CASANDO BRANCO COM BRANCO (05 de fevereiro de 2006)


Salão branco da casa de Syrie, em Londres

Palmeiras em gesso de Serge Roche
e luminárias de Giacometti

Quarto com detalhes neoclássicos
Syrie, sempre de tailleur preto

Syrie Maugham misturou leveza e feminilidade
em tons de verde com as linhas retas
dos sofás e mesas de Jean Michel Frank

          



Syrie Maughamm tinha obcessão pelo “não” cor, e escreveu seu nome na história da decoração com esta ousadia.


Embora já houvesse quem trabalhasse com branco, foi a inglesa Syrie Maugham casada com o escritor Sommerset Maugham, quem definitivamente colocou essa “não” cor , que pode ganhar tantas feições e tons variados, na agenda da decoração.
Foi sua propria sala de visitas na casa de Kings Road, executada em 1927, e que ganhou dois anos depois reportagem de capa na Harper’s & Queen causando sensação, o que a tornou famosa e fixou a imagem de um novo estilo . Ali, com brancos variados, ousada, ela pintou paredes, fez capas de cetim para sofás, esses já com formas retas e modernas, cúpulas de abajur em veludo, forrou capas de livro com pergaminho , poz no chão tapetes de lã e nos vasos lírios em profusao. Nesse ambiente todo branco, glamuroso e refrescante , com elementos que ela se manteria usando ao longo dos 25 anos de sua carreira profissional, havia muito espelho e cristal, o que como dizia uma sua amiga, “faziam o branco sorrir e brilhar”.
Grande anfitriã, conhecida por oferecer uma comida deliciosa a tais como o Principe de Gales, Sally Simpson ou Cecil Beaton, Syrie, que nessa altura estava entrando nos seus quarenta ( nasceu em 1879 e morreu em 1955) ja tinha, desde 1922, uma loja bem sucedida em Baker Street. Alí, os móveis que vendia, muitos em estilo provençal francês, passavam por um processo trabalhoso. Eram raspados, pintados em algum tom de branco e craquelados segundo uma sua receita secreta. A seus artesãos ordenava: Limpem e pintem de branco. Obcessiva, ainda da cama, pela manhã, ditava ordens a sua secretária sentada a uma escrivaninha em seu quarto. E era dentro do carro, ao voltar para casa, que achava tempo para orientar o gerente de sua loja. Bem sucedida, executou projetos na California e em Palm Beach e abriu lojas filiais em Chicago e Nova Yorque.
Consta que seus empregados não duravam. Nem tão pouco os maridos. O primeiro, 26 anos mais velho, foi o industrial Henri Welcome com quem teve um filho anormal, assunto tabú. Em 1913 Syrie conheceu Somerset Maughan e perseguiu-o até 1917 quando conseguiu que com ela se casasse. Esse casamento tão tempestuoso e falado durou até 1929. Apreciava a notoriedade do marido e nunca a deteve saber que ele tinha também relações homosexuais. Tiveram uma filha, Liza, que Syrie idolatrou a vida inteira. Dizem que o seu mais belo projeto foi para a casa da filha quando esta se casou em 1936. Depois vendeu sua propria casa e com Elsie de Wolfe partiu em viajem para a India. Uma amiga brincou dizendo que iriam pintar de branco o famoso buraco negro em Calcutá.
Contam as más linguas que quando Elsie de Wolfe, amiga mas também grande rival, passava por Londres, Syrie mandava esconder os móveis no porão da loja, não sabiam os empregados se por medo de ser copiada ou se para esconder que teria ela mesmo teria feito isso. Elegante, vestia em geral tailleur preto e blusa branca com babados e fricotes, sempre assinados Balenciaga ou Molineux. Era famosa também pelo preço alto que costumava cobrar. Valorizava o próprio talento mais do que a mercadoria que vendia. Era também muito relativa a sua reverencia por antiguidades. Importante era o efeito, a impressão geral. Na bucha teria ditto a um cliente: -“ Se você não tem dez mil dolares para gastar não me faça perder tempo”. Diz- se, no entanto, que podia ser muito generosa com os amigos. Com seu staff era aparentemente dura e temperamental. Era comum sair gritando:- “Je-e-e-sus! Corre também que teria atirado um pé de chinelo de cetim branco em Marion Dorn, a autora dos lindos tapetes de lã, brancos com desenhos brancos que tanto usava em seu projetos. Autoritária, seria capaz de mandar rebaixar um teto caso a quantidade do tecido com o qual queria forrar as paredes não fosse suficiente.
Os projetos de Syrie Maugham nem sempre eram brancos apesar da imagem projetada. Eram sim, decididamente urbanos. Nunca “pegaram” no tradicional campo inglês mas foram moda e sucesso absoluto nos Estados Unidos. Para a Duqueza de Argyll, em Londres, Syrie usou cetim azul claro em bancos, cadeiras e cortinas numa pequena sala aumentada ilusoriamente pelo espelho que revestia portas e pedaços de parede. Em uma de suas proprias casas de campo pintou as paredes de rosa, fez cortinas cor marfim e os móveis foram pintados de vermelho e verde maça.
Foi sempre fiel aos biombos espelhados com detalhes em madeira folheada a prata, altos ou baixos, aos talheres com cabo de porcelana branca, `as molduras de gesso branco, `as luminaria de pé de gesso branco em forma de palmeira de Serge Roche, cadeiras de sala de jantar com assento de couro branco e tapetes brancos que podiam ser de lã ou pele. Muito marcante, seu trabalho teria influenciado decoradores como Elsie de Wolfe, Jean Michel Frank e Francis Elkins. Há quem diga o contrario, que teria sido Jean Michel Frank quem despertou antes sua atenção. O biombo que escondia o piano em seu famoso salão branco é muito parecido com o que Jean Michel Frank colocou ao redor do piano no salão de Marie-Laure de Noailles em Paris. De qualquer modo, eliminar detalhes, simplificar, modernizer a forma foi premissa de ambos. O branco de Syrie Maugham, no entanto, foi decididamente seu, feminino, movimentado e sensual.

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