HORA DE FALAR DE COR (15 de outubro de 2006)
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| Detalhe do salão amarelo, criado por Nancy Lancaster e John Fowler, na Colefax & Fowler, até hoje referência em decoração |
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| O verde deste quarto de Charlottenhoff, em Postdam (Alemanha), só era obtido, incluindo arsênico aos pigmentos |
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| Editora de moda Diana Vreeland, em seu apartamento vermelho, trabalho assinado por Billy Baldwyn |
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| Elsa Schiaparelli, que soube usar com classe o rosa shocking |
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| Decorador William Pahlmann, que fez as americanas aplicarem o turquesa na sala de visitas |
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| Trabalho em branco de Syrie Maughamez, mas nada minimalista |
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| David Hicks, famoso pelas decorações coloridas e geométricas, nos anos 60 |
Cada tom teve seu período de auge na decoração. E até mesmo as cidades podem ser definidas por matizes.
Apesar de um fenômeno quase inexplicável, dá para se constatar que cada era ou periodo histórico teve uma cor caracteristica, uma cor predominante, a mais desejada, a cor então da moda, a que seria , digamos, a certa , aquela que, se adotada mostraria status ou um estar por dentro de seu assunto e momento.Não é por nada que os cortesãos ou bajuladores da corte francesa no século XVIII, desejosos de alí afirmar posição, rápido adotaram o rosa açucarado, o azul agua marinha e o amarelo dourado, as cores favoritas de Mme de Pompadour, amante do Rei Luis XVI.
Nao é também a toa que a castelã do campo inglês, a americana Nancy Lancaster, tão zelosa na restauração de suas multiplas casas se preocupava em raspar a pintura de paredes em busca da cor usada no periodo em elas foram levantadas. Em Kelmarsh Hall, uma construção de 1760, descobriu que a cor de parede original era justamente a que teria sido moda então, o cinza frances, com uma pitada de azul, outra de pink, mas nada de amarelo. E depois, quando sócia da Colefax and Fowler, na loja de Dover Street em Londres, criou com o colega John Fowler o famoso “yellow room”, até hoje quase intacto e ainda tão visitado por decoradores a cata de inspiração e que tão bem simboliza o refinado e aristocratico “english country style”.
Existe na Inglaterra a Farrow and Ball, uma empresa fabricante de tintas e papeis de parede tradicionais, criada em 1930, e dedicada exclusivamente em pesquizar e produzir cores historicas, aquelas de fato originais. Tanto que , entre os seus maiores clientes, está o National Trust, entidade responsavel pela preservação do patrimonio histórico na Inglaterra. Sabe-se que, até porque predios historicos e monumentos sofrem inúmeras e muitas vêzes mal feitas reformas ao longo do tempo e são pintados e repintados ao bel prazer de seus ocupantes, os orgãos de preservação e manutenção vão ter de optar por certas regras e critérios, nem sempre unanimes, em relação a que periodo se ater na hora da restauração.
A chamada cor de Roma, que nas cabeças das recentes gerações de visitantes e turistas era composta de ocres e rosados, sofreu reconceituação quando, há alguns anos, o Patriminio histórico local resolveu pela linha de devolver aos seus monumentos e palacios a cor do periodo original da construção. Descobriu-se que em periodos romanos bem mais remotos as casas eram pintadas de azul bem clarinho, cinzinha claro, baunilinha e não o que passaramos a entender como cor de Roma. E foi assim que, a nossa Embaixada em Roma, o famoso palacio Pamphilli, há uns seis ou sete anos ganhou cor nova, De ocre passou a um cinza azuladinho claro.
As cores fazem também história e ficam associadas aos que souberam adotá-las e divulgá-las como se fossem delas pais e criadores. O Schiaparelli pink da famosa designer Elsa Schiaparelli, tão chegada aos artistas surrealistas da época, a ela sobrevive e, certamente como muitas mulheres saberão de pronto, tem algo a ver com o shocking pink que Yves Saint Laurent, alias grande admirador de Elsa, mais tarde adotou. Esse que, por sua vez é bem diferente do tom adotado pela Maison Channel no mesmo periodo. Contam as fábulas que Elsa teria se inspirado no diamante cor de rosa de uma cliente. E assim, uma cor de que muitos tem medo, pois que para muitos soaria cafona, passaria a ser “inn” se bem usada. Sobre esta cor tão sedutora, ficou famosa a frase da primeira e mais conhecida editora de moda do século XX, Diana Vreeland que afirmava ser “ o rosa shoking o azul marinho da India”.
Nao sómente as cores das roupas que vestimos podem enfeitar. Nunca esqueci o conselho de Lady Russell, a ja falecida ex-embaixatriz da Inglaterra no Brasil nos anos setenta e que reencontrei quando morando em Londres nos anos 90. –“Nao tenha medo de um sofa vermelho num salão de recepção. As mulheres nele ficarão muito mais bonitas do que sentadas num sofa bege”.
