Homenagem a Gregorio Kramer que nos deixou ontem

ATTILIO E GREGORIO


            Belos, cultos e bem vestidos, Attilio Baschera, brasileiro e Gregório Kramer, argentino, surgiram na cena paulistana quando o Rio de Janeiro, ao ceder para Brasília o papel de capital, perdia muito do seu glamour. São Paulo deixava de ser provinciana, ganhava espaço e se sofisticava. Em contraponto aos tradicionalistas e caretas, surgia um grupo com vontade de viver bem e de se divertir. Discretos e viajados, podiam circular com desenvoltura tanto entre os alternativos quanto os estabelecidos. E até hoje são referência e modelo em matéria de morar bem, decorar e receber com categoria. 
            Pecado mortal, segundo os dois, é querer estar sempre na moda. Mais vale é ser original. Não se ater a um período, mas sim reinterpretar, com referencias passadas, o estar contemporâneo, é o que sabem fazer. Uma casa totalmente minimalista seria coisa forçada. É dessa forma, portanto, que eles encararam a ambientação dos apartamentos de Punta del Este, Buenos Aires e este de São Paulo onde residem. 
            O apartamento paulista fica no bairro de Higienópolis. Com elegância e à luz de velas, podem receber amigos para jantar na cozinha. Ou, se mais gente, na sala de jantar, que abriga uma rara coleção de artistas como Anita Malfatti, Diego Rivera, Torres Garcia, Botero e outros grandes mestres e que pode servir também de escritório e estúdio. Basta dispor como seja a melhor maneira, as quatro mesas quadradas por eles desenhadas e que tem à disposição doze cadeiras Charles X, onze delas copiadas de uma original comprada em antiquário. No hall de entrada, pintado em marrom bem escuro, um raro e enorme desenho de Portinari sobre papel marrom. O assoalho de madeira foi pintado em off white e passa a impressão de tacos de marfim. Os dois black-moors venezianos, na sala de TV, são herança da família italiana de Attílio. O piano, que veio de Buenos Aires, pertenceu a avó de Gregório. Nada é banal ou sem razão de estar ali. 
            Juntos desde os anos 60, fundaram a Larmod, loja de tecidos para decoração que, sob a égide da dupla, viveu 29 anos dourados. Recusavam-se a copiar os de fora. Foi quando surgiu, pela primeira vez em São Paulo, na estamparia para decoração, um design feito no Brasil e com orgulho de ser nacional. Os motivos podiam ser abacaxis, bananeiras ou a palha do alto Xingu. E certos de que o étnico e o folclórico podem ser estilizados e embalados com sofisticação, com o mesmo conceito, partiram para a produção de objetos para a casa. 
            Incansáveis no impulso de criar e de se reinventar, hoje são donos da AGain, linda loja na Rua Alagoas, onde se destacam as Toiles de Jouy tão “brasileiras “com desenhos de monumentos paulistas, imagens de Trancoso, Brasília e Rio de Janeiro.

Texto do Livro Casas de São Paulo, Metalivros / 2009

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