MESTRE DO ENGLISH COUNTRY LOOK (13 de novembro de 2005)

Salão da casa em Hambledeu Manor,
com cores inspiradas no tapete feito por Fowler
Preocupação com aconchego e conforto

Solução de cortina para bay window

John Fowler

          

John Fowler representou o ideal das grandes casas de campo inglesas inspirado na simplicidade e na natureza.

“Ele era o Principe dos Decoradores” foi o que disse de John Fowler a Duquesa de Devonshire, matriarca de uma das mais belas propriedades da Inglaterra, a Chatsworth House. Pois foi o esplendor desbotado das grandes casas de campo da Inglaterra o ideal de beleza desse artista que por acaso se tornou decorador, e uma das maiores influencias na decoração inglesa da segunda metade do seculo 20.
Apropriando-se do espírito romantico do final do seculo 18, da simplicidade da vida rural e sua celebração da natureza, criou um estilo muito próprio, leve e original, informado na tradicão mas adaptado `a epoca e que se perpetua até hoje na famosa e tão conhecida Colefax & Fowler, firma de decoração inglesa que nunca deixou de se renovar dentro desse mesmo espirito.
Foi por acaso que JF entrou na decoração. Muito jovem e hábil em desenho e pintura, começou a restaurar e a reproduzir papéis de parede com motivos chineses para uma conhecida firma de decoradores. Em seguida tornou-se gerente do setor de pintura da loja de departamentos Peter Jones onde, além de pintar com maestria detalhes em movéis e papeis de parede, criava ambientes charmosos e nada usuais misturando peças georgianas com móveis franceses em cores claras e cadeiras vitorianas floridas em “petit point”. Foi nesse periodo que ele pintou um piano para a famosa Lady Diana Cooper que viria mais tarde a ser Embaixatriz da Inglaterra em Paris e passou a ser conhecido. Jovem e boêmio, cabelos longos , gravata borboleta, calças de linho e camisas “baggy”, acabou por fundar seu proprio estudio de pintura na Kings Road onde tinha como clientes e amigos uma turma de artistas como Michael Redgrave e Lawrence Olivier.
Foi em 1938 que a decoradora Sibyl Colefax, ciente do que poderia significar como acréscimo para sua firma a presença de John Fowler, o convidou para tornar-se sócio. Um genio no drapejado, John Fowler tornou famosas as cortinas inglesas, elaboradas como roupas de alta costura com detalhes de babados, rosetas, laços, filetes e terminações e que até hoje são copiadas e mesmo vendidas em antiquarios na Inglaterra. As cortinas que fez para a Baroneza Pauline de Rothschild em seda marfim com machos bem fundos e amarradas por laços que as faziam cair em camadas empilhando-se em direçao ao chão, foram e voltaram três vezes até ficarem perfeitas. Não raro ele se inspirava em vestidos antigos que pesquizava em suas visitas ao Museu Victoria and Albert .
A partir da dobradinha com Sybil, uma geração mais velha do que ele, os clientes passaram a ser mais poderosos e suas criações mais grandiosas. Nunca, no entanto, em seus ambientes, deixou de reafirmar a elegancia, a despretencão e o conforto.
Sybil , por tê-lo convidado para fazer parte da firma, teve um papel marcante em sua carreira mas foi uma cliente Americana, Nancy Lancaster quem viria a ter uma influência realmente significativa sobre o seu trabalho. Depois de contratá-lo para ajudá-la em uma de suas casas, acabou ela mesma fascinada pela decoração e resolveu , sabendo do falecimento de Sybil, comprar a Colefax & Fowler. Sua prima, Nancy Astor, a “doyenne” de Cliveden, tambem Americana e casada na aristrocacia inglesa , costumava dizer que Nancy e Fowler formavam o casal mais infeliz da Inglaterra. Foi no entanto nesse periodo , nessa parceria com Nancy, que a habilidade de Fowler atingiu sua plena maturidade. Ela, mulher de bom gosto e grande hostess, parte de uma safra de Americanas de familias ricas que ao casar na Inglaterra ganhavam títulos e em contrapartida engordavam o bolso da aristocracia local, trouxe para Fowler todo um novo universo social. Também a ousadia, a irreverencia, e a imaginaçao de Nancy que , como ela propria dizia, era simplesmente uma apaixonada pelas casas inglesas, foram uma provocação para Fowler que por sua vez tinha muito mais conhecimento , noção de detalhe e sentido de cor do que ela. Foi o resultado desta parceria o que definiu o que hoje é caracterizado como o “English Country Look”. As brigas entre os dois eram famosas. Juntos faziam as várias casas que ela possuiu e também a escolha dos móveis e objetos para a loja de Brook Street. A partir dalí, de seu escritorio que tinha uma parede inteira alfinetada com amostras dos tecidos por ele produzidos e que inclusive continuam sendo editados até hoje como o” Old Rose Chintz”, John Fowler projetava e supervisionava os inúmeros projetos.
