DOSES LOUCAS DE LUXO (07 de janeiro de 2007)
![]() |
| Sala de jantar de Henri Kravis, em NY, com paredes marmorizadas e malduras de gesso contrastante |
![]() |
| Vincent Fourcade |
![]() |
| Cama Império e quadros pendurados uns sobre os outros |
![]() |
| Salão do apartamento de Fourcade e Denning, em Paris, a cor vermelha só aparece no biombo, nesse quarto tem cama Império e os quadros são pendurados uns sobre os outros |
![]() |
| Peça que pertenceu à dupla: gueridon Regência |
![]() |
| Salão dos Kravis, cores fortes e brocados |
![]() |
| Outra peça da dupla: Astrolábio |
Vincent Fourcade e Robert Denning apostaram na opulência para fazer fama em decoração nos EUA.
Nascido em berço esplendido em 1934, numa família de estetas franceses, Vincent Fourcade passou a infância e juventude numa casa de 20 quartos cheia de requintes e moveis assinados. E aos 24 anos, para se dedicar ao décor de festas magnificas, deixa para traz a carreira de banqueiro. Pois foi numa dessas noites de opulência e muito luxo, onde o assoalho foi forrado por ele com mais de cem casacos de raposa, que em 1959 conheceu o futuro sócio e companheiro Robert Denning, então trabalhando com fotografia. Juntos viveram em Nova Iorque por 33 anos e fizeram fama decorando casas de velhos e novos ricos nos anos 80, um período de enorme expansão econômica nos Estados Unidos.Não demoraram a concluir que excesso fazia sucesso: - Nossos clientes adoram o luxo exagerado. Alias, os ensinamos a escolher esse excesso.
Na verdade, este estilo que cheira a dinheiro, calcado no chamado “gosto Rothschild”, a maneira quase padrão com que eram decoradas as múltiplas casas desta famosa família de banqueiros com ares de luxo otomano e vestidas em sedosos estofados “Second Empire”, Fourcade aprendeu, como ele mesmo dizia, freqüentando a sociedade desde jovem, saindo todas as noites e visitando casas na Itália, França e mundo afora. Com fantástica memória, era capaz de descrever com minúcias objetos que viu sobre os moveis os mais variados; as paredes marmorizadas e emolduradas, as boiseries, os tetos tapissados ou pintados como o céu, as folhas de acanto, os parquês, as janelas olho de boi, enfim tudo o que veio depois a aparecer em seus próprios projetos. A dupla não perdia uma oportunidade de dourar e embonecar, mas sempre preocupada que esses interiores dessem a impressão de que evoluíram através das gerações e que nunca teriam sido tocados por um decorador. A idéia , esclarecia Denning, era dar ao dinheiro proveniência e ao todo uma atitude de grandeza bem inglesa, ou seja, bem casual.
Fourcade também podia se inspirar nas aquarelas do sueco Carls Larson, nas antigas casas das ricas famílias da Carolina do Sul ou na arquitetura neoclássica do famoso alemão Karl Friedrich Schinkel. Vincent era o sonhador, Robert o mão na massa.
Sem duvida elegantes, seus interiores atraíram clientes sofisticados como os milionários franceses Helene e Michel David-Weill, a herdeira da Fiat Suzana Agnelli e o designer de roupas Oscar de la Renta então casado com Françoise e para quem desenhou um espelho com moldura de pele de crocodilo. Nesses salões adentrariam os enormes bronzes de Gianbologna , as terracotas de Clodion, móveis de época assinados por Adam Weisweiler, Georges Jacob e Thomas Hope e luxuosos ascessorios como os belos tapetes Napoleão III, as lindas cúpulas de abajur em seda plissada e franjada, e os fabulosos damascos papais de seda e veludo bem a la Vaticano. Os “throws,” sempre de pele de raposa eram uma marca, assim como a presença em qualquer ambiente de algo vermelho.- “Uma sala sem um toque de vermelho é como uma mulher sem baton” cansou de dizer Fourcade.
