SOBRE A CHITA E OUTROS PANOS (12 de outubro de 2008)

Pano da Índia do final do
século 18, com barrado e estampa
Colcha do século 19,
reproduzida até hoje em Portugal

Lenço tabaqueiro
Detalhe da colcha do século 19 com
ânforas, flores e o escudo so Brasil

Da Tinturaria Cambournac, cunho
de estampar com o simbólico leão

          

A de Alcobaça traduz, à portuguesa, a riqueza do pintado, algodão estampado da Índia. Conheça a história.

Foram os portugueses, os primeiros a descobrir a existência dos pintados, quando desembarcaram em Calcutá, com Vasco da Gama, em 1498, iniciando assim o seu intenso comercio com a Índia. Foram eles os últimos, no entanto, a descobrir o charme e o apelo desses panos e, somente no século XVIII, é que começaram a produzir a versão portuguesa hoje tão conhecida, as tão belas e encantadoras chitas de Alcobaça.
Ao contrario dos holandeses, ingleses, franceses e alemães que logo, ainda no século XVI, se deixaram fascinar pelas “indiennes”, o algodão estampado à mão e com tinturas naturais dos indianos, e que eles rapidamente trataram de comercializar, copiar, batizar de sits, chintz, toile peinte ou calico, e a usar na decoração e no vestuário, os portugueses se preocupavam em trazer para a Europa brocados, sedas bordadas a ouro e algodões bordados com seda e com motivos históricos.
Embora não os tivessem adotado, era o porto de Lisboa, segundo um livro inglês de 1585, o maior centro europeu de comercialização dos pintados, até 1594, quando Felipe II da Espanha decretou a proibição do uso dos portos ibéricos ao comercio com os holandeses. Foi o que estimulou o surgimento, no inicio do século XVII, na Holanda, Inglaterra e França, de companhias como a das Índias Orientais, a East Índia e a Francesa das Índias, que logo fizeram chegar os pintados aos maiores e mais movimentados portos do Atlântico e do Mediterrâneo.
Inicialmente para uso na decoração, a principal importação era a dos Palampores, palavra que deriva do indi “palang” (cama) e do persa “posh” (cobrir). É um pano de algodão estampado que pode ser usado tanto como colcha, toalha de mesa ou pendurado na parede. Havia dois tipos de palampores. Embora sempre barrados, podiam ter, no centro, a arvore da vida ou, senão, um motivo mais formal. A fascinação dos europeus com a riqueza das cores e dos desenhos de pássaros, flores e animais das “indiennes” levou-os a se instalar nos três principais centros de produção de algodão da Índia. Ingleses e holandeses foram para Gujarat, na costa oeste, Bengala, na costa leste e Coromandel, no sul. Os franceses, por sua vez, se instalaram num importante centro de pintados em Masulipatan, o que lhes facilitou o acesso a um grande numero de mercados. A estamparia, na Europa, se transformou em um dos principais ramos da industria têxtil e, juntamente com o tráfico de escravos, sobretudo no século XVIII, o comercio do algodão estampado foi um dos mais rentáveis negócios do mundo.
Em 1613, apesar dos ingleses terem conseguido autorização para importar algodão sem pagar taxa, e de incitarem os indianos a usar os cunhos de sua escolha, eles começaram a produzir imitações em seu próprio pais e Lancashire se firmaria como o maior centro de estamparia da Inglaterra. Surgiam publicações, no final do século XVII, sobre o processo de estampar, a aplicação dos mordentes e o modo de usar o índigo e outras tinturas exóticas. Por toda a Europa, exceto Portugal, proliferavam os ateliês de “indiennage”, a ponto dos tecelões ingleses de seda e lã exigirem do governo a proibição do uso do algodão pintado e sua importação. Embora alcançado esse objetivo e a medida restritiva ter perdurado 73 anos – na França o embargo passara a vigorar uns anos antes – não se conseguiu erradicar o consumo dos pintados. Num comercio paralelo que os governos não conseguiam coibir, o algodão estampado virava moda e era sinal de prestigio. Apesar das restrições, um panfleto político, datado de 1719, dizia que “as pessoas da classe elevada andam vestidas com os proibidos chintzes indianos, as de classe media com os algodões estampados ingleses e as de classe mais baixa com a simples chita.”
Embora não haja uma explicação para o fato das chitas portuguesas serem chamadas “de Alcobaça”, cidade conhecida pelo grande Mosteiro onde estão enterrados D.Pedro e e sua amada Inês de Castro, e onde se pode visitar uma das mais belas cozinhas antigas da Europa, Alcobaça tem uma tradição têxtil que remonta ao século XVI. É de Gil Vicente a primeira referencia conhecida aos “panos” de Alcobaça, que seriam “grosseiros e com felpa por aparar”. Ali, sobretudo nas primeiras manufaturas, se fiava e tecia misturando algodão, linho e lã. A primeira de que se tem registro data de 1774 e estaria inserida na política de fomento do Marques de Pombal. Entre altos e baixos, fabricas que abriam e fechavam, fez-se um lenço que ficou notório, o tabaqueiro, conhecido por “o Alcobaça”, muito citado na literatura portuguesa. Tem fundo amarelo, azul ou vermelho, e barras em cores contrastantes, simples ou duplas.
A história conta que, antes de pôr-se louca e de partir para o Brasil, D.Maria I, visitou, em 1786, o Mosteiro de Alcobaça : “A Rainha acompanhada...vai ver a Fábrica de Lençaria, instalada nos baixos do Colégio da Conceição, onde mestre e operários, rapazes e raparigas fiavam, urdiam e teciam, seguindo depois em carruagem à Branquearia dos tecidos de linho e à fabrica dos Belbutes”.
Levantamentos recentes indicam que a primeira fabrica de estamparia oficialmente reconhecida em Portugal foi a de Azeitão, instalada no Palácio dos Duques de Aveiro em 1775. Apesar da política de Pombal de proteção da industria têxtil, coube a um francês abrir a fabrica de chitas de Torres Novas, em 1784, e a uma família inglesa, Graham, instalar, em1876, a de Estamparia e Tinturaria em Braço de Prata. Novas técnicas de tintura e cunhos de estampar mais elaborados eram bem vindos. A partir de 1777, as chitas portuguesas começaram a ser exportadas para o Brasil, considerado um bom escoadouro para a produção nacional. Tão bom, ao ponto do governo português ter promulgado uma lei protecionista, em 1785 proibindo a manufatura de chitas no Brasil...
Há registro também de manufaturas em Coima, Sete Rios e no Porto. Não importa onde, se longe ou perto de Alcobaça, o fato é que o pequeno Portugal passou a fabricar lenços, pintados e chitas a metro com motivos e barras de inspiração indiana, porém estilizados e com traços da estética francesa e inglesa. Surgiam as riscas largas, não bordeando mas intercaladas, fundos claros ou bem escuros, e afirmavam-se os desenhos de pássaros, aves exóticas, animais, flores, figuras militares ou de santos, européias ou orientais, chinoiseries, cornucópias, cestos, ânforas, ninhos, pinhas, frutas tropicais, enfim, tudo aquilo que faz tão reconhecíveis as tão típicas e tão portuguesas - com certeza - chitas de Alcobaça. 

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