A DAMA DO CAMPO INGLÊS (22 de janeiro de 2006)

Sala de visitas na Coach House
de Haseley, última casa de Nancy
Os chapéus de Nancy denunciam
seu jeito vivido e informal de arrumar

Nancy Lancaster, decoradora referência do country

Sala de jogos como o papel chinoiserie
que tanto encantava Nancy e
ão usado nos interiores ingleses

Salão amarelo em cima
da loja Colefax & Fowler
Banheiro criado sob um vão de escada
com uma antiga cadeira percée
que esconde o vaso sanitário

          


Nancy Lancaster, uma Americana acabou se tornando a Referência das casas country na Inglaterra.

Incrivel é que tenha sido justamente uma americana a pessoa que conseguiu melhor projetar a hoje tão popularizada imagem do que chamamos English Country Style. Na verdade uma apaixonada por grandes casas e jardins e tendo tido a oportunidade de ser delas a dona, de nelas receber politicos e aristocratas e de decorá-las em parceria com os mais refinados decoradores da época, Nancy Lancaster acabou se tornando ela mesma, na Inglaterra no pré e no pós Guerra, símbolo de elegancia e de estilo de viver.
Nascida na Virginia, terra das grandes fazendas do sul dos Estados Unidos e das grandes familias anglo-americanas, e onde o avô possuia Mirador, Nancy Langhorne foi educada na França e cedo conheceu o ambiente refinado do campo ingles pois frequentemente visitava a famosa Cliveden House, onde vivia sua tia Nancy, casada com Waldorf, o Segundo Visconde Astor.
Em 1919, viúva de um americano com quem se casara meses antes, Nancy conheceu num navio aquele que viria a lhe permitir adquirir e viver nas casas que tanto a encantaram e ensinaram. Com Ronald Tree, ingles tentando a vida nos Estados Unidos , Nancy morou primeiro em NY na casa alugada de Ogden Codman, o autor com Edith Warton do livro de 1890 chamado The Decoration of Houses, considerado o primeiro de fato sobre o tema.
Em 1922 o marido lhe comprou Mirador e é alí que Nancy começa a se exercitar no que viria a fazer ao longo de sua vida, reformar e decorar casas. Adepta do que chamariamos hoje o “shabby chic”, alí usou e abusou do chintz velho e desbotado para uma atmosfera nostalgica das “plantations” americanas. Na casa de sua infancia morou alguns anos mas em 1925 o casal passou a viver mais tempo na Inglaterra. De uma época em que se viajava de navio carregando crianças , empregados, carros, lençóis de linho branco e até cavalos, era assim que Nancy e Ronald cruzavam o Atlantico para caçar nas terras da velha Inglaterra.
Alí, em 1926, depois de um tempo alugando Cottesbroke em Northamptonshire, compraram Kelmarsh Hall na mesma região, uma casa em estilo paladiano, construida em 1728, mas completamente destruida. Encantada por sua beleza e proporções, Nancy se atirou de corpo e alma em restaurá-la. Como boa americana, preocupou-se em construir banheiros, em criar suites e a equipar a casa com aquecimento central. Achando pequenas as torneiras comuns de banheiro, não hesitava em substitui-las pelas de tanque. Sempre com a idéia de que casas tem de parecer vividas, era capaz de colocar cortinas novas no chá, pintar madeiras para clarear o ambiente e fazia questão do que chamava “mouvement”, ou seja de um ritmo entre todos os elementos que não tinham de ser necessariamente combinados entre si. Avançada para a época, fez em Kelmarsh em 1927, um quarto todo branco, paredes, carpete e tecido adamascado da cama de dossel e das cortinas com detalhes prateados. Um tapete pele de zebra em frente a lareira, as mesinhas laterais laqueadas de preto, os detalhes dourados dos espelhos e o bronze das terminaçoes das cortinas quebravam o excesso de branco. Foi com a ajuda de Mrs Bethel, uma decoradora que fazia cortinas, de um tempo em que esses profissionais não viravam estrelas, que Nancy fez este quarto e terminou Kelmarsh. Mais tarde, em outras casas teve a ajuda de outros profissionais como Syrie Maugham, mulher de Somerset Maugham e que ficou conhecida por seu gosto e uso do branco numa época em que os tons eram sombrios, de Stefane Boudin que trabalhava para a famosa Jansen em Paris e mais tarde de John Fowler de quem veio a ser sócia na famosa Colefax & Fowler. Com todos aprendeu e a todos impressionou com suas ideias ousadas mas referenciadas no passado e por sua capacidade em perceber a diferença entre o que é “inspirado” e o que é apenas “bom”.
A casa seguinte foi Ditchley Park, em Oxfordshire, talvez a mais célebre de todas elas, situada perto de Blenheim, a conhecida propriedade dos Churchill. Num dia de verão em 33, fazendo um piquenique com amigos nas proximidades, o casal avistou a casa e Nancy simplesmente tocou a campainha. Para sorte sua, o dono havia morrido pouco antes e a familia aceitava vender,
