NUNCA SAEM DE MODA (14 de dezembro de 2008)

Fitas e bandeirinha enfeitam bolo
Amostras com motivos
que vão do tantan ao poá

Fitas forman cortina em passagem de porta

Fitas entrelaçadas
podem virar painéis e xales

          

Em época de Natal, as fitas mostram seu poder de sedução desde o século 17.

Na Europa, sobretudo na França do século XIX, no auge da indústria da passamanaria, desenhos magníficos e meticulosos eram feitos para a confecção das fitas. Podiam ter motivos os mais diversos, como o dos “tartans” escoceses, “pois”, listras de cores diferentes, barrados, flores, folhas e os raros e curiosos desenhos imitando o “patchwork”.
A fita nunca deixou de estar presente nos chapéus das damas do período, nem nas anáguas, nem nas saias, mangas, babados ou onde se pudesse fantasia-las. Eram quilômetros e quilômetros de fitas tecidas com esmero, larguras variadas, fios coloridos se misturando a outros, desaparecendo para de novo surgir, e se transformar em tufos de veludo em relevo, quadrados ou redondos, sobre fundo de cetim ou tafetá. Enroladas ou trançadas, eram usadas como detalhes nos ricos e suntuosos cortinados que decoravam as camas dos nobres e aristocratas, e na ornamentação de muitas outras peças de mobiliário. E, de acordo com as cores das bandeiras dos paises ou das corporações, serviam para enfeitar o peito dos militares e autoridades, ao atar medalhas e condecorações.
Muitos dos desenhos para fitas eram feitos com bico pena, aquarela sobre lápis, goma arábica, tinta metálica e a adição ocasional de pedaços de seda. Tinham de ser meticulosamente apresentados de modo a que o criador de cartões, na fabrica, pudesse compreender o desenho de forma muito precisa. Hoje, estes preciosos desenhos geométricos são peça de museu, até porque representam uma das fórmulas mais antigas em matéria de padronagem para fitas. Foram objeto de curiosidade do holandês Piet Mondrian nos anos 40. Passam efeitos de ilusão espacial muito rigorosos que fascinavam o pintor das geometrias.
É secular, a história da fita: uma atividade que se iniciou no século XVI, no reino de Francisco I, na pequena cidade de St.Etienne e sua vizinha St.Chamond, perto de Lyon, e que teve o seu auge no século XVII, depois que Henrique IV passou um edital recomendando que fossem plantadas em solo francês as amoreiras, com o expresso intuito de estimular o cultivo do bicho da seda.
Durante os reinos posteriores, aqueles de todos os Luizes, o design francês da fita dominou a moda na Europa. Colbert, o Ministro Chefe das Finanças de Luis XIV, reorganizou a economia de modo a favorecer a produção de tudo o que fosse de luxo. A fita era, desses itens, um dos mais rentáveis. Na Inglaterra, em 1770, foi inventado um tear com tecnologia de ponta, o Dutch Engine Loom, capaz de produzir seis fitas ao mesmo tempo. As guerras napoleônicas, no entanto, exigiram mais soldados, e, com isso, foram-se das fábricas, os operários melhor preparados. Não sendo mais possível produzi-las localmente, passaram a ser contrabandeadas da França. Guerra alguma haveria de esmorecer a sede dos ingleses pelo que fosse “fashion”. A mania, nesses idos de 1813, eram as fitas com bordas picotadas ou recortadas, as “purl-edge” e “picot-edge”. A ordem de produção só seria alteraria, caso algum monarca morresse. Seria o momento da fita preta passar à frente das outras, e aparecer seduzindo, com texturas e brilhos diversos: de cetim, veludo, barradas preto no preto, plissadas e debruadas.
Como todas as histórias de sucesso, tem principio, meio e fim. Disputas trabalhistas, a concorrência da Suíça e da Alemanha e – o que ainda vivemos na pele - as altas taxas impostas pelos Estados Unidos, fizeram acelerar a inelutável decadência. Empresas mudaram de mãos, novos grupos e técnicas surgiram e, apesar de não serem, hoje, fabricadas nos mesmos velhos moldes, ainda há quem as faça preciosas e de alta qualidade. Se não mais podemos encontrar fitas com a mesma estampa de um tecido, criando um composé, como no retrato de Madame de Moitessier pintado por Ingres, um dos mais belos quadros da National Gallery de Londres, ainda há belas fitas sendo produzidas no mundo.
E que podem ser usadas e compostas com graça e criatividade. Seja prendendo um envelope a um presente, sob um lacre, atando um documento, o guardanapo, um buquê de flores, enfeitando um bolo, o cabelo da noiva ou da daminha, virando bandeirinhas num varal, debruando lençóis, segurando um drapejado, ou se transformando numa cortina de passagem de porta no lugar daquelas tão comuns de contas. E se intercaladas, podem virar xales, almofadas, painéis, forrar biombos e se transformar em colchas de cama.
Tanto no Museu de Artes e da Moda de Paris, como no Museu Victoria&Albert em Londres, desenhos preciosos e álbuns com mostruários de fitas ainda hoje fascinam e inspiram estudiosos e fabricantes. Na velha Inglaterra, onde nada sai de moda pois tudo se recicla e volta de cara nova e gosto de antigamente, e onde o que é “vintage” encanta pois traz em seu bojo alguma história, Annabel Lewis fundou, em 1990 a VV Rouleaux, especializada apenas em fitas. Garimpou a Europa inteira atrás de fabricantes e hoje, quase vinte anos depois, tem um canto nas grandes lojas de departamentos alem franqueados pelo pais. Lembro, quando morava em Londres, de ali passar horas a fio fascinada com a variedade disponível e com as possibilidades que a fita engendra. Muitas vezes encontrei fitas antigas em antiquários e brechós. Difícil resistir à sedução. E difícil também não recorrer a elas nessa hora de fazer pacotes e de inventar decorações natalinas, como nesses dias que antecedem o Natal. 

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