Ao contrario de outros decoradores de sucesso dessa epoca, como Syrie Maugham, que procurava livrar as casas de molduras de gessos, simplificar a forma e podia usar cores contrastantes como o marinho e branco, ou o verde e branco, numa linha mais moderna, Fowler e Nancy insistiam em cores suaves, no tom sobre tom, no chintz floral equilibrado com cores lisas em algodão, sedas e ocasionalmente um veludo lavrado. Embora na direção inversa das tendencias contemporaneas da época, John e Nancy conseguiram trazer para o presente, com criatividade e eleveza, um estilo ingles muito arraigado e dai , talvez, o aparentemente eterno sucesso desse estilo. As luminarias de mesa tinham cúpulas de seda plissada ou papel difundindo a luz indireta. Peças do mobiliario ingles eram suavizadas pela presença de algum movel francês. Em geral o tom desses móveis era claro . Seguidamente uma cor escura num detalhe como uma bandeja vitoriana fazendo de apoio em frente a um sofa, laqueada em preto, podia ser introduzida como contraponto a cores mais delicadas e limpas. Algum móvel patinado em cor ou em dourado gastos pelo tempo, assim como objetos em metal pintado com motivos diversos, como cachepots, relógios de mesa, floreiras e castiçais faziam parte dessa gramática. Nas paredes quadros com molduras antigas, gravuras de flores ou animais, de caça ou arquitetura ou os famosos papeis de parede com motivos chineses. No chão, sobre carpetes claros, tapetes de aubusson ou “needlepoint”. Em vasos, flores misturadas com cara de recem colhidas no jardim, velas perfumadas e potpourris eram uma constante pois o ambiente tinha de ser envolvente. Do parceiro ela dizia ter uma atração pelo belo como o inseto pela luz. Um expert em cores, eram infindaveis as delicadas combinações que com elas obtinha. Podia colocar detalhes em vermelho numa cortina salmão ou misturar um rosa e verde com delicadeza. Tinha uma linguagem especial para nominar as cores de sua paleta como, por exemplo, “salmão morto” ou “preto mosca”. Na era Nancy foram introduzidos nomes menos comportados como “caca du Dauphin” ou “vomitesse de la reine”. Apaixonado pela casa inglesa intocada pois era alí que “aprenderia” sobre o passado e a tradição e onde também poderia dar azas a sua imaginação, John Fowler, apesar de continuar, nos anos 60 e 70, com seus projetos comerciais como a Embaixada Americana em Londres que decorou para David e Evangeline Bruce, passou a ser consultor do Patrimonio ingles, o National Trust. Houve quem questionasse o fato de que o mais “fashionable” decorador do momento pudesse ser isento em questões de conservação. Sua decisão de pintar de branco a escadaria então em falsa madeira marron escura de Sudbury House deu muito o que falar. Dizia-se haver evidencia de que em outros tempos ela teria sido branca. Não se saberá talvez nunca. De qualquer modo, na opinião de muitos , esta casa iniciada em 1665 e completada trinta anos depois, é hoje certamente, por causa de John Fowler, um lugar bem mais bonito e agradável.
Além da marca deixada na Embaixada Americana que, nas palavras do decorador Americano Mark Hampton “ passou de uma casa acanhada construida por Barbara Hutton nos anos 30 a uma interpretação viva de uma casa de campo onde plantas, flores e cores fortes foram arranjadas em justaposiçoes fascinantes, o estilo de John Fowler atravessou fronteiras e até é até hoje reproduzido. A “country house”sua propria ele adquiriu em1940 e alí , em Odinham, nesse Huntig Lodge que dizia ser o seu Trianon pessoal ,ele conseguiu atingir o que chamava de “humble elegance “ ou a elegancia modesta : “O que eu aqui desejava era algo claramente despretencioso, muito confortavel e com um verniz de elegancia e informalidade.”
Quando morreu, aos 71 anos, em 77, John Fowler seria reconhecido como o patriarca da decoração inglesa. A moda passa mas o belo permanence.

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