TEMPOS DE LUXO E PRAZER (16 de dezembro de 2007)
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| As minni di vergini recheadas com chocolate e frutas cristalizadas, exemplo famoso da pâtisserie siciliana |
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| Sala de jantar no Palácio Gangi, com pratos de porcelana de Paris e bombonières de Murano |
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| Devotas sicilianas paramentadas para cerimônias religiosas |
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| Vidros de toalete de cristal, pente espanhol de tartaruga, poudrière imitando um relógio emvermeil guilloche e a gola bordada com pérolas e fios de ouro |
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| Cadeira com chinoiserie |
A Sicília dos gatopardos esbanjava refinamento. Os tempos são outros, mas a beleza continua lá.
Na Sicília, ilha civilizada pelos gregos, submetida aos romanos, invadida pelos bárbaros, conquistada pelos árabes, ocupada pelos normandos, concedida aos espanhóis, depois aos Bourbon de Nápoles até vir a fazer parte do reino da Itália em 1860, a vida era bela e os costumes peculiares, o que muito encantava e surpreendia os estrangeiros que por ali passavam.Em 1777, o Conde de Borch, depois de sua primeira visita à ilha, reportou sobre o luxo desmedido, a magnificência jamais vista, o gosto refinado e o esplendor da vida desses Gatopardos, que podiam ser, em uma mesma pessoa, príncipe, duque e barão como foi o caso de Giuseppe Tomasi, Duque de Palma, Príncipe de Lampedusa e Barão de Montechiaro et della Torreta , o autor do livro que inspirou o famoso e belo filme de Luchino Visconti, O Gatopardo.
Era um traço da aristocracia local se referir aos palácios onde moravam, com bustos e as armas das famílias dominando suas grandes fachadas, muros e frontões como apenas à sua casa. Referir-se a eles como Palazzo, que em italiano vale para qualquer edifício de grandes dimensões, deixavam para as classes mais baixas; os contadores, advogados, fornecedores e domésticos. Cada morada tinha também seus códigos. De acordo com o numero de batidas à porta, se saberia se a visita que se anunciava era a de uma princesa, ou duquesa, ou se elas poderiam estar chegando acompanhadas de uma amiga. O porteiro, sempre a postos, não raro tocaria a campainha até dez vezes.
A quantidade de empregados também impressionava. Eram valéts, lacaios, mucamas, governantas, cocheiros e jardineiros. Havia que se cuidar dos magníficos jardins, vestir crianças, damas e cavalheiros, servir em bandejas o mais singelo dos copos d’água e organizar as grandes festas, bailes e recepções de casamento, condolências ou batizados com que as famílias entretinham-se entre si. Basta dizer que em 1790 o livro de ouro da Ilha registrava 228 famílias nobres, com 58 príncipes, 27 duques, 37 marqueses, 26 condes, 1 visconde e 79 barões.
O gatopardo acordava tarde e muitas vezes acompanhava a mulher à missa. O dia nunca haveria de começar para eles antes do meio dia, a não ser que houvesse algum evento excepcional como um enterro ou celebração religiosa. O almoço não seria antes das 3h. E após uma pequena sesta, a “cassariata”, o habitual passeio ao longo da Vittorio Emanuelle, a rua central e mais larga de Palermo. O ponto de encontro antes da noite seria no Circulo Bellini , o chamado Cassino dos Nobres. Conversar política podia ser perigoso. O conselho era não levantar e apontar o dedo pois este poderia ser mordido. Todos tinham casa de campo ou de “villegiatura”.
Gatopardos e gatopardas eram peculiar e fortemente religiosos, a ponto de se falar de uma religião siciliana. Era uma fé selvagem, ardente, e onipresente a desses nobres insulares. Mais pró santos do que pró Deus, acreditavam que Deus e a Virgem Maria tinham de pensar em todos e que o santo seria de cada um. Cultuavam relíquias e a confissão podia ser à domicilio. Havia capelas nos palácios e os santos podiam ser eleitos e dispensados caso não estivessem atendendo aos desejos solicitados. Foi o caso de Santa Cristina, a patrona oficial de Palermo, substituída por uma aristocrata local, Santa Rosália, morta em 1166 e enterrada na gruta Pellegrino, hoje local de peregrinação.