Um apartamento que deu o que falar foi aquele criado pela dupla em Nova Iorque para Caroline Rohem, então casada com o milionário Henri Kravis. Talvez o mais emblemático da riqueza dos anos 80, foi reproduzido no filme “A Fogueira das Vaidades” e a sala de jantar virou capa de um suplemento dominical do New York Times cujo tema era receber. Tanta controvérsia em torno do estilo de vida espantosamente luxuoso do casal e tantas cartas de leitores enfurecidos fizeram com que na semana seguinte a revista viesse com reportagens sobre a alegria de preparar você mesmo piqueniques familiares. Vincent Fourcade, que com este apartamento de paredes marmorizadas, cores intensas, ricos brocados e móveis “boulle” e “ormolu” selava definitivamente o seu talento para a produção do “grand luxe”, só fez se divertir do alto do seu olhar aristocrático.
Já Robert Denning que nasceu no Bronx, numa casa onde as lâmpadas pendiam em fios do teto e o almoço consistia num ovo duro dizia com humor. –“Minha mãe não acreditava em variedade.” Complementares, Denning pensava no efeito geral, nas cores e na disposição. Fourcade se preocupava mais com o pedigree que o ambiente emanaria. Ambos respeitavam mandamentos por eles mesmos decretados como jamais colocar sofás contra paredes. Gostavam de ambienta-los “back to back”, ou seja, de costas um contra ou outro. Nunca nada branco, exceto lençóis. Textura e estampa tinham de funcionar como surpresa.
Gostavam de sofás “Chesterfields”, aqueles ingleses em geral de couro e cheios de botões e com encosto largo que impedem que cabeças toquem no quadro ou na tapeçaria na parede atrás. Também de colocar muitos óleos antigos nas paredes, uns embaixo dos outros, num arranjo típico de casas inglesas em que tantos são herdados e só assim para acomodá-los. Nas mesas de frente de sofá era preciso haver lugar tanto para pés como para os drinques.
Vincent faleceu em 1992, aos 58 anos. Seu quarto em NY viria a ser usado por Robert para pequenos jantares. Denning gostava de cozinhar e recebia os amigos de avental e colher de pau na mão. A porcelana era Spode, os talheres de prata inglesa “Georgian” e para guardanapos usava panos de prato listrados de vermelho e bem dobrados. Com mania de belas cúpulas, forradas , plissadas e debruadas, as tinha no final da vida estocadas no espaço de um chuveiro e vez por outra oferecia alguma aos amigos. Manteve bem cuidadas as duas “bergeres” iguais em seda e passamanarias fabricadas por Tassinari&Chatel, tradicionais fornecedores de Maria Antonieta e nas quais a dupla se sentava lado a lado nos bons tempos de vida conjugal . Em agosto de 2006, depois de quase 14 anos sem o amigo e sócio, recostado na cabeceira de sua cama em seda verde tapissada com163 botões, Robert Denning morreu trabalhando, ao telefone com um fornecedor de tecidos do outro lado da linha. Em maio deste ano a casa novaiorquina de leilões, a Doyle, dispersou para sempre e a preços surpreendentemente maiores do que os estimados no catalogo, estas pequenas e caras lembraças do efêmero. Um par de urnas compradas em Paris por $100 dólares e que uma assistente dizia serem feias demais até para nelas se colocar cinzas foi vendido por $22,800 dolares. Um astrolábio oriental antigo em metal polido, um presente da amiga e cliente Jane Wrigthsman, grande amiga de Jackie Kennedy, saiu por $33 mil dólares. O “gueridon” regency do século 19 com tampo de mármore com ébano e dourado por $24 mil e o par de apliques Luis XVI em bronze dourado a ouro por $39 mil. Excessos que, pelo visto, ainda fazem sucesso.







Comentários
Postar um comentário