ARTE DE JUNTAR COM GRAÇA (05 de março de 2006)

Tinteiros antigos ou cortadores de papel compõem
belas coleções, aqui mostradas por Renée Behar
Cinzeiros, potes e biscoiteiras
em forma de abacaxi, de William Maluf

Há ainda quem perceba beleza nas variações de
texturas, tons e formas em novelos de barbante
Loja Jacaré do Brasil, uma coleção de banquinhos
em diversos tamanhos e formatos serve
de display para cachaças de diversas marcas

Coleção das decorativas e já tradicionais caixas Hermé

          

Colecionar, de objetos simples a raridades, faz parte da natureza humana e pode até dar novo rumo à vida.

Colecionar tem origens quase tão velhas quanto a humanidade. Se deixar seduzir por um objeto e tentar possui-lo podia ter razões espirituais e intelectuais. Os primitivos, por exemplo, podiam sair a cata de pedras que tivessem um buraco no meio acreditando serem especiais ou divinizadas pela natureza ou algum Deus. Juntar armas de Guerra ou enterrar os mortos com objetos de seu cotidiano podiam celebrar a vitoria ou a derrota, a vida ou a morte, assim como os tesouros acumulados pela Igreja tem por justificativa a glorificação de Deus.
O geito de colecionar mais parecido com o de hoje teria começado no século IV antes de Cristo, em seguida a unificação da Grecia, quando objetos vindos da Persia invadiram as casas helenicas. Foi, no entanto, no ano 27 AC, no início do Império Romano, que colecionar virou moda. Os forums de Augusto e Troia, carregados de obras de arte, equivaliam as Galerias Nacionais de hoje.
Na Asia antiga, Japão e China, colecionar era luxo de governantes e nobres, as coleções mudando de mãos a cada nova dinastia. No final da era Ming surgiu o primeiro digamos livro sobre o tema, o “Tratado sobre coisas superfluas” de Wen Zhenheng que ensinava como ganhar status e conhecimento juntando coleções importantes de pintura e caligrafia. Ali ele chega a sugerir `as mulheres que quizessem subir na vida que tratassem de juntar papagaios, peixes, faisões dourados, gatos ou perús.
O século XVIII foi o periodo de ouro do colecionador na Europa. É o seculo dos famosos “Grand Tours”, quando os ingleses descobriram a Italia, ali viajando durante meses e anos, aprendendo e armazenando grande parte do tesouro em livros, esculturas , pinturas e moveis que ainda decoram as grandes casas de campo da aristocracia. Já nos Estados Unidos foi no no final do seculo XIX que os americanos enriquecidos, até para exibir a fortuna e sua nova condição social, começaram a comprar, sobretudo na Europa, as grandes coleções que vieram depois a formar os mais importantes museus americanos. Foi a coleção de John Pierpoint Morgan que deu inicio ao Museu Metropolitan que, mais tarde veio a receber grandes doações do também famoso milionário Andrew Mellon. Também a Pierpoint Morgan Library se deve a ele. Outro exemplo, entre tantos no pais inteiro, é a Frick Collection, também em Nova Yorque, um legado de Henry Frick, ja citado nestas paginas entre os cliente da decoradora Elsie de Wolfe.
Hoje, colecionar continua a ser atividade apaixonante mas pode também virar mania e compulsão. Já se diz estar acometido de “colecionite” sobre alguém obcecado. A caça ao objeto, a esperança em consegui-lo e sua obtenção é uma maneira de focar a emoção e pode demostrar desejo de controle. Há, no entanto, lados muito positivos como despertar um maior conhecimento sobre certos temas e também juntar pessoas com interesses comuns, assim como pode propiciar a preservação de objetos hoje aparentemente sem valor mas de futuro valor histórico.
Colecionar deixou já há muito de ser um brinquedo de ricos. Nos Estados Unidos e na Europa, segundo as estatisticas, uma em cada tres pessoas coleciona alguma coisa. Muitas belas coleções de objetos inesperados são hoje o resultado de um olho treinado, capaz de ver beleza , qualidade e valor em coisas que passariam desapercebidas para o comum dos mortais. Os dotados desse olhar sensivel vão, por tema, cor ou material, saber agrupar com equilibrio e proporção, ou seja mostrar capacidade de “display”, hoje tão importante na montagem de qualquer exposição, no comércio e na decoracão de interiores.
Poucos colecionadores são decoradores profissionais mas o bom decorador seria um colecionador em potencial, com capacidade de juntar objetos sem especial valor intrinseco, mas agregando-lhes charme, força e maior interesse.
Uma coleção é certamente reveladora da personalidade de quem a junta. Os colecionadores podem ser classificados por categorias. Há os “antigômanos”, seduzidos pelo fato do objeto ter um passado. São em geral eruditos e interessados por história. Os “herdeiros” são os que manteriam as coleções por uma questão sobretudo de perpetuar a tradição da familia. Muitos nesta situação se preocupam com o display e em dar um aspecto mais dinamico e novo ao conjunto. Aos “perfeccionistas” só o objeto perfeito interessa. Intransigentes, vão exigir raridade, nenhum defeito, beleza ou aspecto exepcional. Já os “naturalistas” vao se deixar seduzir pelo mineral, o vegetal ou o animal. Fascinados pela magia da natureza, vão se interessar por fósseis, conchas, plumas, flores, animais que podem ser empalhados ou mantidos em formol. O trabalho do famoso artista plastico ingles Damien Hirst, que ganhou o Turner prize com uma famosa vaca cortada ao meio e mantida em formol e que tem trabalhos que são peixes conservados em pequenas vitrines são uma evocação dessa pratica milenar .
Há também os que se apegam `a beleza simples, aos objetos praticos e familiares do quotidiano. Sao os “utilitaristas”. Para eles o funcional passa a ser decorativo, sobretudo se mostrado com talento como por exemplo diversos rolos de barbante em diversos tons, origens,tamanhos e texturas agrupados num conjunto coeso. Podem juntar chaves, rolos de massa, merendeiras, qualquer elemento do nosso dia a dia. Já os“bibeloteiros” seriam os filhos espirituais dos velhos donos dos legendarios gabinetes de curiosidades da Renascença que tanto valorizavam o minusculo. De madeira,vidro ou cristal, se botões, caixinhas, medalhas, não importa, tudo se pode misturar desde que pequenino. Já para o tipo “apaixonado” cada coisa sera unica. Impulsivos, simpaticos e de mutltiplos talentos estarão sempre prontos a começar uma coleção. De móveis a livros, de objetos de arte, a instrumentos cientificos, o que importa é estar entusiasmado. Os mais bibliofilos terão livros espalhados pela casa, ocupando o lugar de mesas, de cadeiras, servindo de apoio no dia a dia e juntando poeira. Há também os “exploradores”, que através do interesse por objetos estranhos que evocam povos e terras distantes se transformam em descobridores, se embrenhando em viagens reais ou fuçando em mercados étnicos e de antiguidades .
Se você ainda não coleciona, anime-se. Pode ser divertido e dar um novo sentido ao seu olhar.

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