O CORPO E A ALMA PEDEM PRAZER (24 de janeiro de 2010)
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| Retrato de 1753, de Liotard, Maria Adelaide de França lê preguiçosamente |
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| Pintura de Samuel van Hoogstraten, de 1658, os chinelos do dono da casa evocam relaxamento |
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| Retrato de Mme Recamier |
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| O antidivã de Tom Sachs não parece trazer conforto |
Ao longo da história, obras de arte e design mostram a necessidade que o ser humano tem de relaxar
No universo do mobiliário a forma segue as trilhas da função há bem mais tempo do que quando, no século XX, a frase “Form follows function” se transformou em mantra da Bauhaus. Sendo a busca do conforto e do prazer para o corpo e a alma, e a vontade de trazer o bem estar para dentro de casa tão inerentes ao homem, entende-se que é no interior domestico que melhor se verá a tradução dessas necessidades.E nada melhor para perceber a evolução dos usos e costumes do ser humano, de seus hábitos, intimidades e prazeres - do aristocrata ao burguês ao homem do campo e da fabrica - do que observar o que deixaram registrado em quadros os pintores de interiores ao longo dos séculos. Uma boa fonte é o livro de Frances Borzello, “At Home”, o interior domestico na arte, editado pela Thames and Hudson .
Percebe-se que o corpo humano, apesar dos condicionamentos culturais, de casta e protocolares, na cata de conforto, vai buscando equilíbrio e proporção em seu dia a dia de forma intuitiva. Na pintura Os chinelos de 1658 do holandês Samuel Van Hoogstraten, um interior sem figura humana onde apenas se pode ver um par de chinelos e um molho de chaves, fica patente a necessidade de conforto por parte de seu dono. E num quadro como o de autoria de Jean Etienne Liotard de 1753, um retrato de Maria Adelaide de França, se pode ver como a preocupação com o conforto foi modificando a forma dos estofados e também a atitude da sua ocupante. Inicialmente os interiores mais descontraídos eram mais comuns entre a classe media e a burguesia, menos constritas às formalidades das cortes. Ali, no entanto, numa imagem pouco comum entre membros da realeza, e num vestido turco muito em moda no período, a princesa, refestelada e com os pés em cima de um aconchegante sofá verde, parece se dar muito livremente ao prazer da leitura.
A cadeira de balanço que teria surgido no século XVIII quando foram adicionadas barras curvas a uma cadeira comum, foi citada pela primeira vez como entidade “per se” no Dicionário Oxford inglês em 1787. Depois da cama, do divã ou cama turca e da nossa rede, a cadeira de balanço talvez seja a peça de mobiliário mais associada ao prazer e ao descanso. Napoleão tinha a sua no quarto de dormir. Já Mark Twain preferia balançar-se na varanda. E foi em sua cadeira de balanço extremamente confortável posto que acolchoada, que Abraham Lincoln foi assassinado. Picasso, que gostava da ainda hoje tão minimalista e graciosa Thonet, pintou-a distorcida em inúmeros quadros.
“La Chaise Longue” de Edouard Vuillard, que retrata uma mulher lendo um jornal e que data dos primeiros anos do século XX, é uma de suas pinturas mais famosas. Matisse, que nunca escondeu o gosto pela decoração de interiores, nos anos 40, sentou uma de suas modelos numa chaise Lê Corbusier de pele branca e preta, ainda hoje tão usada pelos decoradores contemporâneos. E é sobre uma cama turca ou “lit de repôs” desenhada pelo famoso Jacob Desmalter que o pintor David pintou Mme Recamier, cujo nome virou sinônimo do móvel, um dos quadros mais visitados hoje no Louvre e que deu ensejo ao trabalho “Bitch Lounge”, o irônico anti-divan, do escultor contemporâneo alemão Tom Sachs.
Apesar das treslouquices da conhecida Rainha Maria Antonieta, impossível não entender que ela quisesse fugir da rigidez protocolar da corte, onde até os partos reais, realizados nas enormes camas pousadas em cima de um tablado eram testemunhados pelos curiosos e bisbilhoteiros cortesãos.
Sem dúvida, pelo menos em matéria de colo e de convite à preguiça e ao prazer, a rainha dos moveis é a velha e sempre aprimorada cama, peça primordial posto que nela passamos um terço de nosso tempo. Quem ainda não sonhou ou foi mimado com um gostoso café da manha na cama, de bandeja, o jornal ao lado e até com vasinho de flor para lembrar que o dia está apenas começando? Hoje, sabem bem os hotéis e as lojas de cama e mesa, que muitos não se conformarão com uma cama de casal tamanho standard. Terá de ser King ou no mínimo Queen.
Buscar o prazer, dar asas à preguiça, permitir-se o que a religião católica definiu como um dos sete pecados capitais exige cabeça fresca e sem culpa. Ou seja acreditar que o que entendem os católicos como preguiça nada tem a ver com o “ócio” que os romanos opunham ao “negocio”. Em resumo e em termos mais modernos, sabemos que tem hora de trabalhar e hora de se refestelar. Cícero e Sêneca, em suas priscas eras romanas, já diziam que o ócio é fundamental ao homem letrado, um privilégio indispensável para que ele possa exercer a cidadania, ou seja para pensar e depois difundir as suas idéias. E para isso seria imprescindível a tranqüilidade de ser dono da terra ter casa própria.
Teorias políticas a parte, o assunto, no entanto, ainda causa polêmicas. Um livro publicado na França em 2004, Bonjour Paresse ou Bom dia Preguiça, da psicanalista, escritora e economista Corine Mayer rendeu-lhe um pito disciplinar por parte da Electricité de France, empresa onde é empregada. Fazendo referencia ao famoso Bonjour Tristesse de Françoise Sagan, com cinismo e humor, Corine declara que, a partir da sua experiência, trabalhar demais não parece ser compensatório e que muitos funcionários galgaram as escadas da corporação sem qualquer esforço.
Ninguém há de querer – até porque a posição que adota não parece muito confortável - ser um bicho preguiça que dorme catorze horas por dia no topo de uma arvore, descendo dali apenas uma vez por semana para atender as suas necessidades fisiológicas. Nem tampouco o homem há de apreciar dormir em catres duros e austeros de punir pecados como o dos frades franciscanos. Nem mais haverá – ou quem sabe posso estar enganada - quem queira fazer parte de um harém de múltiplas mulheres com sultões e marajás entre cortinados, sedas e brocados.
Melhor e mais indicado seriam umas boas férias, ou no Egito dos faraós, na Índia dos nizans e marajás, na Turquia dos sultões ou visitando os museus de artes decorativas da velha Europa para descobrir como se davam ao ócio e ao bel prazer nossos antepassados. Isso se você não for embalado pela preguiça e preferir algo bem menos cansativo como uma praia local, bem nossa e brasileira, areia branca, com direito a sesta na rede sob árvores frondosas.




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