STARCK E SUA MARCA NO RIO (30 de setembro de 2007)

Bar do restaurante Al Mare,
com lustre veneziano de vidro
branco e poltronas giratórias
Elegante e despretenciosa
fachada do hotel mistura metal,
vidro, madeira e mármore

Na parede, exemplo da boa mistura
entre o rústico tijolinho e o sofisticado
espelho com moldura também de espelho
No fundo do corredor com
piso iluminado, a porta de entrada
do Londra Club; de um lado,
cortina de veludo vermelho -
outro, linho branco


          

Em seu primeiro projeto no Brasil, o “enfant terrible” do design faz do Hotel Fasano um exemplo de sofisticação.

À parte os comentários que denotam um quê de despeito por parte dos cariocas pelo fato de ter sido exportado da “provinciana” São Paulo o hotel mais sofisticado, mais elegante e de maior sucesso no momento no Rio de Janeiro, assinado por Philippe Starck, o enfant terrible do design moderno, e com a chancela da grife Fasano, que já virou símbolo de bem viver, comer e hospedar, talvez valha mencionar ao menos um. O de que, no andar térreo, onde justamente ficam o restaurante Al Mare, o lobby e a recepção, as cortinas, embora transparentes, vão impedir a visão do mar, onde o arpoador belamente se funde com a praia de Ipanema. Vão, no entanto, estar evitando que se veja de muito perto na calçada os guardadores de carro e os transeuntes mais ou menos vestidos para a praia. Porque então, se pergunta uma carioca, o restaurante não estaria no segundo andar ? Seria porque Philippe Starck não é um experto em Rio de Janeiro ou, quem sabe, porque acredita que muita gente prefira um restaurante descolado do hotel, sem a necessidade de pegar elevador. Discussão a parte, fato é que os cariocas ali disputam mesas que tem, sejam elas redondas ou quadradas, o segredo de aumentar e diminuir segundo um sistema escandinavo, e a curiosidade só faz aumentar em relação ao que fez ali, e pela primeira vez no Brasil, o arquiteto e designer mais emblemático e badalado do século XXI.
Sem reservas, entretanto, impõe dizer que do oitavo andar desse edifício de esquadrias metálicas, madeira, vidro e mármore e construído na esquina da Joaquim Nabuco com a Vieira Souto, e posicionado de forma enviesada no terreno, você vai ganhar o Rio de Janeiro au grand complet, vê-lo sob o mais belo de seus horizontes, não importa se à noite quando a água da piscina vai do azul ao verde passando pelo turquesa, ou se durante o dia quando ela se imporá toda branca, tal qual um espelho d’água a se juntar ao oceano ao longe. Ou seja, sem sair de Ipanema vai ser possível nadar, bestar ou bebericar avistando ao mesmo tempo o Arpoador, o morro Dois irmãos, a pedra da Gávea e o Cristo Redentor.
Ver para crer. Dormir para depois contar. Crio a coragem para o avião e, paulista convertida, me vejo no Rio, cidade onde nasci e o que normalmente não acontece, me dirigindo a um hotel. Diante do Fasano carioca, fachada e portas de vidro, tudo mais pro discreto, já bem visíveis as tais cortinas que não deixam devassar, mas que ao mesmo tempo são um achado de grande efeito e uma constante nos hotéis de Philippe Starck. Nada daquelas entradas palacianas e às vezes intimidantes dos grandes hotéis de luxo. Na calçada apenas os gigantescos cachepots de metal oxidado tão reconhecíveis do designer. Pela porta transparente, logo de cara, um corredor criado no chão pela passadeira de vidro branco, curvo, iluminado por baixo e demarcado por cortinas, de um lado em veludo vinho, do outro em linho branco. Ao escurecer, será por ali que se vai chegar ao Londra Club, o baretto carioca com garrafas pousadas em degraus também iluminados na parede ao fundo e decor Rainha da Inglaterra e sua swinging London dos anos 60 e 70.
Na recepção à direita, um enorme balcão, o primeiro toque bem Brasil com a benção do papa do design, é da Tora Brasil e pesa seis toneladas. Foi preciso reforçar o chão sob as tabuas de madeira. Como pano de fundo um painel de vidro, na verdade feito com as portas de vidro ondulado e moldura cromada que eu iria depois reconhecer no chuveiro do apartamento, mas que aqui tem fundo de tecido estampado na cor de ônix amarelo e luz por trás. Além de enfeitar, genialmente, esconde o escritório.
