A GRANDE DAMA DE DÉCOR (18 de junho de 2006)
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| Sofá Putman para a coleção Les Rainettes |
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| Sofá de Michel Frank reeditado por ela |
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| Mesa da coleção Preparation Meublé, do designer Robert Mallet-Stevens |
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| Cadeira empilhável |
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| Vidro do Preparation Parfumée, perfume criada por ela mesma |
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| Andrée Putman |
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| Mesa Eileen Gray |
A francêsa André Putman tem lugar de honra no panteão dos designers legendários. Decorou de apartamentos a butiques incluindo o avião Concorde.
Ela não diz a idade, apenas que nasceu entre as duas guerras. Figura imponente, elegante, voz rouca e cheia de energia, pode-se dizer que a francesa Andre Putman, sinonimo de ultra moderno e conhecida por um design intemporal, já conquistou seu lugar de honra no pantheon dos designers legendários.
A idéia da mãe é que se tornasse pianista e para isso foi treinada. Cedo, no entanto já mostrava que seus pendores eram outros. Pequena, esvaziou o próprio quarto, deixando alí apenas a cama militar da era napoleonica . Dois anos depois convencia a mãe a comprar duas cadeiras Mies Van der Rohe e uma luminaria Nogucci.
Nascida no sexto arrondissement, onde alias vive até hoje, Andre Putman foi desde cedo exposta as artes e aos artistas. Dar de cara no Café de Flore com Jean Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Giacometti, Antonin Artaud era rotina, quase um seu dia a dia. Natural que seguisse, ela mesma, a trilha criativa.
Jovem, foi trabalhar numa revista feminina e alí, inovadora começou a sugerir lugares outros para as fotos de moda que até então eram feitas em estúdio. Em 1958 foi convidada a criar no magazine Prisunic um departamento de design e é alí que começa a aplicar o credo que nunca abandonou, o da arte voltada para as massas, ao alcance do grande público. Conseguiu que amigos artistas produzissem litografias assinadas que eram vendidas por apenas 100 francos, E foi quando começou a desenhar pequenas peças de mobiliario. Para ela o belo não é verdadeiramente belo a menos que acessivel a todos, mesmo que poucos o escolham. Nada de interiores grandiosos, de reproducões estéreis de riquezas e nobrezas hipotéticas. Para ela o luxo se traduz por uma infinita atenção a detalhes e pela pureza da forma.
Em 1971, Andrée Putman se aventura com Didier Grumbach, hoje Presidente da Federaçao de Moda da França, numa empreitada que pode ser ainda considerada vanguardista. Didier, que esteve alias recentemente no Brasil partcipando do primeiro seminario de Marketing de Moda de Sao Paulo, convidou a designer para dirigir Createurs et Industriels, compania que visava o encontro entre os criadores e a industria. Era o começo não só do surgimento do prêt a porter que viria a substituir a alta costura,e tornar a moda acessivel assim como a possibilidade de designers de campos diversos alcançarem um publico maior. Varios nomes como Jean Paul Gaultier, Thierry Mugler, Issey Miyake e muitos outros hoje conhecidos, alî se lançaram como marca. Andrée, a diretora artistica da empreitada, rápido transformou a sede da empresa, um velho armazem de Estrada de ferro na Rue de Rennes, num elegante espaço ocupado por luminarias, jogos de porcelana, almofadas e vestidos de Jean Muir, Ossie Clark e outros editados por C&I. Os lugares nos desfiles que organizava eram disputados quase a tapa pelos compradores internacionais mas a falta de financiamento obrigou que após cinco anos de existencia a C&I fechasse suas portas. Apesar da frustração em relação a projetos abandonados, fora dada a partida na revolução do “prêt a porter”e na presença da arte na industria num mundo que se globalizava.
Foi nessa altura que Andrée, com dois filhos, gregária e notivaga, divorciou-se de Jaques Putman, um artista introvertido e avesso a sair de casa. Protegida e abrigada pelo amigo Michel Guy que viria a ser Ministro da Cultura, ela fez a decoração de seu apartamento botando abaixo paredes e fazendo-o livrar-se de velharias e de antigos conceitos. Grande admirador do vanguardismo da amiga resolveu promovê-la inclusive levando-a em viagens oficiais. Foi ele quem a estimulou a fundar em 1978 a bem sucedida companhia Ecart . Sem perceber ela estaria preenchendo um vácuo na história do mobiliario frances moderno. Não mais se reconhecia as criações Robert Mallet Stevens, Jean Michel Frank, Pierre Charreau, Eileen Gray, Charlotte Perriand e Mariano Fortuny. Aos poucos AP foi adquirindo os direitos de reprodução de uma serie de moveis e objetos dos anos 30 desses “avós do design” como ela diz e que, hoje resgatados são para nós tão familiares. Foi também na Ecart que ela começou a decorar interiores profissionalmente. Thierry Mugler encomendou-lhe sua primeira butique. Michel Guy um loft em Saint Tropez, Didier Grumbach um apartamento em Paris e outro em Nova Yorque. Em seguida fez as butiques de Yves Saint Laurent, de Balenciaga , o apartamento de Karl Lagerfeld em Roma até que ,quando em viagem a Nova Yorque onde frequentava o Studio 54, o restaurante Mr.Chow e o jet set, ao lado de figuras tais como Andy Warhol, Basquiat, Louise Bourgeois e tantos outros famosos, foi convidada para fazer o primeiro hotel butique de que se tem noticia , o Morgans em NY em 1984.
