ESTRELA QUE VIROU MITO (31 de julho de 2005)

Aparador e cômoda desenhados por Frank

Arranjo de copos-de-leite, as flores preferidas de Frank

Jean Michel Frank

          



Jean Michel Frank, gênio da decoração nos anos 20, ainda hoje é fonte de inspiração.

Jean Michel Frank é um daqueles criadores que, para bem além de sua morte e de seu tempo, deixou uma marca que jamais cessou de estimular a imaginação dos designers de gerações futuras, estes que, às vezes, sem nem se darem conta, perpetuam legendas e acabam por preservar a memória de talentos extraordinarios. Andrée Putman, Elizabeth Garrouste e Mathia Bonetti, por exemplo, nao cansam de citá-lo como o seu grande mestre espiritual e eterna fonte de inspiração.
Nos anos 20, pós Primeira Guerra, depois de ter perdido dois irmãos no campo de batalha, do suicidio do pai , e da morte da måe então internada num asilo, Frank se viu só e financeiramente independente. Judeu, viveu numa época em que na Europa já se podia sentir os sinais do anti semimisto que o levaria, mais tarde a morar na Argentina e nos Estados Unidos. Aos 20 anos de idade, sempre de terno cinza, melancólico, nariz adunco e franzino, ao regressar de uma viagem pelo mundo, comprou um apartamento em Paris, na Rue de Verneuil. Para ajudá-lo na decoração, chamou Adolphe Chanaux, aquele que a partir de então seria o sócio de sempre no atelier que juntos fundaram em La Ruche, e depois na loja que abriram juntos no Faubourg Saint Honoré.
Se bem que contemporâneo de Le Corbusier e do movimento Bauhaus com seu traçado rígido e tecnológico, Frank encontrou o sucesso em meio a uma nova sociedade que emergia na França depois da grande crise econômica de Wall Street. Basta dizer que até essa época, a França exportava em mobiliario cerca de 231 milhoes de francos, passando a exportar apenas 45 milhoes após 1925. Depois de uma era de luxo fácil e dinheiro que inebriava, muitos deixaram suas grandes casas para morar em apartamentos onde a vida pudesse ser mais funcional. As lições de simplicidade de Jean Michel Frank vieram a calhar. Mostrou que, mesmo ”esvaziada” uma sala podia ser luxuosa. Apesar de um minimalista e muito avesso ao carregado, o “clutter”, não caía no esteril, no frio ou no meramente funcional e se manteve sempre fiel à clássica disciplina da arquitetura francesa. Racionalista, era uma premissa a conjugação de quatro dados essenciais; proporcão, espaço, forma e matéria. Usava a régua de maneira a produzir drama e surpresa. Dizia não trabalhar com centímetros mas com milímetros. O equilibrio entre o tamanho do sofa em relaçnao à lareira, às portas e janelas era para ele fundamental. Depois de prontos, salas e quartos que decorava davam sempre a impressão de maiores. Também a relação dos moveis entre tinha de ter equilíbrio perfeito. Gostava de pequenos biombos baixos que colocava nas extremidades dos sofas, ou escondendo aquecedores. Tirou de antigas paredes as molduras e enfeites, para deixá-las bem lisas. Forrava-as com com vellum, pergaminho, palha envernizada, couro , grandes placas de travertino ou as laqueava apenas, com manchas, simplicando a forma em favor da textura. Já punha sisal no chão como carpete, e metal, só usava o bronze, que de forma luxuosa e ao mesmo tempo simples, podia revestir portas inteiras, trazendo elegância e refinamento ao ambiente. Nada de cromados, de acrílico ou do linóleo que acabavam de ser introduzidos na decoração por vanguardistas como Le Corbusier. Em lugar de quadros nas paredes, preferia, por exemplo, cabeças esculpidas sobre colunas altas e em proporção ao pé direito. Em seus ambientes não havia espaço para o supérfluo ou o aleatório. De sua loja vinham os móveis retos, geometricos e impecavelmente revestidos em couro ou galuchat. Podiam tambem ser produzidos com as mais belas e bem tratadas madeiras, geralmente claras, raras e veiadas. Frank os idealizava, mandava desenhar e eram executados sob a direção e o olhar atento e mais técnico de Chanaux, ex-estagiário de Ruhlmann. Também costumava encomendar da loja Hermés, para seus clients, moveis inteiramente forrados de couro, pespontados e tão conhecidamente refinados. As luminarias, urnas, vasos, apliques luminarias de pé em forma de concha e outros tantos objetos decorativos em gesso ou bronze eram geralmente de Alberto e Diego Giacometti ou de Christian Berard, e podiam ser vistos em sua loja do Faubourg Saint Honoré. Designers já bem influentes à época, faziam parte do pequeno circulo de estetas que incluia ainda o famoso arquiteto auto didata cubano Emilio Terry. Jean Michel Frank insistia nos tons claro e unidos. Ia do bege cremoso ao blanc cassé branco passando pelo marron clarinho meio dourado. Para os moveis estofados que, na medida que o tempo passava, foram ganhando mais e mais a forma geométrica e para a execução de cortinas, preferia o linho, o tweed, ou o veludo corduroy, tecidos dito masculinos, numa simplicidade aparente, mas que escondia enorme elaboração. O “le style Frank” rapidamente atravessou fronteiras e passou a fazer parte do vocabulario dos americanos. Foi levado para os Estados Unidos e alí difundido pelas decoradora inglesa Syrie Maugham e também pela americana Francis Elkin. Os salões bem despojados e em tons muito suaves que criou em Paris para o Visconde e a Viscondessa de Noailles logo ganharam fama e até hoje ilustram livros de decoração. Ali, apesar de ser contra quadros em paredes, submeteu-se a pendurar um Picasso, o que fez usando cordas de passamanaria. O copo de leite era a sua flor preferida. Em 1941, aos 46 anos, quando sentiu que o mundo não mais lhe parecia racional ou lógico, atirou-se da janela de um predio em Nova Iorque.

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