A SAGA DE EILEEN GRAY (16 de julho de 2006)
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| Tapete com desenho geométrico |
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| Poltrona |
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| Mesa articulada |
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| Divã Pirogue |
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| Cadeira Transat, de 1927, em laca, couro e metal cromado |
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| Tapete com desenho de fita métrica |
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| As célebres poltronas Bibendum |
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| Biombo de blocos de madeira laqueada |
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| Eileen Gray |
Irlandesa, ela pertenceu à vanguarda no século passado. Desde então, influencia o design mundial.
Se tivesse nascido homen ou algumas decadas depois, Eileen Gray teria provavelmente se tornado arquiteta. O fato é que nasceu em 1878, num tempo em que se mostrar peculiar, vanguardista e sobretudo independente não era concedido `as mulheres. E apesar de ter sido criticada por suas “atrozes propostas” e de ter sido mesmo chamada de a irmã do Dr.Caligari, ela é hoje reconhecida, vendida e considerada uma das mais originais e influentes designers modernistas do século passado.Não estudou na Bauhaus nem desenvolveu seu trabalho a sombra de figuras como Le Corbusier ou Mies van der Rohe como fizeram algumas colegas também brilhantes como Charlotte Perriand e Lili Reich. Se sentia mais confortavel resolvendo a sós os seus proprios dilemas. Quando em parceria, era quem liderava.
Foi na Irlanda que nasceu, de familia com origens também na Escócia; o pai artista amador e a mãe aristocrata. A mais nova de quarto irmãos teve a oportunidade de acompanhar o pai em tours de pintura pela Italia e pela Suiça. Matriculou-se na Slade School of Arts em Londres mas em seguida a morte do pai em 1900 foi para Paris e ali cursou a Academie Julien retornando a Londres cinco anos depois quando a mãe adoeceu.
Foi nesse período que, não satisfeita com apenas aulas de desenho e pintura, resolveu aprender os rudimentos da verdadeira laca, aquela com uma camada de tecido e oito de tinta , técnica na qual se especializou e lhe permitiu criar os famosos biombos que revestiram paredes inteiras das casas de colecionadores parisienses. Primeiro conseguiu que um restaurador de biombos laqueados no Soho a aceitasse em seu ateliê e, mais tarde, de volta a Paris em 1907, foi estudar com o japones Seizo Sugawara que com ela veio a trabalhar por tanto tempo.
Foi somente em 1913, já dona de um apartamento no numero 21 da Rue Bonaparte, que Eileen se atreveu a participar com seus painéis laqueados de um Salão de Artistas Decoradores. De tão originais, chamaram a atenção da Duquesa de Clermont-Tonnerre e do costureiro Jaques Doucet que adquiriu um deles e encomendou várias outras peças de laca para seu apartamento em Paris.
Deflagrada a Primeira Guerra, Eileen foi para Londres levando consigo Sugawara e apesar de um artigo favoravel na revista Vogue, seu trabalho não causou ali maior impacto. Não fosse o suporte economico da familia a dupla teria certamente falido e não teria conseguido regressar a Paris em 1917, depois do Armisticio, quando Eileen foi contratada para fazer o apartamento na Rue de Lota da bem sucedida modista e também bem casada Suzanne Talbot ou Mme Mathieu Lévy. Foi um dos mais importantes trabalhos de Eileen, e que envolveu design e execução de moveis, tapetes, apliques de luz e varias paredes inteiras laqueadas. Alí a peça mais espetacular era a cama Pirogue, em forma de canoa e laqueada de marron escuro e folhas de prata. Nesse trabalho, afinada com os novos tempos, pôde dar ao seu proprio design, até então essencialmente artezanal, um enfoque de mais rigor funcional, mais arquitetônico. Em jornais e revistas falava-se do triunfo do luxo moderno. E suas criações, tidas como bizarras, e excêntricas tiveram então seu grande periodo de glória.
