KITCH QUE VIROU CHIQUE (19 de novembro de 2006)

Dos anos 40, listras e flores;
outro exemplo de barkcloth, com folhas
alinhadas em coluna e listras coloridas
Flores em contraposição ao art déco europeu

Cowboys e martinis (anos 30 e 40)
Listras estilizadas (anos 30, 40 e 50)

Exemplode organic e
crossover e a estampa de 1951
Do pós-guerra, desenhos inspirados
no modernismo e na tecnologia

Cadeira da escandinava Knoll Internacional

          


Americanos sempre foram loucos por cortinas. Tecidos simples do pós-guerra hoje fascinam colecionadores.

Elas podiam ser de metal, de bambu, de seda ou algodão, não importa. O fato é que, de leste a oeste do pais, os americanos eram obcecado por cortinas. De 1910 a 1960, durante os anos “Eisenhauer”, o período de guerra na Europa ou os anos dourados do american way of life e a conseqüente ascenção de uma grande classe media , uma janela sem cortinas seria pecado mortal. Uma pessoa respeitável e ciosa de privacidade não podia dispensa-las.
Graças as novas técnicas de produção em massa o tecido passava a ser um accessível objeto de desejo e a escolha de uma estampa a expressão do gosto de cada um. Certamente não eram fruto de uma estética de elite. Traduziam noções populares e refletiam um gosto adquirido através de revistas ilustradas e guias de decoração que cada vez mais invadiam as casas da classe media. Hollywood era também forte fonte de inspiração, até porque as guerras na Europa isolaram por longos periodos os Estados Unidos da influencia européia sempre culturalmente tão marcante.
Nas estampas americanas dos anos 20, por exemplo, não se tem qualquer registro de desenho influenciado pelo art-decô. Nesse período, na América do Norte, tudo eram flores, mais flores e geométricos muito sutis. Nos anos 30 as flores se tropicalizaram e podiam ganhar listras dentro de um mesmo padrão. A desinformação em relação ao que se passava na Europa até que trouxe certas vantagens pois permitiu ao americano encontrar um estilo próprio, com linguagem local e os desenhos dessas estampas passaram a registrar a evolução da arquitetura moderna, da tecnologia e dos hábitos da nova sociedade emergente.
Na altura dos 40 os tecidos passaram a ser muito ricos em imagens regionais embora com cores nem tão gritantes ou alegres. Afinal, embora longe, sabia-se que o mundo estava em guerra. E na economia nem tudo eram flores. Já nos 50 era fácil notar a presença de uma estética já mais modernista, o floral cedendo espaço para a geometria abstrata. A tendência era no sentido de linhas mais “clean” e cores mais ousadas. O dogma Miesvanderohesiano da forma a serviço da função, (form follows function) parecia ser o grito de guerra da massa americana. O modernismo era a nova Bíblia. Surgiram os desenhos chamados “organic’ ou “crossover” que queriam misturar o vocabulário da abstração com os motivos tradicionais e da natureza. Também foi a hora, na euforia econômica do pós-guerra, com mais e mais casas sendo construídas e portanto mais e mais janelas, das estampas trazerem imagens de átomos, estruturas celulares, carros, satélites e aparelhos de TV. Traziam também formas de ameba, pétalas de magnólia, manequins robôs, e ícones da cultura popular como cowboys e palhaços de circo. Mesmo que sob uma forma doméstica e popular já se podia notar a disseminação de uma visão abstrata que vinha da presença no pais de artistas como Jean Arp, Calder, Frank Lloyd Wright, Miro e Dali.
Muito do ímpeto em relação a esse estilo “organico” veio com a chegada de moveis escandinavos trazidos graças aos esforços da Knoll Internacional nos anos 40. Cadeiras de Marcel Breuer e Mies Van der Rohe e sobretudo os tecidos com estampas calcadas na linguagem visual da ciência e da engenharia chegaram para encantar uma elite, inclusive corporativa, com maior consciência de design. Fáceis de serem copiados e relativamente baratos para produzir , os tecidos foram o elemento mais influente do design escandinavo nos Estados Unidos. Basta dizer que a jarda do Barkcloth custava apenas $1.98 dolares. Assim era chamado este algodão com fio duplo e que no toque lembrava a estopa. Já o algodão adamascado custaria um pouco mais caro, por volta de $6.98 dolares.
Um longo meio século adornando janelas faz com que ainda hoje seja possível encontrarmos pedaços desse tecidos em feirinhas ou brechós. É comum também vê-los transformados em bolsas, sacolas e almofadas.
Essas cortinas estampadas que as vezes nem forradas eram, só vieram abaixo quando os modernistas dos anos 60 resolveram preescrever cortinas nuas. Durante todos esses anos, também chamados de “ugly years”, esses tecidos, hoje batizados de irônicos, agradaram os afluentes desejosos de status e prestigio social. Havia mesmo um orgulho deste kitch tão revelador da abundancia de uma nova sociedade abastada enquanto que na Europa sofria-se os racionamentos impostos pela guerra. Embora à primeira vista possam ser tomados como um produto bem de uma classe media conformada e sólida, e durante a segunda metade do século tidos como coisa de mau gosto e sem sofisticação, hoje, cinqüenta anos depois, os Barkcloths originais são procurados por colecionadores fascinados pelo que essas estampas revelam da cultura kitch americana. Podem ser pesquisados nos arquivos do Museu Cooper Hewitt em Nova Yorque, e hoje, na linha nostalgia, servem de inspiração para novos lançamentos em decoração e já migraram para a área fashion, aparecendo em camisas, gravatas, e lenços. Exemplos desses tecidos também decoram casas de famosos como Woody Allen, Bárbara Streisand, Angélica Huston e Madona. Podem estar em almofadas ou em assentos de moveis de rattan ou de volta as janelas. Transformados decididamente em coisa chique, já enfeitaram também cenários em filmes como Mulheres a beira de um ataque de nervos, Drugstore Cowboy e Mr e Mrs Bridge.

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