A ARTE QUE REVELA ÉPOCAS (25 de fevereiro de 2007)

Interior de um banheiro (Pierre Bonnard, 1908)
voyeurismo na nudez refletida no espelho

Quadro de Rothenstein (1900),
mostrando o interior de sua própria casa


Retrato de Marie Adelaide de France
(J.E.Liotard de 1758)
preocupação com a moda e conforto
O azul das paredes serve de inspiração



Vuillard (1900) La Chaise Longue

Jantar a luz de Lâmpada de Vallotton (1889)


Inspiração também vista no
chão preto e branco da pintura
flamenga de Van Hoogstraten

Quadro de Hoogstraten mostra
os gostos do dono da casa

          

Quadros que retratam interiores domésticos servem de inspiração para moda e decoração.

Apesar da pintura de interiores domésticos habitados ou não nunca ter sido considerada pelos historiadores da arte como uma categoria em si mesma, o fato é que nunca deixou de existir, revelando sobre os hábitos, a intimidade, a categoria social, os prazeres e estranhezas, os humores e sentimentos inerentes `a vida privada das pessoas ao longo dos séculos.
Não só contam estórias e despertam a nossa curiosidade, como falam também de moda e arquitetura e muito de decoração de interiores. Uma fonte hoje de inspiração ? Porque não ? Sabemos que idéias não tem idade e depois, fato é que, apesar de que por meio de linguagem nova e refrescada, o que inventamos hoje em geral já foi pensado anteriormente.
Os maravilhosos assoalhos preto e branco ou vermelho e cinza de cerâmica das pinturas flamengas do século 17, os sofás em chintz estampado e papeis de parede floridos das pinturas impressionistas, o mobiliário envernizado do século 19 em Viena e as cores vibrantes do quarto de VanGogh em Arles não nos são nada estranhos, bem ao contrario.
Entre guerras e horrores, entre troianos e hippies e os avanços da tecnologia que invadiram nossas casas com computadores e outras tantas engenhocas ainda cá estamos, tocando piano, tomando vinho, as crianças engatinhando sobre os tapetes e todos nós precisando de conforto ao nos sentarmos, seja para comer, bordar ou ver televisão.
Na observação atenta desses trabalhos tão ricos em detalhes podemos aprender sobre iluminação natural, sobre a colocação de objetos e quadros e também sobre a disposição de móveis e cadeiras com preocupação de encorajar a conversa – num tempo em que não se tinha TV ou fantásticos aparelhos de som - e sobretudo aprender sobre equilíbrio e proporção, premissas que o corpo humano vai intuitivamente buscando em seu habitat e dia a dia.
As cores históricas e antigas podem nos inspirar. Lindo e hoje original é o verde petróleo das paredes do quadro de Johann Zoffany - Zoffany é hoje o nome de uma empresa fabricante de lindos tecidos para decoração na Inglaterra - intitulado “Sir Lawrence Dundas and his Grandson” de 1769. Nesta pintura os moveis aparecem quase como se tivessem sido fotografados e a maneira como estão pendurados os quadros da coleção de Sir Dundas são uma bela lição de equilíbrio e proporção. Podemos também observar como foi colocada a coleção de esculturas sobre a grande lareira branca que faz, junto com o lambri também branco, contraste com o verde intenso das paredes. As campainhas penduradas por cordas de passamanaria nas laterais da lareira, consta, teriam sido as primeiras a serem retratadas em uma obra de arte.
A pintura do holandês Samuel Van Hoogstraten intitulada “Os chinelos”, de 1658, alem de mostrar a fascinação do artista pela perspectiva é um exemplo de um interior sem figura humana, categoria pictórica que só veio a reaparecer em 1900 . No entanto, apesar de desabitado, esse interior nos revela sobre o seu ocupante através dos seus chinelos e do molho de chaves com que nos abre caminho para o interior de sua morada. Aqui também, a simples e linda mesa retangular vestida em seda amarela com barra franjada e uma cadeira de linhas retas e revestida também em seda revelam sobre o gosto do dono da casa e podem nos trazer idéias. Em outra pintura flamenga de Van Hoogstraten, chamada “Vista através do corredor”, a geometria de um chão preto e branco pode nos servir hoje de modelo para um assoalho ultra moderno e a cadeira também em linhas retas e forrada com tapeçaria nos lembram os sofás e cadeiras que os ingleses ainda costumam forrar com sobras ou não de tapetes kilim.
Expressivo no gênero é um retrato de Marie-Adelaide de França, de 1753, de Jean Etienne-Liotard que mostra como a preocupação com o conforto foi modificando a forma dos estofados e também a atitude do ocupante desses novos interiores. Nesta pintura, a aristocrata francesa veste um modelo turco então muito em moda, e apesar da postura real já se pode sentir a influencia da informalidade da classe media. O sofá verde e aconchegante onde está reclinada não poderia soar mais moderno ou confortável..
Foi no final do século 19 e no inicio do 20 que pinturas de interiores voltaram com força `as paredes das galerias. Foi quando o suíço Felix Vallotton pintou em Paris “Jantar `a luz da Lâmpada”, a cena de uma família jantando que nos deixa, não propriamente de água na boca, mas imaginando o que não estariam aquelas pessoas pensando e dizendo em torno de uma toalha branca enquadrada por listras vermelhas. Foi quando Edouard Vuillard pintou o seu famoso “Chaise Longue” onde uma mulher lendo um jornal não é mais do que uma peça do xadrês daquele interior todo estampado e tão típico do artista. Na verdade Vuillard se pretendia um retratista mas seus personagens tinham de disputar espaço com os seus interiores floridos que na verdade foram o que lhe rendeu fama no final do século 19. Pierre Bonnard, na pintura “O espelho do Banheiro” de 1908 ênfatisa o voyeurismo da cena ao mostrar uma mulher nua e de costas refletida no espelho. Na Inglaterra, William Rothestein pintou o famoso quadro “As leitoras Browning” mostrando sua própria mulher e a cunhada lendo num interior quase minimalista que mostra a desaprovação do pintor em relação ao décor carregado vitoriano tão corrente ainda nessa época. Nele se pode observar a originalidade e a simplicidade na maneira como são colocados os objetos sobre a lareira, elemento tão pontual em qualquer ambiente.
O que estas obras tem em comum é que o interior na pintura pode e deve ser tratado com respeito e interesse. Não é a toa que a National Portrait Gallery, um dos museus mais concorridos e visitados por jovens na Inglaterra se especializa em retratos de pessoas ao longo dos séculos, não importando o gênero, se pintura, escultura ou fotografia. O importante é que a estória das modas e dos costumes humanos fica assim registrada. Ali podemos descobrir e aprender, por exemplo, sobre o Bloombsbury Group, uma turma de amigos bastante liberal e avant garde em matéria de moral e costumes que agitou a Inglaterra entre as duas guerras. Numa pintura de Duncan Grant de 1917, recém casado com a também pintora Vanessa Bell, ele a retrata circundada por tecidos e potes de cerâmica do atelier Omega, fundado pelo amigo Roger Fry em 1913, que pregava a incorporação da arte ao dia a dia da vida domestica. Podemos ali também encontrar o retrato inteiramente conceitual, e por razoes obvias bem mais recente, uma imagem do DNA do cientista genético Sir John Sulston e que apesar de pouco nos ensinar sobre ambientação pode funcionar como um objeto decorativo. E é ainda nessa galeria londrina que mora, entre tantos outros, um retrato feito por John Wonacott em 2000 comemorando a passagem do século, e que mostra a família real britânica informalmente reunida contra o tão grandioso interior do Palácio de Buckingham.

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