ESTILO JACKIE AINDA VIVE (19 de março de 2006)

Sala de jantar com o papel de parede antigo,
trazido da França. Seu preço alto gerou críticas
Salão Azul, o mais formal

Salão de jantar, que passou de verde
celadon a off-white; o lustre , os apliques e
os candelabros receberam banho de ouro
Jackie, que conseguiu trazer do
Louvre a Monalisa para ser exposta na
National Gallerie of Art, em Washington

O Red Room, a partir de uma aquarela que
foi o cartão de Natal dos Kennedys (62)
As cortinas do East Room só foram
instaladas depois da saída do casal Kennedy da Casa Branca

Stephane Boudin, fotografado na
Casa Branca por Jacqueline, em 1961


          

A primeira-dama americana, que remodelou a Casa Branca, continua a ser sinônimo de sofisticação.

Mesmo antes do gelado Janeiro de 1961, quando John Kennedy tomou posse, já havia no ar a percepção de que o jovem presidente eleito e sua bela mulher Jaqueline estavam trazendo glamour e uma nova energia para a Casa Branca. Não se tratava apenas de uma imagem de estilo e riqueza, Era mais a personificação de uma juventude sofisticada, de uma nova geração que representava o futuro do pais ao mesmo tempo em que valorizava as tradições e as glorias do passado.
Com o jovem casal a frente do poder, Washington ganhou elegancia e vibração. De um momento para o outro, nos salões da Casa Branca passaram a ser vistos atores shakespirianos, bailarinas e músicos famosos como Pablo Casals. Os jantares oficiais ganharam colorido. com artistas de cinema cruzando com poetas e eram seguidos de dança com o Presidente e Jaqueline abrindo o baile. Pela primeira vez, nas festas oficiais, se passou a servir drinques e fumar foi permitido. As longas filas foram eliminadas, o casal presidencial preferindo ir eles mesmo de sala em sala para cumprimentar os convidados. Esse clima mais descontraido também se estendeu `a sala de banquetes. Ao contrario da grande e formal mesa em U, mesas redondas passaram a ser usadas, permitindo ao protocolo maior flexibilidade, com pessoas importantes podendo ser dispersadas e portanto mais ao alcance de todos. E a contração de um novo chefe de cozinha, o francês René Verdon, inaugurou na casa Branca uma era de excelencia culinaria antes desconhecida.
Dentro da filosofia de que a esta casa americana tão simbólica era devido o melhor do melhor, Jackie Kennedy se dedicou de corpo e alma em torná-la o mais bela possivel. Não sem um certo drama, percalços e fofocas na Imprensa.
Bem nascida e com acesso ela mesma `as pessoas mais proeminentes da sociedade americana, Jackie teve a ajuda da amiga Jayne, casada com o magnata de petroleo Charles Wrigthsman na ideia de formar um comitê que se encarregaria da supervisão dos trabalhos com sentido academico e de conseguir doações. Num encontro com o milionario e grande conhecedor de mobiliario americano Henry Francis du Pont que acabava de transformar sua mansão no mais famoso museu de artes decorativas dos Estados Unidos, o Winterthur, ficou decidido que ele lideraria este grupo de museologos e profissionais. Seria uma maneira de garantir que público e imprensa tivessem a certeza de que não se estava brincando com o dinheiro publico mas sim cuidando da preservação de um dos mais importantes símbolos culturais americanos. `A revista Life, em 1961, Jaqueline fez questão de dizer que se tratava de uma reconstituição e não de uma redecoração: -Tudo dentro da Casa Branca tem de fazer sentido.
A ideia era devolver `a casa as caracteristicas de quando foi fundada, em 1800. Nesta época a influencia francesa foi marcante nos Estados Unidos. Nao só o Presidente Thomas Jefferson que havia sido Embaixador na França, era adepto do estilo, mas também James Monroe que muito contribuiu para que a casa ganhasse ares de esplendor francês. Nao foi portanto por acaso que Jaqueline e sua amiga Jayne logo pensaram em Stephane Boudin, que, a frente da famosa Maison Jansen de Paris, já era conhecido por ter restaurado lindamente inumeros palacios europeus, como a Malmaison de Josephine Bonaparte. e que tinha entre seus clientes os Duques de Windsor, a dona de Leeds Castle, Lady Baillie, e até as conhecidas decoradoras Nancy Lancaster e Elsie de Wolfe.
Em pouco tempo Stephane Boudin se tornaria o principal conselheiro da primeira dama e a influencia de outros decoradores como Sister Parish, muito conhecida à epoca e que fazia parte do comitê, acabaram sendo menos relevantes. Há relatos de ciumeiras e tentativas por parte de Jackie em acomodar os ânimos. Embora o comitê houvesse aprovado o convite a Boudin, o fato da escolha ter recaido sobre um frances causou um certo mal estar e todos os esforços por parte da Casa Branca em não tornar muito evidente o seu papel foram por agua abaixo quando uma série de oito artigos sensacionalistas no Washington Post, escritos pela jornalista Maxine Cheshire em setembro de 1962, vieram, como ela mesma disse, “levantar a cortina de veludo”. Ousada, chegou a usar uma falsa identidade e se dizendo enviada pela Casa Branca, penetrou nos estúdios da Jansen em Paris e da Scalamandre em Nova Yorque para descobrir e fotografar os desenhos para cortinas, tecidos, tapetes e outros acabamentos. Tentou transformar em escandalo a compra de uma escrivaninha que teria sido aceita pelo comitê e que seria um movel falsificado. Também criticou, por causa de seu preço alto, a compra de um papel antigo de parede, frances, que mostrava cenas do descobrimento da America e que foi colocado na sala de jantar menor do segundo andar.e também na sala de espera diplomatica. E mais que tudo, expos ao publico o fato de um decorador da moda e ainda por cima frances estar secretamente mobiliando a mais historica das casas americanas.
