ELA TRADUZ O QUE É BRASIL (17 de setembro de 2006)

Potes de cerâmica que Janete usou
na decoração do Hotel Caesar´s Park
Destaque para o artesanato nos
pedaços de vidro que formam o biombo

A casa da arquiteta, no Rio, com
coleções ímpares, como a de Lalique
Janete Costa

Um canto na casa de Janete onde o
antigo, o moderno e o artesanal se misturam

Espaço do Hotel Sheraton,
no Rio, decorado por ela


Painel no lobby do Caesar´s Park, com
as árvores-esculturas de Zé Bento
Área de estar do Caesar´s Business, em São Paulo

          

Uma das mais respeitadas arquitetas do país, Janete Costa sabe aproveitar o artesanato na decoração.

Pode-se dizer que no colo de Janete Costa cabe o Brasil inteiro. Nao é a toa que certa vez declarou- “Sou do tamanho do que vejo e não do tamanho da minha altura. Pernambucana de Garanhuns, descendente de portugueses, Janete tem a força e a determinação da brava gente nordestina. Sem medo se aventura, se desloca em aviões país a fora, acredita, decide, ousa e faz acontecer.
Foi por volta de 74 que conheci Janete; arquiteta, casada com seu ex-professor de arquitetura e conhecido arquiteto Acacio Gil Borsoi, em Recife. Levada a sua casa por amigos, descobri uma mulher encantada com o ser humano, fascinada pelo artezanato, pelo moderno, pela forma do objeto, pelo design de móveis e pela gastronomia num jantar de comida abundante e colorida. – “ Cozinhar é uma forma de hospitalidade, um jeito de juntar gente perto da gente, de mostrar o sabor e a cor daquilo que você faz. A comida é um depoimento que fica no imaginário.”
Sobre a capacidade de fazer de Janete, basta dizer que organizou e foi curadora de cerca de 40 exposições, fez projetos de interiores de 14 bancos, 23 escritórios, ao menos uns 62 hoteis e apart-hoteis, 33 halls e salões de festas de edificios residenciais, 190 interiores de casas, fora cinemas, lojas, museus, restaurantes, salas vips em aeroportos, clubes e auditórios. Do Recife a Porto Alegre, passando por Brasilia, Rio e Sao Paulo e incursões também pelo exterior, Portugal, Paris e Nova Iorque.
Janete Costa foi talvez a primeira profissional no Brasil a usar objetos do artezanato e da arte popular brasileira na decoração moderna de interiores. Explica esse seu interesse como uma forma de reconciliação com a própria infancia numa região pobre onde não se tinha acesso a quase nenhum produto industrial. Bebia agua em tijelas de barro e brincava com bonecas de pano. Um passado que, na medida em que crescia, preferia esquecer e desejava que ficasse longe. Apenas bem mais tarde foi que percebeu a grande riqueza cultural, o sincretismo e a beleza desses objetos com os quais havia convivido e que passaram a estar presentes em seus trabalhos ao lado de vasos finlandeses, cadeiras Thonet, luminarias Noguchi, moveis de Mies Van der Rohe ou aqueles projetados ao longo da vida por ela mesma.
Informada, lida, viajada, acredita que um bom arquiteto deve conhecer profundamente a pintura e a escultura, os movimentos artisticos e a estória do movel e da arquitetura para poder chegar a compreensão do objeto num determinado espaço e sua interrelação com o homem. Seja ele um objeto encontrado no ultimo o salão do movel de Milão ou uma peça encontrada num canto perdido do Brasil, receberá de Janete o mesmo tratamento, sera igualmente valorizado, independentemente de seu custo.
Articulada e instigante, expressa bem suas idéias e conceitos. Num pais pobre onde os orçamentos são curtos acha que é preciso improvisar, muitas vezes produzir aquilo que vai ser usado num projeto, desde objetos de iluminação a moveis e estofados. Pelos quatro cantos do Brasil preparou artezãos, redirecionando-lhes a vida, deixando rastro. Defender o artezão foi sempre uma finalidade assim como eliminar do artezanato o estigma da comparação com lembrançinha ou souvenir. Didática também com o cliente, faz questão que ele compreenda e valorize a qualidade daquilo que está adquirindo.
