A ARTE DE ENGANAR O OLHAR (20 de julho de 2012)

Falsos livros no banco
guarda-coisas (séc. 18), de madeira, tecido e couro

A hortaliça no prato de porcelana
abre o apetite, mas não pode ser comida

Na foto de Gunnar Larsen, de 1973,
a camisa parece transparente, mas não existe

Peça de marchetaria que multiplica perspectivas (1995),
de Ettore Sottsas. Papel de parede (séc. 19)

Mural de cerâmica em forma de gaiola (1780)
Castelo Schlossgarten - Schwetzingen




Igreja Sant Ignazio di Loyola - Roma

Grande fachada - Havana





Camogli - Itália

          
Conta a história que o artista grego Zeuxis, no século 5 a.C, numa competição com o colega Parrásio, pintou uvas tão perfeitas que passarinhos se puseram a bicá-las. E que o próprio pintor se deixou enganar quando acreditou que o quadro do competidor estava ainda embrulhado quando na verdade simulava uma embalagem.
São histórias que nos provam que o fascínio pela ilusão sempre foi da natureza do homem, o que, por sua vez justifica que por tantos séculos a essência da arte tenha sido a imitação e o mimetismo, critério que pavimentou o caminho para o desenvolvimento de técnicas da ilusão. Mostram também que o exercício virtuoso de como melhor enganar e surpreender o olhar é bem anterior à Renascença, ao Maneirismo e ao período barroco que tanto ampliaram e abusaram das técnicas da perspectiva e do claro-escuro.
Mesmo que com diferentes suportes ou propostas, seja na arquitetura, na moda, nas artes decorativas ou na publicidade, os criadores nunca abandonaram o gosto de brincar com o falso e com a ilusão, tanto que o trompe l’oeil moderno é hoje, como se pode ver em muitas cidades europeias, um certeiro atrativo turístico.
No mundo do décor, esta enganação pode surgir sob a forma de pastiche ou de ilusão ótica. Um papel de parede pode imitar azulejos persas ou portugueses, fingir madeira, simular tijolos, mármore, palha, capitone ou o que a imaginação desejar. E belas pinturas murais podem nos mostrar paisagens através de falsas janelas ou nos fazer esbarrar numa porta que não conseguiremos cruzar. A cerâmica pode imitar o jaspe, as pedras raras, o porfírio e o ouro. O linóleo pode simular o mármore ou um assoalho de madeira. E muitos objetos podem nos enganar em relação à função ou ao material com que são feitos, tal como o banco que finge ser uma pilha de livros e cujo interior é vazio. Ou o prato de cerâmica contendo um apetitoso repolho que não poderá ser comido pois é feito de cerâmica.
Para além da pintura, os efeitos de ilusão baseados nos mecanismos da visão sempre foram usados por artistas, arquitetos ou artesãos talentosos para perturbar a captação da realidade.
Na arquitetura, por exemplo, quadratura é o nome do tratamento dado a forros e paredes com o sentido de alterar visualmente as dimensões do espaço, um efeito trompe l’oeil típico do período barroco.
Nos grandes museus, como a National Gallery de Londres, os quadros que mais atraem o público são aqueles que nos intrigam com detalhes que perturbam o olhar e nos fazem ir de um canto a outro tentando buscar explicação para algum enigma. Não sem razão, portanto, uma das obras mais visitadas do museu é o “The Ambassadors” de Hans Holbein, de 1533 que retrata os jovens Jean de Dutenville de 29 anos, Embaixador da França na Inglaterra e Georges le Seve, de 25, bispo de Lavaur. Ao fundo, simbolizando a mortalidade, há uma imagem distorcida de uma caveira que só poderemos descobrir se nos colocarmos em um determinado ponto à direita do quadro.
Tanto que qualquer exposição que trate da tensão entre o olhar e a realidade é certeza absoluta de bilheteria. Basta dizer que “Arte e Ilusões”, mostra realizada em Florença entre há dois anos no Palazzo Strozzi com trabalhos do século 12 ao 19 teve filas de dobrar quarteirão. Além de obras de Mantegna, Tiziano e Veronese e do famoso quadro de Scarabattolo, o “Opificio dele Pietre Dure” de Domenico de Remps de 1600 que mostra dentro de um grande gabinete a coleção particular da família Medici, havia esculturas tridimensionais, porcelanas imitando frutas e móveis que escondiam surpresas.
Para quem não pôde usufruir dessa oportunidade, uma deliciosa mostra em Paris, no Museu de Artes Decorativas, composta apenas de peças do próprio museu, a maioria delas jamais ou raramente vistas, estará à sua espera até novembro de 2013. Chama-se “Trompe L’Oeil, Imitations, Pastiches e Illusions”. Por meio de 12 temas como “Sombra e Luz”, “Otica Hipnótica”, “Fazendo de conta” ou “Isto engana enormemente”, nosso olhar é levado a um delicioso passeio por vitrines carregadas de intrigantes objetos, pinturas, fotografias, brinquedos, papeis de parede e pequenos moveis que surpreendem e, sobretudo, tem o dom de nos encantar e divertir.

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