VISITA À MORADA DE UM CICLO (26 de outubro de 2008)
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| Sítio do Padre Antonio |
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| Conversadeira bandeirista |
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| A elegante curvatura do telhado que se distribui em quatro águas |
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| Sítio do Padre Antonio |
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| Capela construída em 1681 - sua entrada se dá por um alpendre |
Documentário de Dalton Sala investiga a morada bandeirista, como a que resta em Santana do Parnaíba.
Foi durante o ciclo das bandeiras paulistas que surgiram as primeiras casas ditas bandeiristas. Quando das lutas contra os indígenas revoltados, essas construções austeras, com poucas aberturas e com telhados que podiam chegar a ter quatro águas e belas curvaturas, eram posicionadas de modo a proteger os acessos fluviais ao Planalto do Piratininga, onde os jesuítas fundaram o Colégio São Paulo, sitio inicial dessa megalópole que é São Paulo. Esse tipo de construção foi o que veio dar feição e estilo às novas Vilas de Santana do Parnaíba, Mogi das Cruzes e Itu, situadas de modo estratégico em relação ao cobiçado planalto.Durante as guerras contra as missões - o tempo das bandeiras propriamente ditas - quando os jesuítas, vindos do Paraguai, se instalaram na margem oriental do Rio Paraná, e depois, quando se iniciaram as expedições pelo interior, a cata de minerais, e uma nova economia paulista se afirmava, a casa bandeirista viveu o seu apogeu. Foram centro de irradiação das ações e manobras militares, assim como testemunha das aventuras e desventuras desses bandeirantes que, ora são tidos como heróis desbravadores, responsáveis pelas dimensões do território nacional, ora como escravocratas caçadores de índios e em busca desenfreada de riquezas.
Segundo o historiador de arte Dalton Sala, autor de um recém lançado filme sobre a casa bandeirista e a arquitetura colonial paulista, “as duas visões são falsas e preconceituosas: os bandeirantes foram homens de seu tempo, movidos por um complexo de razões objetivas e submetidos a uma série de tensões sociais.”
O documentário, elaborado na VB Oficina de Projetos, está a disposição das escolas, universidades, historiadores e arquitetos, e vem acompanhado de um guia explicativo, com fotos e mapas de acesso. Com ele, Dalton Sala tenta, não apenas resgatar um pouco dessa história, mas também, ao incentivar visitação e uma maior consciência sobre esse patrimônio, contribuir para preservação das poucas casas que sobreviveram até os nossos dias. Ao longo de três séculos, esse tipo de arquitetura colonial, apesar de ter passado por adaptações circunstanciais ao tempo, consegue guardar características muito próprias.
Idealmente elas se desenvolvem a partir de uma planta retangular erguida em taipa e pilão e revestida de tabatinga. Tem paredes externas brancas, poucas aberturas, telhado amplo e um alpendre aberto na fachada principal.
No guia, o historiador explica “que a cobertura de telhas em quatro águas, assentada sobre estrutura de madeira apoiada sobre uma grande verga, termina em largos beirais cujos cachorros estendem-se muito além das paredes, protegendo a taipa da ação erosiva das chuvas freqüentes. A geometria regular da fachada é dominada por um amplo terraço onde o patriarca recebia os visitantes. À direita de quem sai da porta principal para o alpendre, fica a entrada para o quarto de hospedes; e, à esquerda, o acesso à capela, o que evitava que estranhos adentrassem a área familiar. O amplo espaço interior, pouco iluminado e de aspecto austero, tem o chão de terra batida. A sala principal, contígua ao terraço, impressiona por suas grandes dimensões e, em seu entorno, estão distribuídos os quartos, zona exclusiva da família.”