Ditchley , bem maior e suntuosa que Kelmarsh, mas do mesmo arquiteto James Gibbs, um dos grandes do seculo 18, estava também em péssimo estado. Ainda antes da Guerra o casal dela tomou posse e Nancy logo estaria de faca em punho raspando a tinta das paredes para descobrir qual teriam sido as cores originais.
Numa das salas descobriu e refez um chamado cinza frances que teria em sua mistura algo de azul, de pink mas nada de amarelo e que em 1760 teria sido a cor da moda. Pelos salões espalhou sedas, veludos, damascos e brocados, deixando que o sol entrasse para desbotá-los e deixá-los viver suas proprias vidas. Nos banheiros que tinham cara de sala, os vasos sanitários ficavam escondidos sob as famosas “chaises percées” que nos tempos pré- banheiro escondiam penicos e moravam nos quartos das pessoas. Para bancadas de pia, Nancy não tinha problema em recortar o tampo de mesas antigas onde eram encaixadas as cubas. Nao é a toa que Cecil Beaton comentou que ela tinha um saudavel descaso pela santidade de peças importantes.
Foi em Ditchley Park que o casal recebeu muitas vezes, durante a Guerra, a visita de Winston e Clementine Churchill que alí ficavam alguns dias, mais protegidos do que em Chequers, a casa de campo oficial do primeiro Ministro e era quando o famoso butler Collin preparava uma bela e profusa mesa para o chá das cinco. Nos quartos, decorados como verdadeiras salas, qualquer hospede encontraria pequenos tapetes de petit point, porcelas antigas, livros interessantes , papel de carta, bombons, flores, sabonetes e essencias da marca Floris. .
Em seus casamentos não foi tão feliz. Com Ronnie teve dois filhos, Michael e Jeremy, mas terminada a Guerra o casal separou-se e por um breve periodo Nancy esteve casada com Charles Lancaster, o então dono de Kelmarsh Hall e voltou a alí morar. Dizia gostar de maridos porém mais ainda de casas. “Elas e nossos jardins duram mais”, costumava dizer. Em 43 havia renunciado a cidadania Americana e em 50 Mirador, que durante a guerra ela havia deixado a disposiçao de Lord Halifax, o Embaixador da Inglaterra nos Estados Unidos, acabou sendo vendido. Sua verdadeira “casa” passara a ser a Inglaterra.
Quando John Fowler conheceu Nancy ele ainda estava no inicio de sua carreira. Ela, por sua vez, já tinha a reputação de grande anfritiã e mulher de estilo. Tinha conexões com a aristocracia e com a turma chique das caçadas, um mundo não tão familiar a Fowler. Em 1954, Nancy, depois de muito procurar uma casa para morar, acabou encontrando Haseley Court, em Oxfordshire mas em estado lastimavel. Ela e John embarcaram então na aventura que foi a restauração e a transformação desta propriedade num espaço que de tão belo, interessante e confortavel passou a ser o perfeito parametro desse estilo. Logo percebendo seu potencial, apesar da casa ter sofrido inúmeras reformas, Nancy não se deixou intimidar pelo excesso de molduras rebuscadas , pelas portas entalhadas, pelos detalhes vitorianos. Sabia limpar. Na sala de jantar manteve a mesa oval e as cadeiras de couro que alí encontrara mas adicionando duas poltronas de braço que forrou com a mesma estampa florida das cortinas.Em outra sala, de jogos, manteve um papel “chinoiserie” que adorava. Na biblioteca o tom era masculino, forte. Ali, Nancy e John já deixavam bem sinalizado o estilo que a Colefax & Fowler, a loja onde vieram a se tornar sócios depois da morte de Sybil Colefax, segue vendendo até hoje sem que nunca dele a gente se canse. O salão atras da loja com um quarto adjacente, Nancy transformou em sua parada londrina. Projetado a quatro mãos, este salão amarelo existe ainda igualsinho e é até hoje um exemplo de equilibrio, beleza, conforto e charme para qualquer decorador.
Depois de dezesete anos morando sozinha em Haseley, um incendio fez com que ela se convencesse que era hora de vender. Apegada ao lugar e a região, conseguiu um arranjo que lhe permitia o uso das cocheiras , sem pagar aluguel, até o fim de seus dias. Transformada em outro espaço charmoso, belo e confortavel, teve de abrir mão de livros, e de outros muitos luxos. Jardineira de mão cheia, Nancy que fez o paisagismo em todos os jardins de suas casas , ali passou a usar saias de brim pois parte de seus dias passava cuidando de plantas. O tempo dos vestidos Balenciaga haviam ficado para trás. Ela mesma, ainda lucida aos 96 anos, viveu até 1992 . Um livro sobre ela e suas casas, de autoria de Martin Wood, lançado em setembro passado nos Estados Unidos está sendo considerado um dos mais belos “coffe table books” dos ultimos anos e nele ela aparece como a grande madrinha do que hoje se chama “Grandmothers chic”, um estilo informal, com referencias passadas e onde qualquer jovem pode se sentir aconchegado.

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