Recém saidos da prisão onde cumpriram pena depois do colapso fraudulento do Studio 54 e proibidos de ter qualquer negócio que vendesse bebida alcólica, Ian Schrager e Steve Rubbell, logo pensaram em Andrée para o novo projeto. Apesar do budget limitado e da reputação dos novos clientes ela se atirou de corpo e alma nesse trabalho minimalista que foi o que lhe trouxe de fato o reconhecimento internacional. Com azulejos baratos fez os famosos e ultra fotografados banheiros em xadres preto e branco. No Morgans, intocado desde então, estão até hoje em em todos os quartos as famosas cadeiras de Mallet Stevens, as fotos de Robert Mapplethorpe e as luminarias indiretas de Felix Aublet e Mariano Fortuny. O conceito é de que um hotel não tem de parecer uma casa longe de casa. Um quarto de hotel seria como uma gheisha. Precisa distrair, contar estorias e encantar com sua beleza. Segundo Putman a ideia é justamente que não se pareça com a realidade do nosso dia a dia.
É de Andrée também a frase que diz que o bom gosto não tem de custar caro. “De fato pode ser mais barato do que o mau gosto”. Andrée é pela harmonia e pelo contraste, pelo dialogo entre moveis e objetos independentemente de origem, proveniencia ou preço. Sua filosofia é de reconciliação e surpresa. “O inesperado dá ao espaço a sua propria energia”. Embora adepta do preto, chama a atenção para como um sofa preto e duas poltronas pretas podem num ambiente simplesmente matar o preto.
Depois de vinte anos deixou a Ecart Internacional: -”Foi meu segundo divórcio. Ambos foram terriveis”
Outros projetos de porte foram surgindo como o Pershing Hall, um hotel em Paris conhecido também por seu jardim vertical. Ali, os 26 quartos tem TVs plasma Bang&Olufsen, telefones sem fio, acesso ilimitado a internet, tudo cuidadosamente detalhado mas sem pretensão, a não ser a da simplicidade. Os moveis, desde as pias quadradas até as colunas de luz futuristicas foram customizados. Nunca parou. Veio o Palladium, uma boate em NY. Depois a bela loja de couros Connolly em Londres para Joseph Ettegui onde o mobiliario é flexivel e nomade num background com a neutralidade de um museu de modo a que o que esteja exposto fale por si só. Para a sede de uma corretora de imoveis em Monaco criou uma escada com blocos de vidro e iluminação por fibra otica que mais parece um belo colar a volta de um pescoço imaginario. Para Didier Grumbach reformou os escritorios da Federação de Costura de França que ele hoje preside. Foi chamada para restaurar dois predios de Le Corbusier na Suiça. Fez museus e centros culturais em Rouen e Bordeaux e em 1993 foi convidada a refazer os interiores dos aviões Concorde, então com pouco mais de vinte anos de existencia. Ao redesenhar os compartimentos de bagagem criou mais espaço. Melhorou a luz com iluminação indireta. No encosto das cadeira colocou capas de piquê branco inspirada em hábito que viu em taxis no Japão. O tapete azul no corredor fez com borda em preto e branco como se fora um mosaico. O guardanapo de puro linho foi embrulhado elegantemente em papelão corrugado barato.
Considerada em seu pais uma verdadeira Embaixadora do estilo e do design francês ela fez também, em epocas diferentes, a decoração dos gabinetes de Michel Guy e Jacques Lang quando Ministros da Cultura. Além de projetos em Shangai, Los Angeles, Alemanha e outros lugares do mundo, Andrée numa linha de decompartimentalização do design, elaborou joias para Christophe, um trofeu para a Liga do Campeonato Frances do Futebol e idealizou desde o cheiro `ao vidro, um perfume cult vendido na também cult loja Collete no Faubourg Saint Honoré e que chamou de Preparation Parfumé.
Segundo Andre Putman “não ousar seria já ter abdicado. Devemos buscar projetos ambiciosos, até os não realistas … porque as coisas só acontecem quando sonhamos”.
E Jaques Lang, o amigo ex-ministro, não se cansa de dizer que Andre Putman é ela propria uma obra de arte.







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