CHIQUE ALÉM DO TEMPO (19 de fevereiro de 2006)
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| Biblioteca (1929), com paredes forradas em couro e unidade de cores |
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| Hall com bandeau triangular (1926) |
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| Vestiário feminino com paredes forradas de tecido e espelhos com frisos |
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| Frances Elkins |
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| Fato nada comum em 1930, um quarto todo azul e branco com paredes, escrivaninha, colcha, poltrona matelassé e cortinas no mesmo tecido estampado |
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| Veludo cotelê salmão que Frances projetou para o salão, em 1939 |
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| Paredes e cortinas drapeadas em veludo amarelo, luminárias a la Giacometti, cadeiras forradas em veludo cereja e toalhas de linho rosa |
Francis Elkins, que revolucionou os interiors nos EUA, tem seu trabalho enaltecido em livro.
Na esteira de decoradoras mulheres inaugurada por Elsie de Wolfe no começo do seculo XX, uma das mais proeminentes e que acaba de ter o seu trabalho reconhecido como “intemporal” num belo livro “coffee table” recém lançado nos Estados Unidos, é Francis Elkins (1888-1953). Com a ajuda de seu irmão, o bem sucedido arquiteto David Adler que lhe treinou o olhar e lhe trouxe a oportunidade de decorar muitas das casas que ele construiu, ela ficou conhecida como alguém que revolucionou os interiores americanos unindo peças tradicionais ao que era vanguarda na época, com cores vibrantes e efeitos inesperados .
Tal como o irmão que estudou em Paris na Ecole de Beaux Arts e depois se tornou o preferido das familias endinheiradas de Chicago, Francis Elkins teve sempre oportunidade de passar temporadas na Europa e de alí fazer contatos profícuos e duradouros com designers e artistas. Amiga de Alberto Giacometti e de Jean Michel Frank, acabou por se tornar a representante exclusiva nos Estados Unidos das criações deste último que tanto usou em seus próprios projetos.
Sua primeira casa depois de casada, a Casa Amesti, em Monterey na California, onde morou por 35 anos e que tinha estrutura classica e simétrica, lhe serviu de show-room e cartão de visitas. Alí, as chinoiseries, os bambús, a mistura de móveis ingleses, franceses e tapetes chineses e mais os seus azuis, amarelos e brancos chamaram a atenção por uma certa irreverencia. Com liberdade e ousadia ela usaria mesas art-deco de Jean Dunand, tapetes esculpidos de Marion Dorn, sofás e mesas de formas geometricas em espaços ainda muito tradicionais como eram aliás os criados por seu irmão, fiel ao neo clássicismo e que podiam ter estilo normando, georgiano, grego revivido ou mesmo tudor.
Além de introduzir cores contrastantes e inesperadas, Francis, muito aplicada e detalhista, se preocupava em dar novo tratamento a paredes e chãos. Para um certo impacto podia, por exemplo, desenhar uma grande estrela incrustada em tom mais escuro no centro de um piso em madeira clara. Na verdade o que ela conseguiu, era dar a esses ambientes clássicos, tão valorizados pela clientela, um aspecto novo e, de tão expressivo, fadado a não envelhecer. Nove casas feitas pelo irmão em Chicago passaram por suas mãos. Sensível `a arquitetura, projetava os interiores sempre buscando equilibrio, harmonia e qualidade. Lambris de pinho podiam forrar bibliotecas e servir de pano de fundo para cadeiras Luis XV. Nesse ambiente ainda podia colocar tapetes marroquinos e mesas baixas de Jean Michel Frank. Um sofa vitoriano podia sobreviver em meio a tecidos azuis e vermelhos. Era capaz, como fez em Sao Francisco numa mostra de interiores, para a sala de jantar de um clube, de fazer cortinas e forrar paredes com veludo amarelo drapejado contrastando com cortinas de rolô de listras azuis e brancas. Sem medo de errar escolheu um rosa claro para as toalhas de linho que cobriam as mesas e as cadeiras brancas e retas foram forradas de veludo vermelho cereja. Isso em 1939.
Bem antes, em 1926, na casa de Lester Griffins, enorme e colonial, Francis misturou móveis Chippendale com espelhos Queen Anne, biombos Ming, lampadas modernas de Jean Michel Frank e Salvador Dali e chocou escolhendo um veludo cotelê pessego para forrar os sofas consciente de que seria a cor ideal para quebrar o preto de mesas laqueadas e do biombo coromandel e outros moveis de cor marfim que se misturavam no ambiente. Outro projeto, este considerado sua obra prima, foi a da casa de Mrs Kersey Coast Reeds, na Pensilvania, também com arquitetura de seu irmão David. Ali, Francis colocou mármore preto e branco no hall de entrada que levaria ao toalete feminino onde as paredes foram forradas em lambri laqueado de amarelo e intercaladas por espelhos debruados de prateado. As cortinas também amarelas, eram de seda , matelassadas e com debruns em passamanaria. O chão preto de ébano ganhou pequenos entalhes quadrados em aluminio. Já o toalete masculino foi um estudo em torno de Jean Michel Frank. Poltronas retas em couro, mesas forradas de pergaminho e luminárias e apliques de parede em gesso. Em cima da lareira uma escultura de Alberto Giacometti. Já a sala de jantar tinha paredes forradas de papel chinoiserie e na sala os sofás e poltronas foram forrados com chintz estampado. Na biblioteca, talvez o mais extraodinario de todos os seus trabalhos, Francis usou uma paleta monocromatica. As paredes foram forradas em couro de cabra Hermés e nas estantes embutidas a maioria dos livros foi encapada com folhas de pergaminho e tinham uma pequena abertura para os titulos. Uma mesa inglesa antiga de jogos, quatro poltronas “club” desenhadas pela decoradora, uma presença, alias, constante em seus projetos, uma lareira em pinho importada, portas e outros detalhes também em pinho complementavam o sofa e a poltrona retos de Jean Michel Frank. Mrs. Reed, a dona desta casa e grande admiradora de Francis, ali morou sem fazer nenhuma alteração, durante cinquenta anos. A fama de criadora de interiores “intemporais” não só se justifica como o que ficou de seu trabalho continua a atrair e a inspirar estudantes e profissionais .
Embora `a época seu trabalho não fosse tão publicado em revistas como o de outras profissionais, o que segundo a jornalista Dorothea Walker se poderia atribuir ao fato de Francis ser judia em meio a uma elite protestante, hoje os moveis, tecidos e papeis de parede que desenhava estão entrando no circuito comercial. No centro de Los Angeles uma loja de decoração começou a reproduzir uma de suas peças assinadas, uma poltrona de 1930, inspirada num desenho georgiano do seculo XVIII e que Francis, ao laquear de branco lhe conferiu modernidade e uma nova atitude.
Sobre ela disse um discipulo, o conhecido decorador americano Toni Duquete: - Ela era cique com “c” maiusculo. Conhecia a arte de viver, as artes vivas e ela viveu, viveu, viveu”.







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