Na decoração o nunca esquecido decorador dos anos sessenta, David Hicks fez sucesso justamente por introduzir cores fortes e contrastantes no cenário de uma elite acostumada ao estilo ingles desbotado que até hoje vai passando de geração em geracão. Acreditava na força de colocar juntas cores com uma mesma origem, como vermelhos e rosas, laranjas e amarelos. E hoje, depois primeiro de tanto bege tom sur tom, e em seguida de tanto branco imposto pelo minimalistmo, os coloridos a la David Hicks voltam a moda embora em nuances mais delicadas. Entre os anos 30 e 40, o decorador texano William Pahlmann, por meio dos ambientes coloridos que criava no setor de decoração da Lord&Taylor, conseguiu fazer crer `as novaiorquinas que o turqueza e o Inca Pink eram cores ideais para as suas salas de visitas. Também a decoradora tão “market conscious”, Dorothy Draper, uma especie de precursora de Marta Stewart, provou que americano é bem chegado a ambientes coloridos. Só fez fazer sucesso nos anos 40 e 50 com seus carpetes verdes combinando com paredes amarelas e enormes estampas de folhagens e flores coloridas. E hoje, por causa de uma recente exposição em NY sobre o seu trabalho, esta de volta `as paginas das revistas de decoração.
Outro decorador que transformou em legendários interiores com paredes laqueadas e coloridas foi o americano Billy Baldwyn. Poucos ambientes foram mais fotografados por revistas e livros de decoraçao no século XX do que o apartamento de Cole Porter em Nova Yorque, todo laqueado de marron escuro e estantes em metal dourado. No apartamento que fez para a personalíssima Diana Vreeland, também em NY, tudo era vermelho. Não só as paredes cobertas com estampado de fundo vermelho, como as cortinas, o carpete e as portas laqueadas. Brincando, ela dizia morar num “garden in hell”(um jardim no inferno). E na peça de teatro sobre sua vida, encenada com sucesso na Broadway e em Londres, o cenario é uma recriação desse seu tão vermelho “habitat”.
Com a cor também se pode operar milagres a relativamente baixo custo. A decoradora Sister Parish , recém casada, surpreendeu a sogra pintando de branco móveis antigos da familia. John Fowler pintou de marfim um piano para a legendária Lady Diana Cooper, embaixatriz inglesa na França durante a Guerra. David Hicks pintou de vermelho uma mesa de ping pong. Rose Cummings gostava de paredes nos tons das orquideas arroxeadas, uma paleta nem tão facil de acertar com classe. Syrie Maugham, nascida em 1879, fez nos anos 20 a primeira casa toda branca sobre brancos e muito gesso e espelhos. Inovou, embora o efeito fosse o de um branco mais barroco, nada minimalista. E quando se fala na francesa André Putman, em que pensar, senão em preto e branco. ?
Há quem prefira as cores pastel da mais pobre e discreta corte sueca no século XVIII do que os dourados e espelhos dos Luizes em Versailles. Quem hoje gosta do ouro desbotado em molduras e frisos antigos pode estar esquecendo que quando primeiro folheados a ouro teriam sido certamente bem mais espampanantes.
Cores e cidades também parecem ter cor propria. O Rio de Janeiro é azul. Londres pegou fama de cinzenta. A Tunisia é branca e o Marrocos da cor do assafrão. Certamente ao contrário do que acontece em outras cidades americanas, num cocktail em Nova Iorque a maioria das mulheres estará de preto, Não foi de surpreender, portanto, que num jantar em casa de Sister Parish, há umas boas quatro décadas passadas, a então ja bem velhinha decoradora Rose Cummings atraiu tantos olhares ao adentrar vestida num longo verdão.
Hoje, para se recriar o verde tão sedutor de um dos pequenos salões de Charlottenhoff em Postdam na Alemanha, a casa de campo do Principe Frederico Guilherme IV e de sua mulher, a Princesa Elizabeth, não é mais necessario usar arsênico, então tão imprescindivel na obtenção de certos tons. Misturar na lata `a mão é coisa quase do passado. Hoje nenhum decorador vai deixar de possuir uma cartela da Pantone, a compania americana conhecida por seu sistema de misturas. Apesar de associações dedicadas em estudar, fazer prognosticos ou impor as futuras cores “in”, tanto na moda como na decoração, o fator surpresa vai prevalecer.
Afinal, segundo o The Colour Answer Book de Leatrice Eiseman,o vermelho será sempre o preferido dos intensos, o rosa dos romanticos, o amarelo dos perfecionistas, o laranja dos determinados, o verde dos sensiveis, o azul dos confiaveis e o roxo dos intuitivos.







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