São mais de 50 anos de trabalho. Recentemente tem se dedicado mais ao setor hoteleiro, do hotel-design a projetos para grandes cadeias internacionais. Não gosta de espaços “standard”, que não tenham cara propria, que não reflitam o lugar onde são realizados. A primeira coisa que faz quando chega a uma cidade nova é visitar o Mercado local. É onde pode sentir o pulso do lugar, perceber o que alí é verdadeiro e autentico e que depois, inspirada, tentará transpor para o projeto.
Janete, com sua paixão pelo objeto, acabou por se tornar dona de grandes e multiplas coleções guardadas ou expostas em também suas multiplas residencias. Em sua casa antiga de Olinda, no apartamento de Sao Paulo ou na super moderna do Rio de Janeiro na Av.Niemaier com projeto assinado pelo marido. Variadas, essas coleções podem ser compostas por cabeças de santos de roca, peças africanas, moveis art-deco, cristais laliques, vidros Schneider, barcos de arte popular, cálices de prata escondidos atrás de portas de um belo armário de igreja e por ai afora. Seguidamente empresta peças para exposições no Brasil e no exterior, muitas delas de sua propria curadoria. Lamenta que numa dessas andanças tenha desaparecido uma maravilhosa cadeira de balanço de Joaquim Tenreiro. Sua coleção de vidros gigantes de farmácia, com 56 peças, acaba de ser adquirida pelo Museu Brennad em Recife. Tem também espalhada muita arte contemporanea como pinturas de Tomie Otake, Rubem Valentim e esculturas de Ascanio Monteiro e Franz Weissman entre tantos outros artistas já consagrados. Isso fora moveis antigos brasileiros e os modernos de Makintosh , Charles Eames e dos mestres da Bauhaus. Queixa-se desse acúmulo: - Exige uma curadoria permanente. Estou planejando doar muita coisa para o Museu do Homem do Nordeste no Recife.
Incansável, Janete fez recentemente o gabinete do Presidente da Academica Brasileira de Letras no RJ e inaugurou há menos de um mes uma grande exposição de arte popular em Porto Alegre a pedido do Banco Santander, reunindo obras de conhecidos colecionadores brasileiros e algumas peças dela própria. Tendo atinjido os 70, promete diminuir o ritmo de trabalho e se dedicar `a revitalização do artezanato brasileiro de modo a que ele possa atingir de fato, como o indiano, o mercado nacional e internacional. Acredita que é preciso desenvolver a qualidade técnica do produto, `as vêzes mesmo modificar um pouco o design para atualizá-lo a novas funções e circunstancias. –“O artezanato pode gerar caminhos, ganhar um novo momento, gerar emprego, gerar sobrevivencia” No momento o que mais deseja é desenvolver projetos culturais nesse sentido, que levem `as pequenas cidades onde já existe tradição de artezanato mas que não conseguem atingir o Mercado, os meios para essa inserção. –“Basta pequenas interferencias e sugestões para que depos possam surgir trabalhos lindos, mais adequados ao uso e a exportação.” Janete lembra de um comentario de Clarival do Prado Valadares sobre o fato de muitas peças do artezanato popular parecerem anacronicas mas na verdade seriam arcaizadas pois seus autores vivem ainda no passado, sem acesso a informação. Janete acredita também na vocação artezanal de cada região . –Em Pernambuco onde temos tradição na ceramica temos também uma grande industria de ceramica. Não faz sentido levar para uma região com vocação textil uma industria de aço, por exemplo. É preciso trabalhar dentro da vocação.”
Os belos jardins de sua casa carioca são de autoria de Roberto Burle Marx, seu grande e saudoso amigo. Sobre ela o famoso paisagista deixou escrito: O amor de Janete pela profissão faz parte de sua estrutura intima. Está sempre em busca de uma expressão nova, misturando as emoções que vão surgindo através da vida e exteriorizando naquilo que faz. Desde que a conhecí não houve um momento em que a banalidade a dominou. Conviver com Janete é renovação, é ternura, é compreensão e enriquecimento nessa vida que vai passando.

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