IDÉIAS QUE VEM EM DOBRO (01 de outubro de 2006)
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| Dupla na sala de jantar que se transforma em escritório |
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| Elegância de Attilio nos anos 80 |
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| Charme de Gregório |
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| Uma das inúmeras obras de arte do apartamento da dupla |
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| Durante o período Larmod, no final dos anos 70, um estande na Felit foi forrado com estampas de abacaxis |
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| Salão do apê com três sofás colocados em fileira. Detalhe para o chão marfim encerado |
Attílio Baschera e Gregório Kramer, donos da Again, são ícones da cena paulistana desde os anos 60.
O tempo passa e eles continuam modernos, provando que bom gosto e estilo não tem idade.Ativos e criativos desde os anos sessenta, Athilo como diretor de arte de revistas da editora Abril, o argentino Gregório no setor bioquimico sonhando em trabalhar com cosméticos, desenhando para a industria têxtil, abrindo lojas como a legendária Ship Shop, a pioneira e tão bem sucedida Larmod e mais recentemente a concorrida Again, a dupla nunca parou. Ainda faz, inova e reinventa com fantasia e elegância no mundo do design e da decoração.
Belos, cultos e bem vestidos, surgiram na cena paulistana num momento em que o Rio de Janeiro perdia glamour com a mudança da capital para Brasília. A feia São Paulo deixava de ser provinciana, ganhava espaço e se sofisticava. Em contraponto aos tradicionalistas e caretas surgia um grupo com vontade de viver bem, de se divertir e dele faziam parte Athilio e Gregório. Discretos e de boas maneiras, podiam circular com desenvoltura entre alternativos e estabelecidos. Segundo eles, “uma época em que as festas eram desinteressadas, com fantasia, sem marketing ou promoters, um tempo em que se chegava da Europa ou de Punta del Este e se ia direto para o Guarujá”.
Brasileiro mas de família italiana – os avós vieram de Verona em 1890 – Athilio Baschera estudou no Instituto de Belas Artes em Roma e foi desde cedo diretor de arte na Editora Abril. Viu nascer sob sua batuta a primeira revista Claudia, a Quatro Rodas, a Intervalo e muitas outras. Já Gregório Kramer baixou no Brasil, mais precisamente em Santo André, depois de um doutorado em bioquímica em Michigan nos Estados Unidos para trabalhar na Rhodia- quimica. Foi seu primeiro emprego e o salário gastava todo em táxi “pois o ultimo trem de São Paulo para Santo André saia `as 10, 20h e eu queria sempre estar aqui”. Foram apresentados um ao outro por Domingos Alzugaray em 1968 em almoço no Hotel Cambridge, ao lado do então prédio da Abril.
A primeira aventura dos dois foi a Ship Shop, uma loja de roupas para homem que muito sucesso fez posto que inovadora, mas que pouco dinheiro rendeu por essa mesma razão. Ali, bem em frente a Dacon, antes do atual prédio, a dupla vendia calças vermelhas ou listradas de azul e branco, camisas de broderie anglaise que eles mesmo desenhavam e mandavam confeccionar, e as camisas Lacoste de todas as cores e que até hoje são um must. Os clientes eram os colegas da Abril, artistas e colunaveis como Wesley Duke Lee, Marjorie Mesquita, Andréa Moroni, Fernando Moreira Sales, Aparício Basílio da Silva e afins. Durou de 68 a 71.
Foi sob os pseudônimos de Rapport e Chablon, inspirados no linguajar têxtil,e que se referem `a repetição da estampa e ao quadro onde se põe a cor para a gravação, que ambos decidiram participar de um concurso de desenho de estamparia organizado pela Fenit em 1969 onde concorreram com artistas já consagrados como Tomie Otake e Aldemir Martins, também sob pseudonimos. E não é que para surpresa deles mesmos, Athilio ganhou o primeiro lugar e Gregório o terceiro. Encomendas choveram, inclusive da americana Bloomcraft, uma industria têxtil subsidiaria da Bloomingdales.
