LIÇÕES DE UM ESTETA NO RIO (30 de outubro de 2005)

Quarto na casa de Júlio Senna, em Guaratinguetá,
marcado pela cor verde tão brasileiro

O artista nos estúdios da Walt Disney, em Hollywood





Tecido com estampas de abacaxis
que ele criou para a Tecelagem Bangu
Capa da revista desenhada por
Júlio Senna nos anos 40: estilo bem carioca

Os famosos toldos do decorador. Ele se divertia
usando modelos listrados tanto dentro como fora de casa


          

Da decoração à cenografia, do design à organização de festas. Júlio Senna. Um estilo que muitos ainda imitam.

Foi Júlio Senna, um paulista de Guaratinguetá, quem, ainda na primeira metade do século passado, soube convencer os cariocas de que era possível ser chique mesmo não sendo londrino ou parisiense. Homem de sete instrumentos, que transitou do desenho de capas de revista à cenografia, passando pela decoração de casas e fazendas, organização de festas e casamentos memoráveis, design de tecidos e até mesmo pelo jornalismo, nunca cessou de valorizar o que ele dizia ser nosso jeito, nossas cores e nossa beleza, nem de tirar partido disso.
Nascido em 1914 e bem-educado pelo pai, que era titular de um Cartório de Registro de Imóveis, Júlio, que tocava piano de ouvido e na escola era sempre primeiro lugar em desenho (ao contrário do que acontecia em outras matérias), chegou a ter aulas com Mário de Andrade e com o maestro Chiafarelli. Decidido a estudar Arquitetura na Escola Nacional de Belas Artes, onde Lúcio Costa era diretor, mudou-se para o Rio de Janeiro em 1934, onde um emprego de meio expediente lhe permitia estudar também piano e ingles. Formado, começou a trabalhar com arquitetura e decoração. Elegante, simpático e sociável, em pouco tempo teria um time seleto de amigos-clientes encantados com esse seu modo de ser e de fazer decididamente original e brasileiro, por meio de seu estilo, digamos, Brasil-Chic.
Em uma passagem pelos Estados Unidos, mais precisamente por Nova York, entre 1945 e 1947, teve a oportunidade de trabalhar na revista Harpers Bazaar, onde fez amizade com o famoso fotógrafo Cecil Beaton, que fotografou no Central Park e que, mais tarde, também faria o retrato de Júlio com bico de pena. Nesse mesmo período, idealizou a cenografia e os figurinos para uma peça de teatro na Broadway e viajou até a Califórnia para conhecer Hollywood.
Enquanto com Henrique Liberal, de tradicional família carioca, e a irmã Dulce, que veio a casar-se com o rico fazendeiro argentino Martinez de Hoz, Júlio Senna aprendeu o que era requinte, a eles encantou com seu talento e sua criatividade. Dulce, em seu livro Recuerdos, editado em 1980, lembra uma visita de estrangeiros, entre eles Cecil Beaton, a sua estância Las Bearrancas, perto de Córdoba, na Argentina, quando as flores nos canteiros à entrada da propriedade estavam murchas e escassas: “Júlio Senna estava hospedado em casa e teve a ideia de ir até a estufa para buscar flores e espetou-as nos canteiros. As visitas não conseguiam entender como as flores podiam estar tão bonitas naquele clima tão frio”, conta.
Nas muitas fazendas, clubes, casas da cidade, praia e campo que decorou no Brasil, ao contrário do que viu na Argentina, Júlio fez questão de “deseuropeizar”. Nada de cores sombrias, veludos e tapetes persas. Na maioria das vezes, usava os de Madeleine e Concessa Colaço, com ponto brasileiro e formas e tonalidades tropicais. Citava Debret como o mentor dessas cores (as da bandeira brasileira) e gostava de usar móveis portugueses e coloniais brasileiros quando poucos o faziam, patinando-os, às vezes, em dois tons. De toldos, listrados ou debruados de branco, usava e abusava, criando ambientes aconchegantes dentro e fora de casa. Gostava do marabu peludinho de algodão como debrum de sofás. E era no famoso Silvio Fagundes, na Rua do Catete no Rio de Janeiro, que mandava fazer a maioria dos lustres e apliques de folhas e flores de cobre pintado que agregavam charme a seus projetos. Passaram a ser uma marca sua as luminárias com base em formato de abacaxi. Não usava cortinas. Preferia treliças em janelas e portas, criando autenticos patchworks.
Durante a longa amizade com os irmãos Guilherme e Joaquim Guilherme da Silveira Filho, donos da tecelagem Bangu, Júlio Senna não só desenhou tecidos para a empresa, como também decorou as casas da família. Em 1958, para um desfile de modas da Bangu, o arquiteto-decorador mudou completamente o décor do Hotel Copacabana Palace à base de metros e metros de tecido. Em homenagem ao frevo, sombrinhas com estampas da Bangu lotavam a entrada do hotel ou faziam de lustres, junto a cestas suspensas carregadas de flores. Trabalho não parecia faltar. Nos anos 1950, foi convidado pelo governador Munhoz da Rocha para decorar o palácio do governo de Curitiba. Também nessa época decorou o palácio de verão do governador de São Paulo, em Campos do Jordão. A casa de Marjorie e Jorge Prado, chamada Vejomar, no Guarujá, teria sido uma de suas obras-primas. A fazenda Las Palmas de Mercedes e Leonel Miranda, em Vassouras, antiga fazenda do barão do Amparo, de 1824, passou também por suas mãos, assim como a fazenda de Lily de Carvalho, mais tarde Marinho, em Valença. A casa do príncipe dom João de Orleans e Bragança em Cabo Frio, a Hípica na Lagoa e o Gávea Golf Clube, em São Conrado, tocados pela mão talentosa de Júlio Senna, serviram para provar que o Brasil pode ser fonte de estilo e elegância.
Incansável, fez em 1965 os figurinos e a cenografia da peça O Preço de um Homem, encenada por Cacilda Becker – e por esse trabalho ganhou o Prêmio Molière. As festas que organizava, onde podia usar mesas revestidas com fórmica vermelha e postar burricos (de verdade!) carregados de cestas de flores pelos jardins, eram em geral servidas por garçons vestidos à moda de Debret em estilo Rio antigo: punhos de renda, calças vermelhas bufantes e colete preto.
“Se você entrar numa festa e vir árvores com flores, um abacateiro carregado de cravos ou uma laranjeira com rosas, pode estar certo de que é coisa do Júlio”, dizia o empresário da noite Ricardo Amaral.
Refinado, Senna dizia que a elegância está na eliminação. É por meio da simplicidade que se chega à perfeição, que, por sua vez, bebe na boa educação. Entrevistado pelo repórter de O Globo a propósito da escolha dos Dez Homens mais Elegantes do Brasil, discorreu com charme e humor: “É preciso lembrar sempre que perfume é para mulher. Homem usa cheiro. Além disso, a elegância masculina não admite nada falso ou artificial, como gravata de laço feito, botões que não abotoam, bolsos que não funcionam. Por isso, um homem com qualquer espécie de joia – seja pérola ou brilhante – no dedo, na camisa ou na gravata é simplesmente intolerável”. Para ele não é preciso ser rico para ser elegante: “O pobre está mais perto de ser elegante do que o rico, uma vez que a discrição e a modéstia são as primeiras qualidades requeridas para a verdadeira elegância”.
Júlio Senna morreu em 1988, aos 74 anos. Seu estilo Brasil-Chic, no entanto, ainda encanta e inspira.

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