O ESTILO TEATRAL DE UM MESTRE (28 de junho de 2009)
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| A casa de Tony em São Francisco, sofás de veludo e toque oriental |
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| Pavilhão dedicado a São Francisco de Assis que foi destruído pelo fogo em 1986 |
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| Casal Duquette no estúdio da Fountain Avenue |
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| Janela com vidro soprado da Tiffany |
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| Lustre de metal e conchas douradas criado para uma exposição solo |
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| Console hoje editado pela americana Baker |
Tony Duquette viveu na Hollywood dos anos dourados e fez sucesso com seu décor extravagante.
No final dos anos 40 e início dos 50, enquanto o mundo internacional das artes tendia para o modernismo, a elite glamurosa de Hollywood que, incólume, sobrevivera às dificuldades da guerra, se mantinha fiel a uma estética de fantasia, brilho, pastiche e escapismo. Pois foi no auge desse ambiente de paraíso na terra, de atores estrelados e festas extravagantes, que surgiu Toni Duquette, em 1941, aos 27 anos, com sorte, talento e atração por tudo o que fosse teatral e cenográfico.Uma carreira de sucesso cuja partida se deu num jantar em Los Angeles, em 1941, em casa de James Pendelton, ao qual Duquette não estava convidado, mas era o autor do impressionante centro de mesa neo-barroco com figuras de gesso representando os quatro continentes e encrustado com vidros, jóias e falsas pedrarias. Entre os presentes, a septuagenária Elsie de Wolfe, a famosa designer americana que acabara de deixar para trás uma Europa em guerra e a Paris onde vivia para se refugiar em Beverly Hills.
Encantada com a decoração da mesa, não só encomendou de Toni Duquette um móvel para a sua própria casa, como apresentou-o a quem pudesse, como ela, também se deixar seduzir pelo charme e talento desse seu mais novo e jovem “protege´”. Não demorou a que Toni passasse a ter como amigos e clientes os mais famosos personagens da então chamada realeza americana: Elizabeth Arden, Doris Duke, Vincent Minelli, Herb Alpert, Gloria Swanson, Greta Garbo e Mary Pickford.
Para a casa do ator James Coburn fez um extraordinário décor baseado no orientalismo. Não só instalou no salão uma gigantesca lanterna chinesa, como a ela adicionou terminações e objetos curiosos. Uma enorme ave do paraíso entalhada e policromada, vigas no teto encrustadas de conchas ou abraçadeiras de cortinas feitas com espremedores de limão podiam tranquilamente fazer parte de um décor Toni Duquette.
Inspirava-se em Veneza, no barroco, na arquitetura renascentista, nas lendas do Rei Arthur, no cinema antigo. Fantasiava clientes imaginários e piamente acreditava que insetos tinham estilo. Em seu estúdio em West Hollywood recebia os clientes e amigos para belas, alegres e sofisticadas festas temáticas e à fantasia. Sem parar, caiam-lhe do céu pedidos para criar sets de filmagens, costumes, cenários para musicais e até mesmo jóias para a Duquesa de Windsor, e para “altos” costureiros como Gucci e Balmain. Tony Duquette ganhou individuais de seus trabalhos em diversos museus nos Estados Unidos e, por obra e graça de Elsie de Wolfe ou Lady Mendl, como ele a chamava, chegou a expor no Louvre, em Paris, em 1951, um ano após sua morte. Esse papel de “madre protetora” por ela até então exercido, foi em seguida assumido por outra cliente e admiradora, a milionária e também americana Cobina Wright .
Um homem de sorte, Tony Duquette foi também no casamento. Num Valentine Day, em 1949, levou ao altar a aluna e artista plástica Elizabeth Johnstone, uma geminiana como ele. Apelidou-a Beegle, pois teria o traço poético da águia e a capacidade criativa de uma abelha. Era o início de uma afinada parceria que durou quarenta anos, e de uma vida a dois em diferentes propriedades sempre decoradas de forma extravagante. Nas suas próprias casas, era onde mais ousava, se permitia o inimaginável e se superava aproveitando e reciclando tudo o que retornava dos sets e cenários que criava. Gostava de usar e abusar da malaquita, dos corais, chifres, conchas e peles de animal. Nenhuma superfície ficaria sem algum revestimento. Ou qualquer canto intocado ou sem o brilho de sua imaginação. Era um comprador voraz. Costumava dizer que fazia apenas “desencavar” o que estava perdido em baús e porões.
Apesar de residente no sul da Califórnia onde tinha casa, de possuir um rancho em Malibu e uma pequena casa com paredes verde escuro e revestidas de treliça branca no bairro de Neully, em Paris, o casal não hesitou em adquirir uma segunda residência, bem vitoriana, em São Francisco onde passava boa parte de seu tempo. A entrada ganhou forma de gruta e elementos asiáticos foram adicionados e se somaram às janelas com vidro Tiffany soprado e colorido, tão típicas do estilo vitoriano made in USA no século XIX. Para os jardins, criou os belos pavilhões que um incêndio destruiria em 1989 e que Tony, sem se deixar intimidar, logo reconstruiu sob um novo e ainda mais extravagante décor .
Toni Duquette morreu em 1999, aos 85 anos. De alma leve, sem dor ou medo. Do mesmo modo como sempre viveu, com a clara consciência de que a vida de suas decorações, tal como a dos sonhos e das fantasias, não haveria de ser eterna. Foi-se do cenario terrestre deixando aos aficionados do décor a lição de que “ Decorar não é uma tarefa de superfície. É um impulso espiritual inato e primordial.”
Sorte para nós e para a história do décor, que seu sócio de mais de trinta anos, Hutton Wilkinson, fiel guardião dos arquivos, das casas e dos pertences do casal, tratou, junto com Wendy Goodman de produzir o belo livro, TONY DUQUETTE, A STRANGE EDEN, que não só nos mostra, com belas fotografias, as extravagâncias criadas por Duquette ao longo da vida como nos conta a historia, desde a infância, desse “merlin” do mundo estrelado do design : -“ Toni era um ingênuo e dono de um estilo divino. Era capaz de, em poucos segundos, transformar completamente a paisagem a nossa frente.” Lendo o livro ficamos sabendo que um tio-bisavô de Toni foi sócio do famoso William Morris em Londres no século XIX, que sua família tinha inclinações musicais, que seus pais nunca se opuseram ao jeitão excêntrico do filho, e que, bem ao contrario, sempre estimularam os dotes teatrais que, ainda em criança, ele já manifestava na montagem de pequenos shows de marionetes. Foi inclusive uma iniciativa do pai, conseguir um primeiro encontro do filho com o famoso William Haines, o ator que virou designer, já foi tema desta coluna e é considerado o grande precursor desse decór hollywoodiano do qual Tony Duquette, sem sombra de dúvida, seria um de seus maiores expoentes.






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