Os dois elevadores tem portas de metal prateado que se fundem na cor cinza da pedra na parede ao fundo, revestida com pedaços irregulares de granito não polido Miracema e só vão chamar a atenção pelo inesperado quando se abrirem. Além do mesmo granito cinza posto no chão, tem espelho formando um L, com moldura trabalhada e ocupando parte de duas das paredes revestidas de pau ferro.
Nos andares, primeiro o hall sutilmente iluminado. O número do quarto vai estar no chão, bem em frente à porta, e escrito na faixa de luz que vai correr ao longo do desenho triangular desse espaço com paredes e portas também de pau ferro e carpete marrom com grande desenho geométrico amarelo no meio. Bem alí, solta e hospitaleira, a poltrona mama de Gaetano Pesce com peitos fartos e listras amarelas e vermelhas. Em face, mais junto à parede, outra poltrona, bem anos 50 e que veio da Itália, tendo ao lado uma luminária de pé da mesma época, ambas na cor verde periquito.
Em seguida o prazer de entrar num quarto com portas de vidro sobre o mar e direito a um terraço com paredes laterais de espelho para multiplicar a beleza da vista. As cortinas, apenas para a hora de dormir – cerra-las antes seria um pecado - são de cetim cor de chumbo, plissadas, de dar vontade que se transformem em vestido. Deduzo que o formato longitudinal desse quarto chamado Deluxe Ocean View e cuja diária é de 1.440,00 reais e que tem 40 metros quadrados ( há dois menores e mais baratos e dois tipos de suíte maiores e mais caras) é para permitir que tanto da cabine do chuveiro com vidro transparente, da mesa de trabalho por trás da cabeceira da cama, da própria cama solta no meio do espaço e da grande poltrona com banco para os pés, de Sergio Rodrigues e batizada Voltaire, diante da televisão plana e movediça na parede lateral, se possa apreciar a vista. Isso se não quisermos sentar ainda mais perto, ouvindo musica ou no laptop sem fio, nas duas poltronas também de Sergio Rodrigues que ocupam o terraço, outro sabor Brasil que devemos às escolhas feitas por Rogério e que Philippe Starck aprovou, gostou e quem sabe vai passar a usar em outros e alhures interiores. De passagem, diga-se que em entrevista recente sobre o seu primeiro hotel brasileiro, Phillipe Starck falou do prazer que foi trabalhar para alguém que sabia muito bem o que queria como Rogério Fasano.
Obviamente que os lençóis são daqueles de 300 fios e os vários travesseiros de plumas de ganso. O colchão é como as costas pedem, duro e ao mesmo tempo macio. Delícia! A cobertinha para os pés em linha de algodão amarelo ocre com etiqueta Trussardi, vai combinar com outro elemento recorrente na decoração geral do hotel, o quase onipresente onix amarelo. As luminárias postas sobre as extremidades da cabeceira da cama, diferentes entre si, mas sempre em forma geométrica, são feitas dessa pedra. Assim como aquela logo à entrada do quarto e que mais parece um quadro abstrato, na parede entre os armários de pau de ferro com puxadores, simples argolinhas de couro marrom. Sem falar no tampo do balcão do longo bar junto a piscina, no chão da sauna também no oitavo andar e também da grande mesa-pia no toalete feminino do térreo, sempre na mesma pedra translúcida amarela.
Outra constante nas decorações de Philippe Starck e, no caso do Fasano carioca, muito presente, é o em forma de ameba e moldura em tom acinzentado metálico. Por todos os lados e em tamanhos diferentes. Pode sorrateiramente aparecer pequeno e preso ao teto em cima das camas, de formas diferente nas paredes laterais no quarto, atrás da cuba no banheiro, dentro do chuveiro e formando um grande painel no andar da piscina sobre uma parede externa de madeira.
