SEM LIMITE PARA CRIAR (20 de maio de 2007)

Sofá lábios, de Mae West, de
Salvador Dalí e Edward James (1938)

Sofá Nuvem, com banqueta, de Isamu Noguchi (1948),
ainda é fabricado pela Herman Miller

Conjunto de louça Royal Crown Derby (1936)
tem desenho atribuído a Dalí
Telefone Lagosta (1938) também do artista catalão

Cadeira braço, de Dalí e Edward James (1936)
Armário antropomórfico de
Leonor Fini (1939) é a peça preferida da
curadora de Surreal Thimgs, Ghislaine Wood

Cabideiro de Man Ray, que tem a forma do corpo feminino

          

Exposição em Londres mostra a influência do surrealismo no design e em outras formas de arte.

Em 1924, entre as duas guerras, o poeta André Breton, em seu primeiro manifesto surrealista invocava a onipotência do sonho e da divagação como instancias superiores `a realidade. Estaria, junto com outros grupos vanguardistas, se rebelando contra o culto burguês ao material e se alinhando ao comunismo, idéia nova e na moda.
Este flerte, no entanto, não duraria muito. Saindo pela tangente, os principais artistas do surrealismo trataram de inventar objetos que fossem a representação material de desejos inconscientes e de preferência visando clientes endinheirados. Muito poucos foram capazes de se afastar do capitalismo e do comercio. De qualquer modo eram grande novidade, pois reagiam ao mesmo tempo contra o design tradicional e o racional da era industrial, e o que produziam logo passou a fazer parte do que, em Paris, era “in” e chique.
É o que nos mostra e evidencia uma bela e abrangente exposição recém inaugurada no Museu Victoria and Albert em Londres batizada Surreal Things: Surrealism and Design. Explora a influencia do movimento no mundo do design, englobando teatro, interiores, moda, cinema, arquitetura e publicidade, alem de enfatizar as tensões surgidas com a então crescente comercialização dessa estética visual. Ao lado de pinturas de René Magritte, Max Ernst e Salvador Dali, ali estão dispostos os mais extraordinários objetos do século vinte como o sofá vermelho “lábios de Mãe West” e o “telefone lagosta” criados por Dalí, a mesa com pernas de pássaro de Meret Oppenheim e os vestidos “lagrima” e “esqueleto”, da famosa costureira Elsa Schiaparelli.
Também, entre os trezentos itens expostos em Surreal Things ou Coisas Surrealistas chamam a atenção os costumes e os cenários desenhados por Giorgio de Chirico para o espetáculo “Le Bal” de Diaghilev, a Vênus de Milo com gavetas de Dali, a poltrona charrete em cetim de Oscar Dominguez onde o fotografo Man Ray reclinou uma modelo com vestido de Madeleine Vionnet para fazer uma de suas mais famosas fotos, e um estudo para a casa pintada de roxo do patrono e amigo de Dali, o surrealista inglês Edward James em Sussex na Inglaterra.
Na sessão dedicada a moda e a publicidade, além dos incríveis vestidos de Schiaparelli está o seu famoso chapéu-sapato e uma recente descoberta que é a gaiola surrealista que decorava o salão de costura da designer na Place Vendôme, uma criação de Jean Michel Frank. Há também exemplos de como o imaginário surrealista foi popularizado por companhias como a Shell e a Ford assim como por revistas como a Vogue e a Harper’s Bazaar.
Salvador Dali que se queixava que nossa civilização era por demais mecânica acreditava que era possível transformar o fantástico em real, criar na terra aquelas coisas mágicas que habitam os nossos sonhos. – O mundo precisa de fantasia, dizia ele.
Na verdade o que se fazia, com graça e lúdica irreverência e contrariando o esperado, era furtivamente alterar o contexto e a apresentação do objeto do dia a dia, transformando-o em objeto “trouvé” ou achado. “Coisas” que, depois , ao serem compradas e portanto reconhecidas por museus, galerias e colecionadores ganhariam status de arte.
Exemplo é a estória do encontro de Meret Oppenheim, portando um bracelete de metal forrado de pele, com Picasso e Dora Maar no Café de Flore em Paris quando o famoso pintor ponderou que qualquer coisa poderia também ser revestida com pele. Meret em seguida resolveu forrar com pele uma xícara, seu pires e uma colher. A xícara não tardou a ser vista como uma representação do corpo feminino e hoje é atração em vitrine no Museu de Arte Moderna de Nova Iorque. Como a cadeira charrete de Dominguez e tantos objetos outros nessa linha, desafiou os limites entre a simples mercadoria e a arte.
Era um tempo de primitivismo assumido, de formas sensuais do inconsciente contaminando o design, do biomorfismo, do antropomórfico, certamente uma reação ao construtivismo e ao retilíneo simplificador do modernismo de até então. Alexander Calder que se mudou para Paris em 1926 começou a fazer jóias com seixos rolados, osso, madeira e palha. Também artistas como Jean Arp, Juan Miró, Henri Moore mostravam em seus trabalhos a forma orgânica, curvilínea. Nos interiores as mesas e sofás ganhavam formas de ameba – vide os trabalhos de Isamu Noghucci que estagiou com Brancussi em Paris. Piscinas eram desenhadas em forma de rim. Mesas podiam ter pernas de animais, espelhos eram decorados com molduras cobertas com longos cabelos e cadeiras podiam ganhar forma de corpete de mulher.
Emblemática dessa era de luxo e fantasia é a desconcertante decoração feita pelo mundano Charles de Beisteguy em seu próprio apartamento em Paris, uma cobertura ultra moderna num prédio de autoria de Le Corbusier com vista para os Champs Elysées. Além de ali introduzir moveis neo-barrocos, transformou a varanda com uma lareira Luis XV, pinturas a óleo e um tapete tecido a mão como se fosse um campo de margaridas, num grande salão de recepção a descoberto.
Segundo a curadora da mostra, Ghislaine Wood, cuja peça preferida na exposição é o armário antropomórfico de Leonor Fini com figuras femininas meio animal meio humanas, o surrealismo foi responsável pelos objetos visualmente mais instigantes do século vinte. É seu desejo que esta exposição deixe clara a maneira pela qual o surrealismo inseriu-se no design criando uma nova linguagem visual da modernidade. O que é incrível, diz ela, é como esse movimento captou a imaginação popular e como até hoje ainda exerce esse poder.
Basta dar como exemplo a recente 46 Feira Internacional do Móvel em Milão onde ficou clara a existência de dois campos opostos: o dos neo-surrealistas com desenhos excêntricos e nem sempre muito práticos e o dos neo-racionalistas que ainda buscam na velha escola modernista a inspiração para uma melhor funcionalidade do objeto e do móvel no nosso dia a dia. Como disse um empresário novaiorquino por ali circulando, nesta disputa não haverá vencedores.

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