Ainda trabalhando na Abril e ao mesmo tempo desenhando estamparia para diferentes clientes do setor textil para moda feminina, Athilio foi estimulado por Gregório a abrir a própria empresa, e produzirem eles mesmos os tecidos. –Porque não desenhar para si mesmo?” Uma viagem de Athilio a Paris, onde viu instaladas muitas novas lojas de decoração, serviu para indicar que mais interessante seria desenhar e produzir têxteis e objetos para a casa. Foi quando Athilio deixou a Editora e surgiu em 71 a Larmod, que sob a égide da dupla viveu 29 anos dourados na Rua Bahia. Inovadora –nada de copiar tecidos editados lá fora como faziam os outros fabricantes- rápido passou a ser, não só um ponto de atração para a elite local como para clientes do pais inteiro e do exterior. Surgia então em São Paulo, na estamparia para decoração um design feito no Brasil e com orgulho de ser nacional. Com glamour e fantasia surgiram estampas com abacaxis, bananeiras e palha do alto Xingu. Certos de que o étnico e o folclórico podem ser estilizados, nessa nova linguagem, a dupla começou a criar não só tecidos mas também toalhas de mesa, objetos, cangas, copos, souplats, até mesmo alpargatas. Foram muitos anos e muitas as “Coleções” como a Brasil, a Santa Fé, a Japão, a chamada Galeria inspirada em Dufy, Mondrian, Chagall e tantas outras. Em 98 resolveram vender a marca e partir para um ano sabático que acabou durando cinco.
Foram idas e vindas pelo mundo, por Punta del Este e Buenos Aires, Europa e Estados Unidos, sempre apurando o olhar. Durante esse período eram seguidamente solicitados a fazer o décor de eventos internacionais como o famoso jantar no Museu Gughenheim em Nova Yorque que precedeu a abertura da exposição do barroco brasileiro em 2002 até que decidiram pela abertura da Again em 2004, uma espécie de continuação da legendaria Larmod da Rua Bahia..
O nome da nova loja surgiu meio que ao acaso. Queriam algo com A e G mas nada que vinha a cabeça os satisfazia. Um dia, cansados de tanto receber indesejados telefonemas de certa senhora, Athilio exclamou: “Again” “outra vez”. E Gregório respondeu: “Aí ! Você achou o nome! Desta vez na Rua Alagoas, e como o nome da nova loja indica,eles ai estão novamente ditando regras de bem viver e morar. São tecidos, moveis, objetos e roupas para mesa, cama , banho . Os tecidos são agora tramas coloridas, listras ou Toiles de Jouy com desenhos de monumentos paulistas, imagens de Trancoso, Ouro Preto, Brasília. Sem problemas nessa relação argentino-brasileira, ao contrario do que parece acontecer nas questões do Mercosul, a Again também busca inspiração na Patagônia e paises vizinhaos. Ponchos, mantas, objetos de osso e couro, vem provar que o artezanato pode ser usado de uma forma extremamente sofisticada.
Originais eles são também dentro de casa, no dia a dia, na maneira como recebem que pode até ser elegantemente na cozinha. No apartamento do casal, a sala de jantar que abriga uma rara coleção de desenhos de artistas como Malfati, Rivera, Torres Garcia , Botero e outros grandes mestres pode também ser escritório e estúdio dependendo da hora do dia. Ali se cria, se organiza e se come, dependendo de como são dispostas as quatro mesas quadradas por eles desenhadas e servidas por doze cadeiras Charles X, sendo que 11 delas copias da primeira comprada em antiquário. No hall de entrada pintado de marron escuro, um enorme desenho de Portinari também sobre papel marron impressiona de saída. O chão de taco foi pintado em “off white” e hoje parece feito de pedaços de marfim. “Foi ficando mais bonito com o tempo e com as imperfeições” diz Gregório. Pecado mortal , segundo Athilio, seria querer estar sempre na moda. Não se ater a um período, mas sim reinterpretar com referencias passadas um estar contemporâneo é o que sabem fazer. Segundo eles uma casa totalmente minimalista é coisa forçada.” Se você tem uma herança não faz uma casa assim.”. Referencias é justamente o que se pode encontrar neste apartamento que, nem tão grande, vai em breve abrir espaço para um piano que pertenceu `a avó de Gregório, vindo do apartamento alugado em Buenos Aires. Os dois enormes Blackamours venezianos na sala de TV são herança da familia italiana de Athilio. Cadeiras estilo Luiz XV tem um couro parecido ao “galuchat”. Nada é banal ou não referenciado. Também nada de novo-riquismos, de moveis ou objetos simbólicos de status. “Não saberíamos trabalhar nessa linha. Para eles esbanjar é feio. –“Porque um personal trainer se podemos ir `a Academia ? “A dupla é exemplo de que glamour e estilo não se obtém com dinheiro. Podendo, o que fazem é curtir férias indo a festivais de musica na Europa como o de Aix en Provence em julho, já uma rotina na vida do casal. Ou ir a Paris ver o Theatre du Soleil numa ex-fabrica de cartuchos perto de Paris.
Sobre a imortalidade e o processo de criação, Gregório lembra da famosa frase que diz que nada se cria mas que tudo se transforma, e cita um conselho de Francis Ford Coppola para a juventude : “Construam algo a partir do que fizeram as pessoas que vieram antes de vocês. Eles viveram para que vocês possam fazer uso da experiência, e os que virão depois de vocês farão uso da sua experiência”.






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