SANGUE NOVO NA CASA BRANCA (22 de fevereiro de 2009)

Na sala de jantar, Smith homenageia
Rembrandt ao criar um cenário
que lembra as telas do mestre holandês
Cama com dossel, inspirada na
que pertenceu ao pintor Balthus,
que mistura a simplicidade do ferro
com o luxo da canopla folheada a ouro

Na sala de estar, uma caixa de
jogos foi transformada em mesa
Michael pendurou pinturas do
Vesúvio junto a cômoda siciliana
com tampo de faux marbre

Informal, a biblioteca tem estante de
aço e madeira e banquinho de campanha,
que dão ao ambiente um toque greco-romano
Michael Smith

        

Michael Smith, o decorador eleito pelos Obamas, promete usar o raro e o barato no seu trabalho em Washington

Era preciso que ele representasse, como os Obamas, seus novos e mais famosos clientes, não apenas uma grande novidade, mas também mudança, ecletismo e descontração. A notícia de que o jovem Michael Smith fora escolhido o novo decorador da Casa Branca, ainda que tenha surpreendido, caiu bem, apesar de frustrar apostas em cima de nomes mais óbvios. Não houve o mesmo frisson causado por Jacqueline Kennedy quando, em 1961, escolheu um europeu, o francês Stéphane Boudin, e não um decorador americano para redecorar os salões de sua nova residência. Também, pelo menos até agora, não surgiram fofocas como as que corriam em Washington naquela época, entre elas, a de que a americana Sister Parish, convidada para fazer a parte íntima da casa, teria perdido o posto depois de ser vista dizendo à pequena Caroline que tirasse os pés de cima de um sofá recém-estofado.Sem medo de misturar estilos e móveis e objetos de procedência e valores os mais variados, Michael Smith parece prometer sangue novo à casa agora habitada por uma família de origens e etnias as mais diversas, como a dos Obamas. Viajado e eclético, com formação na Europa e nos Estados Unidos, ele há de, certamente, saber respeitar o sentido de representação e de tradição dessa tão emblemática casa americana, adicionando conforto, charme e riqueza cultural. Viajado e tendo estudado também artes decorativas no Museu Victoria & Albert em Londres, de ter trabalhado com o marchand de antiguidades Gep Duremberger e com o designer John Saladino, e a ver pelo seu trabalho, reportado não só em revistas, mas também em dois livros de sua autoria, Elements of Style, de 2007 e agora Homes, de 2008, é o que se pode prever. De Michael, escolhido entre mais dois concorrentes, a nova primeira dama Michelle declarou para a midia que “ ele comunga com a minha idéia de se criar não somente um clima amigável para a família, mas que também traga uma nova perspectiva e seja sobretudo representativo de artistas e designers americanos.
Como Michele e Barack Obama, ele parece seguro de si. Teria mesmo, há um ano atrás, demonstrado publicamente seu interesse por esse trabalho. Confiante, declarou à revista Dominó que o “estilo casual da família, o seu interesse por artistas americanos do século XX, e a possibilidade de usar marcas e produtos de preço accessível lhe serviriam de orientação. E, como se pode deduzir a partir de outros projetos seus, ele não vai ter medo de ao mesmo tempo juntar o high and low, ou seja o barato e o caro, desde que estéticos, como parece fazer Michelle Obama. Assim como ela pode estar um dia vestida com roupas da Gap e, em outro, de Narciso Rodrigues, Michael Smith é capaz de usar como pano de fundo para moveis antigos e raros, cortinas e paredes forradas com dúzias e dúzias de colchas da Urban Outfitters, cadeia de lojas bem popular nos Estados Unidos. Em “Houses”, ele explica que foi a maneira que encontrou para “descontrair e destituir de formalidade um grande salão.”
Obvio que a escolha de seu nome provocou uma corrida à internet para mais dele se obter informações. E seus livros já são candidatos a novas edições. Nascido na Califórnia há 44 anos e baseado em Santa Mônica, Michael tem currículo e história de sucesso. Em 2002 foi considerado pela revista Architectural Digest como um dos 100 melhores decoradores dos Estados Unidos e em 2004 foi a vez da Elle Décor decreta-lo o melhor decorador do ano de 2003. Com firma montada desde 1990, Michael tem, entre seus clientes celebridades como Cindy Crawford, Michelle Pfeifer, Dustin Hoffman e Steven Spielberg. Sua linha de moveis e tecidos, a Jasper, é atualmente vendida não só nos Estados Unidos mas também na Inglaterra. Seus produtos certamente serão mais conhecidos e desejados a partir desse seu novo trabalho, assim como imitado o seu estilo, que junta a vivacidade e a luz da Califórnia com influencias da velha Europa. É de seu gosto colocar velhos têxteis sobre colchas de camas, tecido xadrês em poltronas e usar camas de dossel estofadas. É preciso que o décor não pareça feito de um só jato: “Nada mais trágico do que um ambiente dando a impressão que a mobília chegou toda no mesmo dia e no mesmo caminhão” declarou recentemente.
Dele colegas e jornalistas só dizem maravilhas. Segundo Margareth Russel, editora da Elle Décor americana, “ele é um decorador extremamente versátil e que não impinge o seu estilo pessoal sobre os clientes. Acho que vai ajudar os Obama a fazer uma bela definição do que seja mudar, o que isso significa, e a trazer um novo clima, refrescado, sem no entanto deixar de respeitar a história da casa.” O colega Barry Dixon também é superlativo. Ao Washington Post declarou que Michael Smith “com um perfeito entendimento da história da estética e da decoração, é capaz de fazer ambientes muito confortáveis e contemporâneos. Em suas mãos, peças sérias e importantes perdem o rigor da antiguidade mas se mantêm reverentes à historia da nossa estética.”
Segundo Margareth Russel, ele “trabalha bem com famílias. Já o vi interagir com as crianças de seus clientes, tornando-se parte da família”. Consta que Michael já teria saído por ai para visitar lojas que oferecem mobiliário para quartos de crianças. A idéia era que Malia de 10 e Sasha de 7 já chegassem na Casa Branca encontrando aconchego.
Os meros cem mil dólares que receberá por esse seu novo trabalho hão de lhe render mais do que os vultuosos valores que teria ganho com a decoração do escritório de John Thain, CEO da Merril Lynch e que teria custado a bagatela de um milhão e duzentos mil dólares.
Em um de seus livros Michael Smith declara que um dos segredos da boa decoração é não ter medo de ser simples: “As vezes o que pode estar faltando é apenas um bom tapete de sisal”. 

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