ESTILO ANTIGO ROUPA NOVA (25 de dezembro de 2005)

Mesa em ferro dourado
Aparador de Neufville et Grimaldi

Cadeira de Masanori Umeda

Sofá do designer Eric Schmitt

Bonetti e Garrouste
Castiçal em metal

Gueridon de Bonetti
Desenho de Guetzl

Tecido de Heros
Cadeira de G&B

Móveis também de G&B
Abajur escultura

          

Dupla de designers, os chamados Neobárbaros, reinventa o barroco na Europa e nos EUA.

Já dizia Montesquieu, numa leitura psicológica da decoração, que “une pièce est un etat d’ame” ou seja que o ambiente é reflexo de um estado de espírito.
Entender como e porque, nas duas últimas décadas do século que acaba de findar, enquanto o modernismo envelhecia, o movimento neo barroco se afirmava na Europa e se espraiava para os Estados Unidos, não parece fácil para muita gente.
As viradas de século são geralmente um periodo de efervescência, mudanças e espectativas; e também o momento propício para a observação de até onde se chegou e para onde se pode ir. Assim, a estética que fizesse mais sentido, daria a diretriz no século seguinte.
Em 1989, com a queda do muro de Berlim, num momento de assimilação de outros povos e culturas e de avanço na concretização da comunidade europeia, a Europa parecia carregada de uma nova energia que também e muito se refletiu no campo da estética e da criação. O design europeu parece ser hoje o reflexo de uma grande mistura de idéias do século passado. Foi nesse clima, pela mão de designers como Elizabeth Garrouste e Mattia Bonetti, que surgiu o chamado neo-barroco, que enfatiza o espetáculo e o teatral, mas numa nova dialética, a da preocupação com o individuo, o domestico e avaliando a relação entre o artezanato que é o nosso grande legado e a atual cultura industrial e uma nova consciência social. O barroco tradicional é incorporado, mas aparece contraditório e de cara nova: dispensa-se a simetria, o ornamento reflete formas ingenuas, há sensualidade no movimento, notas de humor, e sobretudo grande auto condescendência na invenção que pode ter inspiração nas culturas as mais diversas e no uso do material.
O sucesso desse movimento pode se explicar porque despertaria nas pessoas um gostar instintivo, que viria do fato de que todos nós, em algum momento teriamos tido algum contato com o barroco. A imagem que melhor exprimiria nossa fascinação por um passado grandioso e nossos sentimentos ambivalentes em relação ao futuro seria aquela de um passado em ruinas numa paisagem pós holocaustiana. No contexto já deste novo século poderiamos citar as imagens que tanto vimos na mídia das torres atacadas em Nova Yorque no famoso 11 de setembro.
No período entre as duas guerras do século XX ,um estilo de decoração colorida e teatral sobreviveu graças ao entusiasmo de um pequeno círculo de artistas, fotógrafos e costureiros, Homens de estilo como Cecil Beaton e Christian Berard deram glamour a tudo o que tocaram, enquanto, numa outra escala, coube a certos estetas excêntricos e ricos como Charles de Beisteguy ou a Condessa de Noailles realizar suas fantasias arquitetônicas e decorativas. Beistegui conquistou seu lugar no panteon do bom gosto quando, cansado da decoração minimalista de Le Corbusier, autor de seu apartamento em Paris, pediu ao brilhante arquiteto cubano Emilio Thery um conjunto de moveis cujas formas eram uma mistura de surrealismo e Segundo Império e pelas festas temáticas e extraordinarias que fazia em seu castelo perto de Paris vendido há alguns anos atrás pela Sotheby’s que também fez o leilão de seu conteúdo. Já Marie Laure de Noailles , também a cata de um novo décor, ousou se diferenciar dos hábitos de seus pares mais conservadores chamando para fazer sua casa o famoso decorador Jean Michel Frank, aquele que trouxe chique e elegancia ao decor dos anos trinta e que soube transformar fibras naturais como a palha, o algodão, o couro e o pergaminho em material de luxo.
A primeira exposição de Elizabeth Garrouste em parceria com Mattia Bonetti, ela nascida em Paris mas filha de poloneses e ele suiço, ambos criados em ambientes onde arte, antiquidade e desenho eram a profissão ou a preocupação dos pais, foi no anos oitenta na famosa Maison Jansen em Paris. A idéia foi justamente homenagear os designers originais do passado , explorando as possibilidades que eles podiam oferecer aos criadores contemporaneos.
Nessa renovação das artes decorativas sobretudo no ultimo decênio, o que se viu foi a entrada desses designers na area de clubes, restaurantes e outros projetos ligados ao mundo do modismo e do efêmero, o que os criadores dito sérios pareciam antes esnobar. Hoje, o estrelismo de figuras como Philip Stark, ultrapassa longe aqueles quinse minutos de celebridade previstos por Andy Warhol há algumas decadas atrás.
O primeiro grande projeto da parceria foi a ambientação do Club Privilege na boite Palace para onde o marido de Elizabet, Gerard Garrouste havia feito pinturas murais. Tido em Paris como a quintessencia do chique, seus decoradores logo viraram moda.
Entre a exposição na Jansen e a decoração do Palace eles não cessaram de criar e de encontrar um público cada vez mais curioso e interessado. Deram o nome de “En attendant les Barbares” ao tema dessa série de criações e logo uma loja com o mesmo nome foi inaugurada em Paris para vender os móveis e objetos. Apareceu a famosa cadeira de encosto alto em bronze patinado com couro de vaca estirado por tirinhas de couro. -“Impôs-se tal como o trono de um chefe de tribo avançando nas portas de Roma nos ultimos dias de seu declinio” comentou o especialista em estilo , o inglês Stephen Calloway.
O interesse dos dois pelo arcaismo era deliberado e a associação do espírito inventivo desses dois artistas que durou bem mais de vinte anos foi um raro exemplo de parceria que ultrapassava a simples sociedade financeira. Não lhes faltou uma clientela sensivel e acolhedora: Bernard Picasso, neto do pintor famoso, encomendou tapetes. A cristaleria Daum uma série de objetos em formas naturais e trabalhados com coral que trouxeram um novo horizonte na utilização de cores e texturas. Em seguida o costureiro Christian Lacroix lhes pediu para fazer a decoração de sua Maison de Couture em Paris já tão mostrada em revistas e livros de decoração. Ali eles puderam dar asas ao teatral e suas formas orgânicas e barrocas , que apareciam em portões de ferro, sofás, detalhes de iluminação, maçanetas, tapetes, estampas, chegaram mesmo a influenciar as criações do proprio Lacroix.
Hoje, são várias as lojas e galerias em Paris, Londres ou Nova Yorque especializadas nesse gênero, como Neotu, Avant Scène, David Gill ou En Attendant les Barbares. São vários os criadores, como Eric Schmit, Andre Dubreuil, Frank Evennu, Robert le Heros, Marco de Gueltzl e tantos mais trabalhando com materiais primitivos, diversos e em formas instigantes e inesperadas. É ainda Paris exportando o que é moda e luxo.

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