PASSADO POSTO A VENDA (10 de junho de 2007)

O busto do marquês de Pombal
foi parar no sótão do palacete
A parte externa do terraço envolta
pela vegetação luxuriante e secular


Retrato de Borges da Costa

Retrato de Anna Amelia





Sala recheada de coleções
O goleiro da Seleção Marcos Carneiro

Casa dos Abacaxis, obra neoclássica de
José Maria Jacinto Rabelo, construída em 1843
Jardim tropical visto da varanda dos
arcos, em que se destaca o piso preto e branco

Casal Anna Amelia e Marcos Carneiro de Mendonça,
sempre elegante, que cultivava como poucos a arte de receber

          

O casarão dos Carneiro de Mendonça, marco da história do Rio, espera um comprador, no bairro do Cosme Velho.

A casa onde viveram Anna Amélia e Marcos Carneiro de Mendonça data de 1843 e foi construída para o Comendador Borges da Costa, bisavô de Anna Amélia e membro influente da aristocracia durante o reinado de D.Pedro II, pelo arquiteto José Maria Jacinto Rabelo, discípulo do famoso Grandjean de Montigny que veio para o Brasil em 1816 com a Missão Francesa e com a incumbência de criar no Rio de Janeiro uma escola de artes.
Era um tempo em que o Rio assumia ares de cidade grande e relevante e, com gosto e prazer, se deixava influenciar cada vez mais pelo que era moda, hábitos e costumes europeus. Afinal passara a sediar a corte portuguesa e com ela uma nova e tropical aristocracia.
No campo da arquitetura foi quando pela primeira vez aderimos ao neo-clássico, quebrando com séculos de tradição barroca, estilo tão característico até então das igrejas e casas baianas, mineiras, nordestinas, cariocas e de outras paragens tão nossas conhecidas.
Foi portanto e justamente um palacete bem século XIX, uma pequena jóia do neo-classicismo, o que o jovem e talentoso arquiteto Rabelo quis construir na Rua Cosme Velho 857, com fachada para o Rio Carioca e bem próximo do ainda tão charmoso Largo do Boticário. Consta que o professor e arquiteto francês Montigny, autor entre outras coisas do Palácio Itamaraty, que até a mudança da capital para Brasília abrigava o Ministério das Relações Exteriores, teria vivido o suficiente para testemunhar os sucessos do aluno brasileiro e dele muito se orgulhar.
A casa em questão acabou ganhando o nome de Casa dos Abacaxis pois em lugar das pinhas em cristal que costumavam funcionar como terminação das grades das sacadas, foram usados abacaxis de ferro. Na segunda metade do século o palacete foi vendido e só retornou as mãos da família em 1944 quando foi adquirida por Anna Amélia, afilhada de Euclides da Cunha, e Marcos, um mineiro de Cataguazes, historiador e ao mesmo tempo goleiro da seleção e campeão brasileiro. A mansão, por eles tão almejada, estava em péssimo estado mas mantinha todas as características da construção neoclássica. Conservava as janelas, as sacadas, as escadas, a clarabóia, as grandes tábuas de madeira, os mármores em xadrez preto e branco, os porões e o sótão. Com as plantas originais de Jacinto Rabelo ganhou garagem, varanda e grande terraço. No jardim foi instalada uma fonte de pedra antiga proveniente da cidade de Ouro Branco em Minas Gerais e na obra foram aproveitados materiais comprados de demolições nos quarteirões que estavam sendo desapropriados para dar lugar a Avenida Presidente Vargas. Nesta obra, que levou dois anos, o jovem casal teve a ajuda entusiasmada do amigo e famoso decorador Julio Sena.
Anna Amélia, além de poeta, tradutora, militante pelo voto feminino e fundadora da Casa do Estudante do Brasil, adorava colecionar. Comprava regularmente desde moveis de jacarandá, arte sacra do século XVIII, prataria , sobretudo paliteiros, e pratos blasonados. Teria herdado o gosto do avô materno, o gaúcho Luis Alves Pereira Machado, conhecido pelas compras que teria orientado amigos a fazer num grande leilão no Paço Imperial quando a coleção de D.Pedro II foi leiloada. A casa do Cosme Velho não raro era aberta ao público para exposições de arte sacra com a renda destinada a projetos de assistência social apoiados pelo casal.
Era famosa a hospitalidade dos Carneiro de Mendonça. Num ambiente de sensibilidade, cultura e inteligência, recebiam escritores, artistas, jornalistas, políticos, diplomatas brasileiros e estrangeiros. Ataulfo Alves deu show ali com suas pastoras, e assinaram o livro de visitantes figuras como os Orleans e Bragança, a Princesa Bibescu, Oswaldo Aranha, Assis Chateaubriand, Carlos Drummond de Andrade, Darcy Vargas, Eurico Gaspar Dutra , Gabriella Besanzoni Lage, e estrangeiros como Vivien Leigh, o marido John Gielgud e Franco Zefirelli.
Nas paredes muitos retratos de monarcas; do primeiro dono, o bisavô José Borges da Costa; na sala de almoço um de Dedé, a babá de Anna Amélia. Espalhados pela casa muitos moveis de época, exemplos importantes do mobiliário brasileiro, cadeiras, baús feitos para armazenar o ouro em tempos de colônia, mesas de encostar, cômodas e marquesas, inclusive muitos assinados por Julian Beranger, marceneiro europeu que se estabeleceu no Recife em 1826. De dossel e manuelina, era a cama no quarto do casal. Um busto do Marques de Pombal imperava na biblioteca de 11 mil volumes que incluía obras de Rugendas, Debret, Maximilian Von Wide assim como uma Brasiliana completa e sete mil documentos inéditos que estiveram no Arquivo Nacional de Portugal, a Torre do Tombo, e que são hoje uma das principais atrações da biblioteca da Academia Brasileira de Letras.
Muitas dessas riquezas se foram, assim como em outro mundo estão hoje os que freqüentaram os áureos tempos desta mansão. Com pena e por não ter condições de mantê-la, a família optou pela venda. É o que diz a critica de teatro e maior especialista em Shakespeare no Brasil, a carioca Bárbara Heliodora de 82 anos, filha de Anna Amélia e Marcos, que ali morou e criou suas três filhas. Também quem ali viveu vários anos enquanto fazia faculdade no Rio foi o educador e colunista Cláudio Moura Castro, filho de Márcia, outra filha do casal Carneiro de Mendonça e portanto neto. Com dez quartos e cinco salas e uma grande área verde, não é de espantar que a casa estivesse sempre de braços abertos para filhos e netos. Ainda ali do lado está a velha estradinha de ferro que leva ao Cristo Redentor e que continua transportando os visitantes até o topo. Chegado depois mas também muito perto, o Túnel Rebouças, que aproximou o velho bairro das Laranjeiras das partes mais novas da cidade, uma invenção de Carlos Lacerda, outro que freqüentava o casarão da Rua Cosme Velho. O que fica hoje para quem se interessar é a possibilidade de uma aventura, de poder dar vida nova a estes velhos interiores de sonho. Quem sabe com moveis contemporâneos, arte conceitual, tecnologia. Porque não? A Casa dos Abacaxis está a venda.

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