ESPAÇO PARA A ARTE DE VIVER (24 de dezembro de 2006)
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| Cômoda de Ruhemann (1923) em pau-roxo do Brasil, marfim e ébano |
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| Chiffonier de André Groult 1925 com acabamento em galuchat e marfim) |
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| Boiseries pintadas do Hotel Talairac (1790) |
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| Sala de jantar (1921), trabalho do arquiteto Louis Sue e do pintor André Maré |
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| Banheiro da Mme Lanvin, desenhado por Rateau ()1925 |
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| Detalhe do quarto do Barão William Hope (século 19) |
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| Biblioteca de Chareau, idealizada para a Feira Internacional de Paris (1925) |
Em Paris, reabre o Museu de Artes Decorativas, que exibe a história dos móveis e peças dentro de interiores.
Com um novo logo em linguagem decididamente contemporânea e depois de dez anos de obras, foi reaberto em Paris, em setembro ultimo, o Museu de Artes Decorativas, uma instituição de mais de um século de existência.A idéia é que neste recomeço, esta valiosa coleção de moveis e objetos, muitos expostos em “period rooms” e que contam uma historia de beleza, de bem viver, de inventividade técnica e de criatividade artística, encontre o seu papel e um novo espaço entre as categorias da arte. Até porque não é de hoje a discussão se a arte decorativa é ou não uma arte menor, uma vez que usamos e dispomos de moveis e objetos e não apenas os contemplamos como fazemos com a pintura e a escultura. É no entanto fato indiscutível que, nos últimos dez anos, o interesse do público por design só fez crescer.
Neste museu onde se gastou mais de 35 milhões de euros com fundos do Estado e também de grandes empresas privadas, e que agora conta com duas entradas, uma pela Rue de Rivoli e outra pelos Jardins das Tuilerias e que está mais mais iluminado e arejado do que nunca pois foi derrubado um mezanino, quem vai julgar o que deve ou não ser arte é o visitante ao se deparar com os 6.000 itens expostos (dos 150.000 do acervo) em ordem cronológica e passando ao largo de dez “period rooms” impecavelmente recriados, tudo dentro dos moldes de um museu moderno.Com um bilhete único se pode aceder também aos espaços dedicados a jóias, brinquedos, a publicidade e ao museu da moda e do tecido..
Arte maior ou menor, o fato é que o novo museu parece ir de encontro ao orgulho dos locais e `a admiração dos estrangeiros pela notória e histórica arte francesa de viver com luxo e sabedoria. Ele conta a estória, desde a idade media, da decoração de interiores dos franceses, dos estilos que se sucederam, do amor que eles tem pela comida e da verdadeira obsessão que tem pelo bom gosto através de moveis, cerâmicas, porcelana, vidro, têxteis e até brinquedos. Segundo a diretora Beatrice Salmon, trata-se do único museu no mundo que de fato cobre todo esse espectro: -Nossa pretensão é promover a industria francesa, nossa arte de viver e também o nosso “savoir faire” .
Os period-rooms , do século 15 ao 20, foram organizados pelo designer François-Joseph Graf e transformam o visitante, obrigado a olhar através de janelas e aberturas, numa espécie de voyeur dos aristocratas franceses e da alta burguesia. Fica também patente que embora, desde a Renascença já houvessem artistas conhecidos e famosos entre pintores e escultores, nada ou muito pouco se sabe sobre os tecelões, prateiros, marceneiros e ceramistas que criaram tantos e tão belos elementos que adornaram e foram úteis nas casas abastadas anteriores ao século 19. Artistas ou não artistas ? O fato é que eles fizeram a vida de muitos bem mais bela e luxuosa. Só mais tarde, quando a industrialização veio para facilitar a produção, foi que surgiu o designer, entre artista e artesão, mais preocupado em criar um estilo do que apenas um objeto individual, passando a significar para o usuário uma orientação e garantia de bom gosto. Hoje, é fácil a um designer ganhar o mesmo status ou valor dado a um artista plástico.
