O SÉCULO 20 SOB A LENTE DE BEATON (29 de novembro de 2009)

Em rosa e azul pastel,
o tecido Beaton Sailors

Beaton Beauties, premiada em 2008






Na almofada decorativa,
a Hot Pink Rose ampliada

Listras e xadreses a
serviço da famosa Hot Pink Rose


Sob o olhar de Greta Garbo,
a bergére forrada com o
tecido do Garbo´s Eyes
No traçado preto dos olhos
de Greta Garbo, o azul que
Cecil Beaton dizia ser inesquecível



Fotógrafo que clicou de Greta Garbo aos Rolling Stones tem seus desenhos de tecidos reeditados


Produção de Maria Regina Notolini
Fotos de Tecidos Beaudesert/Divulgação

Um pouco de nostalgia não faz mal, sobretudo se reaparecendo com graça, leveza e elegância. Pois desenhos para tecidos traçados nos anos quarenta por um dos mais famosos “fashion” e “portrait photographers” do século vinte, o legendário Cecil Beaton, cronista da Vogue durante cinqüenta anos, designer gráfico e de cenários e costumes para teatro e cinema, estão de novo na praça.
Re-editados pela firma inglesa Beaudesert em 2007, desenhos que foram inicialmente idealizados para a fabricante de tecidos de alta costura, Zika Ascher ou que se baseiam em outros do seu velho sketch book de projetos, hoje se destinam a interiores e surgem sob a forma de seda, algodão, linho ou papel de parede. Ganharam um jeito contemporâneo que espontaneamente se coadunam com listras pouco precisas e xadrezes. Tem as típicas cores pastel do art decô e de sorvete dos anos 50, juntam as certeiras combinações de preto e branco, vison e marfim, prateado e preto, e apostam no tom shocking de um de seus desenhos mais famosos, o da Rose Hot Pink.
Os motivos são típicos Beaton. O náutico – ou porque a marinha inglesa se destacou na guerra ou porque era chique entre o “beautiful people” adotar o estilo “bleu,blanc,rouge” em cruzeiros na primavera - foi um tema favorito. É famosa a foto que fez de um marinheiro descansando, de 1944 e que inspirou o desenho “Beaton Sailors”. Já o “Beaton Beauties” é como uma toile de Jouy que junta desenhos em preto e branco e coloridos que fez de mulheres do então chamado café society e que ilustram o seu livro de 1929, The Glass of Fashion, recentemente re-editado. Quando do lançamento, em 2008, não só o “Beaton Beauties”ganhou o premio de melhor estampa do ano em Londres, como todos queriam descobrir quem eram as belas retratadas. Nenhum dos seus tecidos, no entanto, será mais emblemático do que o “Garbo’s Eyes”, tirado dos desenhos que fez dos olhos de sua grande amiga, musa e amada Greta Garbo.
Apesar do grande amor platônico de sua vida ter sido o amigo Peter Watson e que ele afirmasse ter tido um caso com Gary Cooper, consta que Beaton e a misteriosa Greta Garbo teriam de fato vivido um romance. De seus olhos deixou dito: Olhos assim nunca existiram antes, tão fundos, de um azul tão inesquecível, íris grandes e escuras e cílios tão longos que é impossível acreditar que sejam reais.
Um entre os quatro filhos de Ernest e Etty Beaton, um casal que se conheceu fazendo teatro amador, Cecil Beaton, nascido em Hampstead em 1904, cedo mostraria ser homem de múltiplos talentos. Na escola cantava, e aos 11 anos, pelas mãos da babá que era dona de uma Kodak 3A, daquelas que expandiam, começou não só a fotografar como também a revelar no porão da casa de seus pais. Anos mais tarde, depois de muito treinar usando a mãe e as irmãs como modelos, em plenos anos frívolos, loucos e criativos do pós primeira guerra, as fotos da poetisa Edith Sitwell parecendo uma escultura fúnebre e gótica, feitos em 1926, chamaram a atenção da revista Vogue.
Era o início de uma associação da vida inteira com a Condé Nast, e de um vai e vem profissional entre a Europa e os Estados Unidos escrevendo, ilustrando, fotografando e colecionando amigos.
Em 1931 enquanto ainda na Vogue inglesa, conheceu o alemão George Hoynegen-Huene e seu amigo e protegido Horst, outro então futuro famoso e que já foi tema destas páginas. Com Huene, que em novembro desse mesmo ano passou a trabalhar na Vogue francesa, não perderia o contato. Intercambiavam idéias e foi quando, muito naturalmente, ao longo dos anos 30, a fashion photography sofisticada atravessou a Mancha, o Atlântico, passou a ocupar as paginas das mais belas revistas “glossy” do mundo e ganhou status de arte.
Durante a segunda guerra Beaton trabalhou para o Ministério da Informação de seu pais, reportando com suas fotos sobre o ocorria na Inglaterra, no médio e no extremo oriente. É dele a famosa imagem da menina de três anos Eileen Dunne no hospital, vitima de uma blitz, agarrada ao seu ursinho de pelúcia. Suas fotografias de guerra, bem menos conhecidas do que aquelas feitas para o mundo da alta sociedade e da cultura, são documentos históricos preciosos.
Foi depois da segunda guerra, quando a Europa tentava se reerguer, que Cecil Beaton passou a aceitar convites de Hollywood e da Broadway para desenhar cenários e costumes para o cinema, balé e ópera. Em 1946 não só idealizou os cenários como atuou num revival de Lady Windermer’s Fan. Seus costumes para o musical My Fair Lady, com Julie Andrews e Rex Harrison, tanto encantaram as platéias que ele logo se viu desenhando os figurinos do filme Gigi em 58 e os de The My Fair Lady em 64 onde sua modelo foi a atriz Audrey Hepburn.
Não foi sem razão, portanto, que em 1955,57,60 e 70 arrebanhou os prêmios Tony por melhor costume para o teatro e, em 1965, ganhou o Oscar por melhor costume no cinema. Em 1972, condecorado pela Rainha da Inglaterra virou Sir Cecil Beaton. Dois anos depois, no entanto, um derrame limitaria sua capacidade de seguir fotografando. Em 1980, aos 76 anos idade, morreu.
Greta Garbo, Marlene Dietrich, Bárbara Hutton, os Duques de Windsor, Coco Chanel, Elsa Schiaparelli, Jean Cocteu, Pablo Picasso, Jean Paul Sartre, Marlon Brando, Bianca Jagger, Marilyn Monroe, os Rollings Stones, a Rainha mãe e a Rainha Elizabeth são apenas algumas entre as milhares de figuras do mundo social, da política e do show business que pousaram para as lentes de Beaton.
Suas imagens de glamour, estilo e elegância marcaram fotógrafos como o estrelado David Bailey, de quem foi companheiro na Vogue nos anos 60, e outros como Mario Testino, Annie Leibovits e outros contemporâneos famosos. Suas fotografias e desenhos são, e certamente continuarão sendo motivo de belas exposições como aquela que, comemorando os cem anos que ele faria em 2004, juntou 150 retratos na National Portrait Gallery em Londres no ano de seu aniversário.
Não só por meio dessas incontáveis e magníficas fotos, mas também de inúmeros livros e diários com texto impecável, Cecil Beaton nos deixou um registro muito claro sobre as transformações estéticas ocorridas durante o século XX e sobre as pessoas que, por sua atitude e comportamento, foram fundamentais para do formação do gosto num período muito rico da história da moda e da decoração. 

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