O gatopardo era festeiro, tinha orgulho de parecer, além de ser, e o prazer da hospitalidade levava ao auge esse sentido da festa e desse constante festejar que talvez possa ser explicado pela origem oriental dos sicilianos. Receber o visitante estrangeiro era encargo disputado. Entre 1881 e 1882, Richard Wagner, a convite do Príncipe Gangi, passou alguns meses na ilha, com a mulher Cosima, que se encantou com a “hospitalidade extraordinariamente gentil e natural dos insulares”. Sua filha do primeiro casamento com Von Bulow acabou se casando com um príncipe siciliano e mudando-se definitivamente para a ilha. Como disse um oficial inglês, Edward Baynes, em visita a Sicilia em1834, “alguns indivíduos, pela distinção de seu espírito e pela graça de suas maneiras, rivalizam com tudo o que as cortes européias produziram de mais elegante e de mais requintado”.
Durante o dia, no interior dos palácios havia uma certa obscuridade, mas à noite as luminárias resplandecentes de vidro de Murano, nos salões íntimos ou grandiosos, severos ou barrocos, exporiam e fariam imperar as chinoiseries do século XVIII, as pinturas policromadas, os estucos, as paredes forradas com brocados de seda, os sucessivos retratos de ascendentes e familiares, sempre entre pinturas de ninfas nuas, molduras de tartaruga, vasos de Sévres, coleções de leques, cerâmica capodimonte, moveis barrocos, tapissados e franjados, fartas cortinas, tapetes aubusson, chãos de cerâmica pintada, escadarias de mármore, portas de madeira policromada, espelhos venezianos e objetos em pedra de lavra. Em muitas das casas, alguns salões maiores com paredes esmeradamente decoradas eram mantidos sem moveis, a espera de serem mobiliados de acordo com a exigência do evento seguinte.
A influencia inglesa era bem vinda e a anglomania evidente, embora ela nunca tenha atingido os banheiros das casas sicilianas que se mantinham apenas funcionais, ao contrário do que acontecia na Inglaterra onde eram decorados como pequenas salas de visitas nas grandes “english country houses”. Na Sicília os convidados não passariam da sala de visitas. Na Inglaterra, como de hábito, depois dos jantares as mulheres eram convidadas para o belo e refinado quarto da dona casa e usariam o grande e confortável banheiro. Tomar chá passou a ser, como na Inglaterra, um “must”. As famílias tinham suas “nurses” para os recém nascidos. O steak & kidney pie e o Yorkshire pudding foram introduzidos no cardapio dos ilhéus aristocratas e a “mince pie” passou a se chamar em italiano “mezzosposo”, ou seja, traduzindo literalmente, meio marido. À mesa quotidiana, no entanto, o estilo era o do reino das duas Sicílias. Entre a prataria maciça, os cristais Saint Louis ou Baccarat e os enormes guardanapos dobrados como verdadeiros origamis, o príncipe dono da casa servia ele mesmo a sopa aos familiares.
Em dias de festa, as longas mesas de banquete seriam decoradas com figuras em porcelana Meissen, serviços de vidro de Murano, enormes centros de mesa como o da grande sala de jantar do Palácio Gangi, em bronze e cristal e em estilo império, alem de flores em abundancia e mais velas em profusão, e atendidas por mordomos de libré. Haveria sempre nougats, frutas cristalizadas e os famosos doces da “pâtisserie” siciliana como as “minni di vergine” recheadas com chocolate e confeitos de frutas. Açucares, sabores e aromas faziam parte desse mundo sensorial e estético. O café seria servido depois, nos grandes terraços adjacentes aos salões e cobertos de flores.
A esse fausto e exageros atribui-se a ruína de muitas famílias. A abolição do feudalismo, no entanto, não viria a acabar com os títulos nobiliárquicos nem tão pouco acirrar ódios e rancores. A nobreza manteve a gratidão do Estado por seus antigos méritos e a comunidade era incentivada a preservar o prestigio moral dos aristocratas. Continuam de pé portanto, habitados, embelezando a paisagem e encantando os turistas, os Palazzos Malvagna, Lanza Tomasi, Gangi e Alliata di Pietratagliata em Palermo, o Biscari em Catane, o Beneventano del Bosco em Siracusa e tantos mais. E com mais pé na terra e menos extravagancias, mas ainda no livro de ouro da nobreza siciliana, os Príncipes, Duques e Marqueses da Patagônia, os Fulco di Verdura, os Lampesusa, os Valguarnera, os Paternó Castello di Spedalotto, os Santostefano della Cerda e outros tantos descendentes desse mundo de luxo, beleza e devoção ao prazer.





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