ENFEITE QUE É PURA ARTE (25 de março de 2007)

Pingente em passamanaria de seda
creme em cadeira folheada a ouro
Pintura de Debret, de 1927, mostra
franjas no corpo do índio brasileiro

Franjas de fios de ouro
no dossel de Luíz XIV
Poltrona ao lado de cortina
com abraçadeiras e pingentes

Do final do século 19,
pingentes em lã, seda e algodão
Rosetas e botões rebordados


Mostruário de passamanarias feito pelo
francês Morrisson (1930), hoje peça de museu,
sua venda serviu para pagar o enterro do artesão

Pingente Luís Felipe, em bordado
cheio e linhas geométricas

          

A passamanaria continua a ser elemento decorativo exemplar, graças ao trabalho de mão-de-obra qualificada.

A da passamanaria é uma estória de poder e beleza. Sinal de opulência, de ostentação e refinamento, a passamanaria, desde muito faz parte do universo do poder. Presente nas vestimentas de Reis e Rainhas, na decoração de palácios, nos ornamentos religiosos, paramentos de padres e cardeais, nos ombros de oficiais e trajes de gala, a execução da passamanaria sempre foi, no entanto, um oficio dos mais humildes e discretos.
Exigiu sempre e ainda hoje muito tempo de aprendizado, paciência e aplicação. Em francês, italiano ou português, a palavra indica uma arte que “passa” necessariamente pela mão. Também não existiria independente das realizações de outros criadores como tapeceiros, decoradores e costureiros.
Se definirmos a passamanaria como a arte das mil e uma maneiras de tecer, encordoar e entrecruzar fios em pequenas larguras, ela não terá sido uma invenção da Europa civilizada. Atar e trançar faz parte da história do homem. Primeiro veio a franja que, antes de ser usada para embelezar ou como terminação e acabamento, serviu de proteção, de saia e vestimenta. A primeira “Vênus” a enverga-la,talvez tenha sido a de Lespugue, representada por uma estatueta de 20 mil anos que pode ser vista no Museu do Homem em Paris.
Pois franjas, cordões de 2,3 ou 4 cabos que podem ser trabalhados em chinee ou perlino, pingentes redinados, pompons, campânulas, galões, lisardas, rosetas e cadarços eram comuns em procissões na China milenar, entre os cristãos no Vale do Nilo nos séculos III e IV,nos quadris das dançarinas da Polinésia e nas vestimentas dos indios no México, Peru e Brasil. As pinturas de Debret que datam de 1827/30 nos mostram franjas elaboradas ornamentando pernas e braços de elegantissimos nativos. No começo os fios eram de fibras mais primitivas. Veio o linho, a lã, a seda, o fio de ouro e nos tempos mais modernos e com menos graça e menor preço surgiram as fibras sintéticas. Sorte que nos dias de hoje, de criatividade abundante e na onda de um certo “revival” da velha passamanaria desde sempre associada ao décor clássico, já se inventa uma outra, de linguagem moderna e que, apesar de exigir do artesão a mesma maestria manual, é feita com materiais originais e detalhes inesperados como pedras, cristais e o que a imaginação bem entender. Obvio que existem debruns, franjas e galões feitos em teares computadorizados, mas como na alta costura o produto realmente de luxo e qualidade ainda vai ser aquele que exigiu a maestria manual, aliás cada vez mais difícil. Daí a escassez de ateliês especializados e os preços muito altos.
Conta a história que São Luis, Rei de França, assim que retornou de uma cruzada na Turquia onde se encantou com os suntuosos adamascados e brocados orientais, em 1268, resolveu fazer uma reorganização dos ofícios artesanais parisienses identificando-os no famoso “Livre des Metiers”.Ali não há menção a palavra passamanaria,introduzida bem mais tarde no vocabulário dos decoradores, mas sim aos “crepiniers”, aqueles que faziam aquela franjinha bem curta e cheinha que conhecemos como marabú. Consta que em 1292 havia em Paris 32 crepiniers...
A seguir surgiram os “laceurs de fils d’or” ou tecelões de fios de ouro, dedicados a fabricar alças,cordões, galões e pingentes para engalanar arreios e selas de cavalos, assim como para embonecar as camas com dossel e cortinados. Foi mais tarde, já no século XVII que a passamanaria passou a ser presença quase obrigatória no mundo dos estofados e cortinas.
Na metade do século XVIII, Paris, já então centro do mundo fashion e do luxo, propiciava emprego para um total de 735 “rubaniers” ou cordoeiros e 530 “passementiers” ou passamenteiros. Apesar do Terror e da Revolução Industrial, Paris tinha em 1900 ainda 70 ateliês, sendo que apenas um terço deles sobreviveu até os anos sessenta. Hoje,se conta na mão os que sobreviveram. Quase sozinha está a Passementerie Nouvelle, há cinco gerações sob o comando da família Declercq.
No Brasil, mais precisamente em São Paulo, sobrevive e se renova, abrindo para exportação mas sempre preocupada em renovação de mão de obra qualificada, a Passamanaria Chacur,(www.chacur.com.br) fundada em 1918 por Wadih Chacur, bem administrada em seguida por seu filho Julio e hoje a cargo da terceira geração desta família imigrada da Turquia. Ali,como nos velhos ateliês europeus, se tinge os fios de acordo com as cores dos tecidos e, sendo o produto customizado, como diz Silvia Chacur,hoje com a irmã Magda a frente dos negócios, não há limites para a criação. São delas importadores e clientes, além dos mais conhecidos decoradores brasileiros, Peter Marino, Christian Liaigre e Robert Allen. Houve um tempo, lembram, há poucas décadas, em que as próprias donas de casa iam até a fabrica para escolher e encomendar passamanarias que combinassem com seus sofás, poltronas e cortinas.
Hoje, que os grandes lustres voltaram a moda, há mais encomendas das chamadas coberturas,tubos tecidos que escondem os fios e a corrente que pende do teto e terminados por uma tulipinha no alto e junto ao lustre.E que mais que tudo da ao lustre, como num passe de mágica, classe e qualidade instantâneas.
Historicamente haveria duas escolas de pensamento em relação a passamanaria. A primeira é que ela deve se sobressair, se destacar vivamente do que estiver adornando. A segunda, considerada mais tarde como de estremo refinamento,é que ela deve se fundir no conjunto. De uma maneira ou de outra e apesar de dependente do que adorna e da idéia redutora de não passar de mera terminação,fato é que ela continua poderosa, capaz de embelezar,realçar, refinar e transformar.

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