Apenas redes, esteiras, arcas, bancos, mesas e armários mobiliavam esses interiores. Em poucas das casas, o catre de madeira e couro substituía as redes. Ferramentas, armas, pólvora e roupas eram, em geral, os pertences que, em arcas, se guardava. Já o que fosse de comer, se estocava em sacos e barricas, e se punha em plataformas elevadas ou, então, no sótão entre o forro e o telhado. Uma cadeira mais pomposa era coisa rara, eventual privilégio do patriarca, ou de sua mulher, se ele estivesse fora. Normalmente, em esteiras, no chão, sentavam as mulheres. À mesa se comia; e tigelas, cuias, gamelas, canecas e alguma comida eram guardadas nos armários de prateleiras. Facas, havia de qualquer tamanho e tipo. Talher, um luxo raro.
Do lado de fora se cozinhava, nos fundos da casa, ao ar livre, ou sob tendas de couro cru, caso chovesse. Na capela se rezava, e a decoração do altar haveria de depender de quão, mais ou menos, abastada a família. O alpendre poderia servir para abrigar os que não coubessem na capela. A vida era austera e despojada. Nos arredores da casa havia plantações e pequenas construções auxiliares como moendas de açúcar, estábulos e as pequenas casas dos empregados.
Uma língua geral era falada em São Paulo. Dela vem a palavra “butantã”, que quer dizer terra socada, ou seja, a taipa com que se faziam as construções. Hoje, nome de bairro, é onde fica a casa restaurada por ocasião do quarto centenário da fundação de São Paulo e que foi rebatizada como Casa do Bandeirante. No Caxinguí, outra casa tombada e que foi chamada Casa do Sertanista fica em ponto estratégico entre o córrego Pirajuçara e o caminho que leva aos Campos de Curitiba. Nela, numa área cuja ocupação data do século XVII, chama a atenção a curvatura do telhado, distribuído em quatro águas, nada a desejar às curvas sensuais e sinuosas de nossos maiores arquitetos modernistas. Todas tombadas, algumas tem nomes charmosos como Sitio da Ressaca, Casa do Tatuapé, Sítio Morrinhos, Sitio do Mandú e Sitio do Padre Inácio. Nesta, chama a atenção o entalhe que decora o cachorro, nome que se dá a extremidade do caibro de madeira projetado para fora, e que sustenta o beiral. Foi a primeira de uma série de casas a ser restaurada quando, em 1915, foi dado inicio ao processo de reconhecimento das casas bandeiristas, uma iniciativa do político e também historiador Washington Luis, então prefeito de São Paulo e mais tarde Presidente da República.
No km 8 da estrada Mario de Andrade, uma casa que ao escritor e poeta pertenceu e que ele doou ao pais, o Sitio de Santo Antonio, foi construído em 1640 por Fernão Paes de Barros. É um dos mais belos exemplos de casa bandeirista. Situada a meia encosta, a casa se destaca pelas amplas dimensões e o equilíbrio de proporções. Tem dois cômodos com jiraus sustentados por colunas da mesma lavra das que estão no alpendre. A capela, um pouco distante da residência, é de 1681 e tem púlpito decorado com a águia bicéfala, símbolo dos reis de Espanha que foram soberanos do Brasil entre 1580 e 1640.
Em Mauá, região onde o barão teve fazendas, o Museu Barão de Mauá, ocupa uma casa do século XVIII. Foi restaurada, em 2000, pelo arquiteto Carlos Lemos. Em Santana do Parnaíba, a Casa do Anhanguera, que é hoje um museu histórico e pedagógico, foi das primeiras a ser restaurada pelo IPHAN, com a colaboração de Lúcio Costa. Nela, um exemplo do que se denominou “conversadeira”, assento feito de um corte na taipa, posicionado na lateral das janelas e que permite observar a rua e conversar com quem está sentado do lado oposto. Pela rodovia dos Bandeirantes se pode chegar a Fazenda Capoava, antiga Fazenda Japão, e ali dormir, comer, fazer trilhas e cavalgadas. Virou bela hospedaria. Também a Fazenda Pau d’Alho, a Chácara do Rosário e a Chácara do Quinzinho que virou Museu Histórico Sorocabano, valem ser visitadas. Para eventual acesso ao filme, contatar mariah@villasboas.art.br.





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