Na sala de jantar oficial, Boudin trocou o verde celadon das paredes por “off white”. Sugeriu dar um banho de ouro no grande lustre de metal prateado e nos apliques de parede o que deu mais imponência ao ambiente. A moldura da lareira do tempo do Presidente Truman foi trocada por uma reprodução da que ali estivera no tempo de James Monroe, em marmore branco e com o desenho da aguia, simbolo americano, isso depois de se haver pensado em usar um modelo desenhado por Boudin, mais belo, porem com menor sentido historico. O grande buffet e os consoles em mogno foram pintados na cor marfim e os detalhes da aguia e os frisos receberam douração. Para o tapete desta enorme sala SB fez também um progeto mas acabou depois ele mesmo optando por copiar o que havia posto em Leeds Castle, com desenho bessarabiano.
Para o grande East Room, que se tornou literal e figurativamente o palco mais importante do pais em materia de musica, teatro e dança, Jackie mandou fazer um tablado removivel em veludo vermelho e foram encomendados 730 jardas de seda da Jansen para voile nas janelas de modo a que não mais fosse necessario soltar as cortinas das abraçadeiras e assim mostra-las amassadas. As quarto lareiras em marmore vermelho-marron, para sair mais barato, foram marmorizadas com tinta branca e pequenas mesas tripoides para apoio de cinzeiros e copos foram projetados pela Maison Jansen. Também os quatro candelabros que no seculo XIX iluminavam este salão, para alí voltaram. As cortinas de seda que na epoca custaram 26 mil dolares foram pagas com o dinheiro arrecadado com a venda dos “White House Guide Books”, uma ideia da propria Jackie.
O Red Room era o favorito de Jackie. Em estilo “American Empire”, resultado nos Estados Unidos da influencia napoleonica, ali se manteve a lareira império francesa comprada por Monroe em 1817 para a sala de jantar mas para alí deslocada em 1903. Tendo conseguido convencer o comite de que até por causa dos detalhes neo-classicos de sua arquitetura, a sala deveria ser mobiliada com moveis dessa epoca, não importa se franceses ou americanos, Jackie, com a ajuda de Boudin, resuscitou alguns moveis do porão e adquiriu outros. O tapete frances, um antigo Aubusson foi doado pelo financista de Wall Street Andre Meyer. O tecido para as cortinas foi executado pela firma Scalamandré baseado em documentos texteis e estudo de pigmentos feitos por Boudin que também recomendou que elas fossem penduradas com argolas e tubos dourados. Nas paredes vermelhas uma galeria de retratos antigos. Foi neste salão que tanto apreciava e que conseguiu fazer como realmente desejava, que Jackie, ao lado do cunhado Edward Kennedy, recebeu os cumprimentos de pesames em seguida ao funeral de seu marido.
Já o Green Room era o favorito do Presidente. Nesta sala, Henri du Pont teve voz como autoridade em mobiliario americano e ela ganhou moveis “Federal”, ou seja Sheraton ou Hepplewhite mas originarios de Baltimore, Filadelfia ou Nova Inglaterra. Boudin, apesar de se queixar da falta de proporção de certas peças, conseguiu com seu talento harmonizar objetos e obras de arte num “setting” todo verde, inclusive as cortinas, e onde os sofas e poltronas estilo Marta Washington que ele na verdade detestava foram forrados de branco.
O Blue Room, financiado pelos Wrigthsman, teria sido a obra prima de Boudin como bem mais tarde declarou Jaqueline, então já Mme Onassis. Segundo ela, aquela sala, a mais formal, era a que melhor transmitia um sentido de grandeza e cerimonia. Alí, para as poltronas Bellangé, Scalamandre produziu um tecido azul com o desenho da aguia em medalhão. E como tapete, um outro belo Aubusson,
A Biblioteca em madeira natural foi pintada de clarinho e ganhou uma coleção de retratos antigos de indios americanos. Para o “China Room”, a sala com vitrines para a exposição dos diversos jogos de porcelana dos ex-presidentes, Boudin propos uma pintura cinza claro com detalhes brancos no lambri, um banco redondo ao meio, em veludo tambem cinza clarinho mas debruado de vermelho, assim como deveriam ser igualmente vermelhos o fundo das vitrines e o carpete estampado.
Do Yellow Room, o coraçao da Casa Branca, ou seja a sala de visitas menos formal do segundo andar, onde Jackie em seguida a morte do marido recebeu a visita de Charles de Gaulle, do principe Phillip e do Presidente da Irlanda, se podia avistar os gramados e os monumentos em volta. No inicio foi um transplante da sala de visitas da casa do jovem casal em Georgetown mas em seguida ganhou ares Luis XVI. A cor amarela foi escolha de Sister Parish que antes de Boudin começara a fazer os quartos na area privativa mas o resultado final acabou sendo uma compilaçao de esforços multiplos, Boudin desenhando as cortinas e colocando mesinhas Jansen em metal dourado e couro de dois andares ao lado dos sofás.
Em 1963, quando abruptamente terminou o reinado Kennedy na Casa Branca, muito ainda estava por ser finalizado. Durante os Johnson nada foi alterado e Jackie Kennedy foi convidada a integrar esse famoso comitê que até hoje existe embora obviamente com feições novas. A um dos jardins da Casa Branca que estava sendo redesenhado por Rachel Mellon, foi dado o nome de Jaqueline Kennedy.
Segundo um escritor americano Jackie seria por demais sofistificada para ser tipica. Se assim fosse não estaria vivendo, como até hoje, no imaginario dos americanos como modelo de classe, elegancia e sobretudo de alguém que soube viver plena e intensamente o seu momento histórico.

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