FÃ DAS COISAS DO BRASIL (23 de abril de 2006)

Perspectiva de sala de jantar apresentada
por Charlotte num salão de
decoradores em Paris em 1928
A chaise tournant, hoje na coleção
do MOMA, de Nova York

Charlotte Perriand

Biblioteca em jacarandá com portas
revestidas de palha criada para o apartamento
do Rio em 1962, ainda hoje é um clássico



De 1954, a cadeira empilhável Sombra,
inspirada no teatro japonês Bunraku

Sala de jantar da residência-ateliê
na Place St.Sulpice em 1927

O famoso Bar sous le Toit, onde recebia os amigos
Detalhe da banqueta que se transforma em mesa (1962)

          

Charlotte Perriand, que trabalhou com Le Corbusier, era admiradora da exuberância destes trópicos.

Ao visitar recentemente a retrospectiva da obra de Charlotte Perriand no Museu Pompidou em Paris foi surpresa descobrir o quanto o Brasil esteve presente em sua vida e sua obra.
Integrante, desde 1927 e durante dez anos do ateliê de arquitetura Le Corbusier-Pierre Jeanneret onde era a responsavel pelo programa de equipamento das casas , Charlotte Perriand é hoje uma figura emblematica do século XX, tendo sido uma das mais importantes e atuantes militantes do modernismo.
Ainda jovem chamou a atenção do publico com a fotomontagem intitulada A Grande Miseria de Paris que ela resolveu apresentar no Salao de Artes Domesticas de 1936, num manifesto de esquerda que pretendia valorizar o arquiteto do espaço habitado mais do que o arquiteto designer exposto pelas galerias, Ali foram apresentadas suas pesquizas tão pertinentes sobre o habitat minimo e assim como seus trabalhos sobre o habitat coletivo como os quartos para estudantes universitarios que iria por em pratica no começo dos anos cinquenta.
Antes de iniciar sua parceria com Le Corbusier no atelier da rue de Sevres, Charlotte já revelara o seu talento num Salao de Artistas Decorativos em Paris ao expor com enorme sucesso o seu famoso Bar sob o telhado e a sala de jantar criados para sua propria casa e onde recebia os amigos. Jovem e radical, vestidos no joelho, cabelos curtos a la Josephine Baker, colar fetiche de bolas grandes em metal cromado, ideias revolucionarias, decidida a ser moderna e livre de ataduras ela já vivia em sua mansarda como num loft de hoje: aço cromado, uma mesa extensivel, cobre niquelado, borracha preta, um farol de carro transformado em luminaria. Também já militava na União dos Artistas Modernos do qual foi fundadora e que visava não só defender os seus membros que pretendiam uma arquitetura e um design mais adaptados a vida moderna, mas tambem reivindicar para eles o termo “moderno”, de modo a evitar que fosse mal usado pela moda, a publicidade e os copistas.
Com Le Corbusier, Charlotte se apresenta em todas as exposições de seu atelier, sempre engajada nessa sua defesa da modernidade, e ali ela tem a oportunidade de conhecer e se aproximar de figuras que viriam a ser extremamente marcantes em sua vida como Fernand Leger, Luis Sert, Lucio Costa, Junzo Sakakura e Jean Prouvé.
No primeiro ano trabalhando com Le Corbusier ela já foi capaz de elaborar uma coleção completa de moveis , simples, harmonicos, e funcionais, sempre levando em conta o contexto cultural e economico.
Em 1940, Charlotte é convidada para ir ao Japão e como conselheira do Instituto de Artes Industriais, propõe a realização da exposição Seleção, Tradição, Criação, nos grandes magazines Takashimaya em Toquio e Osaka onde ela mistura arte, artesanato e o seu próprio mobiliario criado para a ocasião. Tocada pela cultura japonesa, volta ao Japão em 53 e alí organiza uma manifestacao denominada “Proposta para uma sintese das Artes, Paris 1955, Le Corbusier, Fernand Leger, Charlotte Perriand” sobre a arte de viver onde ela exorta os japoneses a se manterem fieis a sua cultura e a suas verdades tradicionais e a copiar menos o ocidente. Em 57, nas galerias Lafayette ela apresenta as casa japonesas, em 66 e é convidada a fazer a decoração da Embaixada do Japão na França.
Nesse meio tempo, em 1952, Charlotte é chamada para a desenhar o mobiliario para a casa dos estudantes brasileiros na Cidade Universitaria de Paris cujos arquitetos foram Le Corbusier e Lucio Costa e em 1962 desenha o apartamento funcional de seu marido no Brasil, em missão diplomatica no Rio de Janeiro.
Bem que não tenha trabalhado no Brasil tanto quanto no Japao purista, descobrir o Brasil barroco foi importante para ela até pela comparação entre as duas culturas. Em nossos trópicos ela encontrou uma nova cultura, um mundo complexo com personalidades fortes, ciosas de suas tradições mas abertos a modernidade. Charlotte se aproxima de Lucio Costa e sua filha Maria Elisa, de Lina Bo Bardi, de Oscar Niemayer, de Roberto Burle Marx e Zanine. Graças a eles comeca a compreender o pais, sua riqueza e suas diversidades assim como reconhece que todos, apesar de influenciados por Le Corbusier, nunca abandonaram as caractericsticas de sua propria cultura. Descobre a alegria de viver de um povo jovem, musical, expressivo e que vive de acordo com suas condicões climaticas e economicas, ou seja, no luxo ou na favela.
Atenta e curiosa, Charlotte conservou em seu apartamento parisiense os objetos simples e reciclados que comprou ou ganhou no Brasil como a garrafa de plastico transformada em vaso por favelados.
Entre 62 e 68 Charlotte veio varias vezes ao Brasil. Pode apreciar novos materiais e redescobrir o jacaranda, na Franca conhecido como “palissandre de Rio” e trabalhado no faubourg Saint Honoré de uma forma que ela reprovava. Aqui percebeu que esta madeira sedosa e sensual e que podia ter tons diferentes podia ser tratada de outra forma. Para o apartamento do marido projetou a famosa estante de jacaranda e junco trançado , uma mesa em madeira maçica, outra de frente de sofa redonda em madeira e cana da India trançada e um longo sofa também em madeira com palhinha cor de mel em duas alturas e ao qual era acoplada uma mesa lateral e que podem ser vistos na exposição de Paris. Maria Elisa Costa foi quem lhe recomendou o marceneiro Rodrigues que tão bem soube transformar em realidade suas ideias. Foi no Rio que ela idealizou a luminaria com tiras de madeira entrecruzadas. Charlotte que acreditava detestar a exuberancia, uma mestra do equilibrio e das linhas retas, aqui, num pais onde tudo é forma e ondulação, da vegetação a` arquitetura barroca ela se expande e seu trabalho parece ganhar mais ousadia, mais colorido no contraste entre madeiras claras e escuras e formas mais generosas.
Um de seus último trabalhos foi a Casa de Chá no predio da Unesco em Paris que ali ainda esta do jeito que a deixou. Nessa sua longa trajetória de 96 anos, (1903-1999) Charlotte pode até supervisionar e ver a empresa italiana Cassina assumir parte da produção de seus moveis, conceber o equipamento interior de varias agencias da Air France no mundo , ver retrospectivas de sua obra serem organizadas em museus em Londres, Paris, Toquio e no Museu Fernand Leger em Biot. Certamente estaria satisfeita com a consagração de sua obra nesta grande e tão completa retrospectiva de sua vida e obra num dos mais arrojados e famosos predios de Paris.

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