoso entre os alunos da Slade, com uma sensibilidade para a cor que só os grandes pintores tem, um desenho a la Ingres e um evidente dom para o cenário e o teatral. Sua vida teria seguido um outro rumo não fosse a tuberculose.
Depois de sete anos em hospitais, curado mas falido, Bennison volta a Londres e por sugestão de um amigo, instala um stand de antiguidades `as sextas-feiras no famoso mercado de Bermondsey. Sucesso imediato, em dois meses abre um segundo e ali, durante quatro felizes anos treina sua abilidade para encontrar e vender objetos e moveis idiosincraticos e maravilhosos. Abre então o primeiro dos três antiquarios que veio a ter em Pimlico Road, então a mais fascinante das ruas de marchands de antiguidades e ali rapidamente passou a ser a figura central.
Seu olhar afinado para o rico e o esplendido, o gosto pelo excêntrico e sua predileção por peças superdimensionadas faziam da visita a sua loja uma experiencia inequecivel. Era como entrar num cenário: espelhos barrocos envelhecidos pelo tempo, colunas em mármores raros, bustos do seculo XVII, brocados desbotados, rendas turcas e marroquinas, lustres gigantescos, mesas douradas, biombos laqueados e tapetes “Ziegler”, de desenhos grandes , ainda tão procurados e dos mais valiosos entre os persas.
Sua cor preferida era o “Red Riding Hood”, um escarlate como se diria antigamente ou um vermelho neutro, perfeito pano de fundo para outros vermelhos, azuis, verdes, marrons e amarelos. Até um meio roxo ele conseguia usar bem. Geoffrey era capaz de passar horas numa sala apenas para observar o jogo da luz e misturava as tintas ele mesmo. -Nunca confie num pintor ou num mostruario de cores, dizia ele.
No ambiente meio magico de sua loja, Bennison recebia, na hora do chá, duquezas e decoradores que não saiam de lá sem antes ter sucumbido a alguma coisa. Não raro era visitado por John Fowler, por Tom Parr que se juntou `a Colefax&Fowler em 1960, David Hicks, Christopher Gibbs e Vincent Fourcade, todos admiradores e preocupados em saber o que entrava e saia por aquelas portas.
No começo dos sessenta Bennison aceita os primeiros projetos. Já se falava num “Bennison Style”. Faz o apartamento do ator Terence Stamp em Albany com ares de clube de homens ingles. Em seguida decora dois grandes e chiques restaurantes Chineses, a Lotus House e o China Garden. George Weindenfeld, famoso editor ingles ainda vivo, encomenda-lhe então uma biblioteca com ares contemporaneos. Bennison aparece com estantes em cobre, bustos, uma belissima escrivaninha do seculo XIX sobre um carpete geometrico e um Francis Bacon em cima da lareira.
O primeiro trabalho nos Estados Unidos foi para o famoso diretor de teatro Peter Glenville. Vieram convites para trabalhos no exterior mas Bennison era seletivo. Declinava mais do que aceitava. Seu interesse era apenas lidar com pessoas que desejassem e pudessem pagar pelo melhor.
Para os Rothschild do ramo françes, David e seu pai, o Barão Guy, Geoffrey decorou diversas casas. No gigantesco apartamento de David em Paris, com ambientes em sucessão, ele criou um hall de entrada escuro com bustos sobre pedestais e nas paredes drapejadas pendurou um enorme retrato equestre originario do Palacio Labbia que pertencera a Charles de Beistegui. Na sala de jantar espelhos do século XVII. Mais do que ninguém Bennison foi sensivel em reinventar o estilo Rothschild que tinha sido moda durante o Segundo Império na França cem anos antes. Era o “seu” próprio estilo Rothschild, grandioso e sóbrio. Soube juntar as riquezas da familia de dez periodos diferentes com seus desenhos de traços fortes e bem elaborados. Sua assinatura está presente em todos os detalhes, nas cores profundas, nos tapetes persas grandiosos, nas complicadas cadeiras vitorianas revestidas em veludo e com franjas pesadas, nas cúpulas de abajur verdes e plissadas, nas fileiras e fileiras de vasos Imari em porcelana. Para a familia fez ainda o castelo de Deauville onde forrou as paredes do salão principal em couro trabalhado sem no entanto perder de vista o fato de ser uma casa de verão. Também de seu jeito, mas com outra veia, fez para os pais de David um belissimo apartamento duplex em Nova Yorque num predio de 1907. Ali, numa nem tão grande biblioteca pendurou Rembrants, Goyas e Ingres ao lado de retratos da familia do século XIX.
Em seus 63 anos de vida – Geoffrey faleceu em 1984 - não houve espaço para o “kitch”. Sua frase: “Nada de querubins, meu caro”, ficou famosa. Esnobava o art nouveau. Com humor, usava a palavra “slimy” para descrever as linhas do mobiliario desse estilo. O seu proprio, que chegou a chamar de “New Trad” seria mais longevo, mais livre filosoficamente, na verdade menos decoracão e mais pró o objeto e o movel. Os elementos básicos seriam a combinação do bom mobiliario ingles e frances do século XVIII com moveis uteis e praticos de qualquer periodo num ambiente de boa arquitetura. Paixão de colecionador, um pouco de nostalgia, romantismo e conforto era o que emanava de seus ambientes. Nada deveria ser levado por demais a sério. Humor era imprescindível. Sugeria que se puzesse algo louco em cima de algo muito bom ou algo de muito bom em cima de algo muito louco. Figura atemporal, dominava o seu assunto de uma forma quase lúdica, sem a pompa que a riqueza as vezes pode assumir em excesso. Tal qual um bom arbitro proustiano de usos e costumes soube chegar lá, mas sempre deixando no ar um rastro de mistério, magia e encantamento.





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