Animada, resolveu em 1922 abrir uma galeria na Rue du Faubourg St Honoré para vender suas criações que teriam custo menor se a produção fosse de ao menos quatro peças. Não querendo aparecer como dona do espaço, inventou para a galeria o nome de Jean Désert, um proprietario ficticio. Ali eram vendidos não somente suas mesas de aço perfurado ou com prateleiras pivotantes, o espelho com luz por traz, a mesinha cujos pés podiam entrar por baixo da cama, desenhada originalmente para uma irmã que gostava de comer na cama, ou suas famosas poltronas de couro e aço tubular, mas também os moveis e biombos de laca que fazia com Sugawara, os tapetes que criava com Evelyn Wyld e as esculturas do amigo Osip Zadkine. Apesar de fãs e clientes como o Visconde de Noailles e Elsa Schiaparelli, as vendas não eram suficientes e a galeria fechou suas portas sete anos depois com os preços rebaixados.
Em 1923 Eileen resolvera novamente apresentar-se no Salão dos Artistas Decoradores de Paris, desta vez com um quarto-boudoir para Monte Carlo. Combinando paredes claras, carpete escuro, paineis de laca com desenhos abstratos e tapetes geometricos, conseguiu um efeito dramatico mas que se chocava com os interiores art deco tão populares então. A critica foi feroz. Eileen retraiu-se, mas ao mesmo tempo encorajada pelos elogios de Le Corbusier, Robert Mallet-Stevens, Walter Gropius da Bauhaus e dos arquitetos J.P.Oud e Jan Wils, lideres do movimento holandes de Stijl, resolveu ensaiar na arquitetura.
Em 1924, com o amigo Jean Bodovici, mais conhecido como critico de arquitetura do que como arquiteto, começara a trabalhar na costrução de uma casa que chamaram de E-1027 num penhasco sobre o Mediterraneo em Roquebrune no sul da França. Eileen não só desenhou os moveis como trabalhou na sua estrutura. Para ali desenhou a cadeira Bibendum inspirada nas pesquizas de Marcel Breuer com tubos de aço. Sozinha, fez depois o progeto de uma pequena casa para ela propria, Tempe a Paille, também na praia. Diante do desafio de desenhar e de morar numa casa tão pequena, desenvolveu uma comoda dupla face e cadeiras de dobrar que não invadissem o pouco espaço disponivel. Em 37 Eillen aceitou convite de Le Corbusier para se apresentar em seu pavilhão na Exposição de Paris com um projeto para um centro de lazer. Mandou o trabalho mas, cada vez mais reclusa, não compareceu `a abertura .
No sul ficou todo o primeiro ano da segunda guerra mas teve de retornar a Paris, ao apartamento por sorte intacto, e ao convívio apenas de um pequeno grupo de amigas mulheres. Veio a saber depois que Tempe a Paille fora saqueada e que o apartamento em St.Tropez onde guardara grande parte de seus pertences tinha sido bombardeado. Ainda projetou para si mesma um pequeno refugio na costa em St.Tropez. Se deixava esquecer justamente no momento em que Le Corbusier e Mallet-Stevens eram entronizados como grandes visionarios.
Somente em 1968 o nome de Eileen Gray voltou a baila, quando o critico Joseph Rykwert escreveu sobre ela na revista Domus. Em 1972, num leilão do conteúdo do apartamento de Jean Doucet em Paris ,os moveis que ela para ali havia desenhado foram vendidos a preços bem altos. A Aram Design, em Londres, resolveu, com desenhos de arquivo e a colaboração da propria Eileen, editar a Bibendum Chair e a mesa E-1027. Também Andre Putman na Ecart em Paris adquiriu os direitos e passou a reproduzir alguns dos moveis da designer.
Nos seus oitenta, ainda espantada mas já consciente desse seu “revival”, cuidava de reclamar quando via algum movel seu mal restaurado ou mal exposto em alguma mostra. Aos 92 anos foi vista tratando pessoalmente de organizar e enviar maquetes e arquivos que doara ao RIBA (Royal Institute of British Arquitects). Ao seu biografo Peter Adam confessou: -Temos de ser gratos a todos aqueles que se dão ao trabalho de nos desenterrar ou de ao menos preservar algo que criamos. De outro modo tudo seria destruido .
Em 1976, quando morreu no dia 31 de outubro aos 98 anos, a noticia foi anunciada na Radio Nacional Francesa. A prova simples da imagem enfim restaurada de uma mulher que soube perceber que novos tempos significam novas maneiras de viver e exigem toda uma nova forma de sentir e pensar o mundo. Foi, sobretudo, uma original.









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