Entre os “period rooms” mais antigos, um quarto de dormir do final do século 15, um Gabinete dourado do Hotel Rochegoude em Avignon de 1725, o Salon Talairac de 1790 e um salão do Hotel de Sevres de 1795. Já é do século 19 o quarto de dormir de Luis Felipe e a sala de jantar de Eugene Grasset feita para o colecionador Charles Gillot em 1880. Tem portas de vidro trabalhado, figuras ornamentais, animais e plantas sem que se saiba o nome dos hábeis artesãos. Os anos Arte Decô estão bem representados. Entre os mais belos period rooms desse período está a legendária suíte composta de banheiro, boudoir e quarto de dormir com paredes forradas em seda azul e bordada a mão criada em 1920 por Albert-Armand Rateau para a famosa costureira Jeanne Lanvin. Esta que, quarenta anos antes era tão pobre ao ponto de se pendurar na traseira dos ônibus puxados ainda por cavalos para economizar na condução. Hoje, apesar de terem sido sempre mais conhecidos como os aposentos de Mme Lanvin, tão luxuosos e femininos como as roupas que criava, não deixam de devolver ao artista Rateau o reconhecimento de seus méritos.
Outro belo exemplo desse período é a Biblioteca do Embaixador desenhada por Pierre Charreau para um pavilhão na Feira Internacional de Paris em 1925. Ali estão a escrivaninha preta e a cadeira originais por ele criadas, num pequeno salão circular onde o mais interessante é o teto em forma de domo com uma prancha de madeira em mecanismo que pode expor ou esconder as prateleiras. Outro ambiente que chama a atenção é uma sala de jantar de 1922 feita por Louis Sue e André Maré também para ser exposta na Feira de 1925.
Os objetos mais antigos são pinturas religiosas e retábulos ornamentados que poderiam estar no Museu do Louvre mas que ali se encontram posto que arte mais domestica do que publica. Dai em diante serão camas, mesas,tapetes Aubusson, cristais lalique , porcelanas de Sevres. Percebe-se uma maior sofisticação na medida em que os marceneiros foram incrustando mosaicos nos moveis e a porcelana absorvia a influencia chinesa. Painéis de madeira forrando paredes são hoje tidos como verdadeiras obras de arte e, como se pode verificar ao longo desse périplo, foram mais adiante substituídos pela seda ou por papeis ricamente pintados.
A partir do século 19 surgem nomes que ficaram, como os dos joalheiros Charles Chrisfofle e René Lalique que até hoje são assinatura em baixelas, talheres e cristais. No campo do Art Nouveau , entre outros, vale o nome de Hector Guimard. O Art Deco deixou figuras hoje famosas como Robert Mallet Stevens e Albert Armand Rateau. Dos anos 40 tem-se exemplos de trabalhos de Poillerat, Terry, Janet e dos irmãos Giacometti. Le Corbusier, Charlotte Perriand, Jean Royere e Jean Prouvé não poderiam estar ausentes do grupo anos 50. Ali também, naturalmente, a mais recente celebridade do design francês que é Philippe Starck. Isso sem falar nos muitos nomes internacionais presentes como os nossos tão estrelados Fernando e Humberto Campana.
Nao é de estranhar que tenha sido justamente a emergência das artes decorativas como industria o que tenha inspirado a criação do Museu em 1905. Desde então, e fugindo a regra local, continua sendo, tal qual como quando de sua fundação, um museu privado que responde a patronos, colecionadores e industriais. Embora o governo tenha contribuído com 60% do total dos custos da renovação, a propriedade da coleção é de uma associação privada chamada Les Arts Decoratifs. É ela também quem opera o Musee de la Mode et du Textile e o Museu da Publicidade no mesmo endereço e, fora dali, no oitavo arrondissement, o Musee Nissim de Camondo uma ex-mansão privada ricamente decorada e que vale também uma visita.
Como declarou Helene David –Weill, Presidenta do Museu há muitos anos, as artes decorativas são o reflexo da história do desejo e da necessidade, da imaginação a serviço do belo dentro do útil; é a aventura humana e seu anseio de felicidade e de viver melhor. Neste museu fica também evidente a preocupação permanente dos franceses em juntar ao objeto do quotidiano a qualidade estética, as virtudes da utilidade, a criação artística e a inventividade técnica.
Com um novo restaurante e uma loja de dar água na boca e ameaçar os bolsos, e onde se pode comprar livros e guias maravilhosos, bijuteria e jóias modernas e objetos de design como elegantes talheres de plástico em estilo clássico, Paris nos re-oferece um templo da beleza que vem reafirmar a França como ainda o maior arbitro em questões de gosto, luxo e estilo.







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