Também presente e causando impacto ao longo desses espaços cheios de signos, surpresas, e referencias e separados uns dos outros pelos tais e abundantes cortinados no andar térreo, os conhecidos e tão starckianos espelhos de enormes dimensões, com molduras também de espelho e desenhos geométricos, e que em outros hotéis Philippe Starck já usou para revestir paredes e portas de elevador. No Fasano carioca vão aparecer contra paredes de tijolinho rústico, entre os cortinados do restaurante refletindo o terraço com mais mesas criado na pequena faixa de terreno entre o hotel e o prédio ao lado, ou posicionados mais a entrada do hotel de modo a multiplicar o espaço e refletir nesgas de mar entre os panos das cortinas. Desses cortinados, vale dizer, Starck consegue tirar as maiores vantagens. Ao recortar o teto e nele embutir os trilhos retos ou curvos por onde elas poderão correr e formar diferentes ambientes, o arquiteto consegue aumentar e diminuir espaços como que num passe de mágica sem precisar de portas de correr, biombos ou divisórias.
Desse mesmo material que tanto brilha, o espelho, a peça que mais impressiona no novo Fasano, é um móvel dupla face desenhado por Starck e que além de todo espelhado e desenhado, é também iluminado. De um lado funciona como parede de fundo no bar do restaurante e, do outro, surge como uma estante vitrine para ser vista à noite, da calçada e através do vidro, quando são recolhidas as cortinas. Em cada um dos seus vãos quadrados, conchas marinhas e de diferentes tipos foram arranjadas pessoalmente por Rogério Fasano e a impressão é de estarmos diante de uma vitrine de jóias preciosas. Pelo vão do meio, o maior e único pelo qual se pode ver o interior, e onde está pousada a pequena gôndola que serviu para inspirar o logo do hotel carioca e que aparece na louça branca, nos cartões e papeis de carta, vai ser possível perceber quem estará jantando no belo e sempre cheio restaurante Al Mare, pilotado pelo chef Luca Gazzoni, trazido de um três estrelas de Florença, e pagando alto pela refinada e impecável cozinha dos Fasano.
Ali, as tais cortinas que nos separam do mar e da calçada podem também transformar algumas mesas em pequenas salas privadas. À mesa, na hora do almoço, a mesma amiga que elogia as chiques e felpudas toalhas brancas com listras bege à disposição na piscina e na sauna, vai questionar se o velho Copacabana se veria agora finalmente desbancado. A opinião geral é de que haverão de conviver em muita paz e harmonia, cada um em seu gênero e tamanho, tradição e modernidade.
Circulando pelo hotel, Michael Roberts, o style editor da revista Vanity Fair agita fazendo com fotógrafos a produção de um catalogo para a Daslu. Fico sabendo que no numero de setembro da americana WWD um editorial fala e muito bem do novo Fasano. Na Newsweek Internacional desta semana, na coluna Hot Spot, Brian Byrnes diz que o Fasano “trouxe um necessário toque de butique de luxo à histórica cidade do Carnaval a beira mar”. Ouço elogios aos tapetes de listras, alguns nos quartos, outros no lobby no térreo decorado com moveis dos anos 50, muitos deles de designers brasileiros, e mesas contemporâneas da Tora Brasil com aquele selinho que nos garante o bom uso das florestas. Duas poltronas “Jangada” do designer romeno radicado no Brasil Jean Grillon, e que não podiam ser mais belas e próprias para um ambiente a beira mar são um achado do qual Rogério muito se orgulha. A calçada tem o mesmo desenho de toda a orla, tão carioca, ondulado em branco e preto. Nessa mesma estampa, o prato com frutas frescas no quarto. E impressa nas portas de correr que separam o banheiro do pequeno hall de entrada das suítes, a foto em tamanho natural de um casal dançando, também em preto e branco e em anos dourados.
Philippe Starck não precisou de muitas viagens ao Rio de Janeiro para a realização dessa sua primeira façanha em terras brasileiras. Seu braço direito, Bruno Burrioni fez-se mais presente. Tinha aqui o afinado e refinado Rogério Fasano, da quarta geração de uma família que veio da Itália em 1902 e que iniciou em São Paulo uma trajetória de mais de cem anos de sucesso profissional, para garantir que o projeto do arquiteto francês fosse não apenas bem executado, mas ganhasse também uma intencional cara de Brasil chique, urbano e antenado.

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